Writing, Flying and Huevos Revueltos

February 06, 2006

Um dia eu fui tomada por uma impressão que me marcou profundamente, ficando a coisa marcada em meu corpo como uma febre sem razão, sem mal estar aparente, só com este calor que queima e um calafrio que esfria os ossos.
Eu suava frio! E esta percepção ficava de mais em mais forte como se a coisa fosse mesmo uma realidade palpável e, assim, bêbada de ausências que eu nem podia chorar, vi uma mulher caminhando em minha direção. Ela vinha do meio do nada, saída das pedras úmidas, e nas mãos, uma espécie de animal puxado por uma coleira. Quase perto de mim, virando-me para olhá-la, fiquei por um momento sem reação quando meus olhos encontraram sua penumbra - porque eu não conseguia vê-la distintamente? - . Surpresa, observei por um instante fugidio a lentidão de seus movimentos, como se ela bebesse cada segundo que passava, como se houvesse de vez em quando uma parada no tempo e como se eu fosse obrigada à seguir o mesmo ritmo. E então, ela veio chegando nesse quase tempo parado e lançou um sorriso - pude perceber o sorriso na sombra indistinta, eu sei, foi verdade, não enlouqueci- e um gesto. E eu não pude acreditar!

Mais real do que eu mesma… eu pensei, hipnotizada. À nossa volta, o tempo vivia seu caminho independente de nossa presença, como se todos ao redor tivessem uma existência interligada através de um laço que por nós tinha-se quebrado; entre nós, eu e eles e entre ela e eles. Mesmo percebendo o movimento que se passava de gente indo e vindo rindo falando, eu sentia no entanto a distância. Por um breve instante a idéia de que estivêssemos invisíveis para o resto do mundo me passou pela cabeça e eu comecei a duvidar da realidade que eu percebia. Neste breve instante, muitas batalhas se passaram perante meus olhos navegadores: testemunhos de angústias, medos, esperanças, desilusões e um amor tão terno e longínquo e profundo...

Sufocada de tanto amor, dor e cicatrizes, olhei-a sem poder extrair de mim mesma uma ínfima palavra – porque adressar palavras à uma visão? - e fugí. Em um canto de minha alma eu soube que ela tinha chegado de um mundo que nós dois conhecíamos. Eu e ele, o remador.

Em passos rápidos, quase correndo, desci a rampa e saí do parque em direção aos carros estacionados e foi o tempo suficiente para ousar um último olhar de soslaio, quando a vi que me observava - ela e seu olho único-. Sua boca naquele instante mesmo se abrindo lentamente para balbuciar uma quase canção que ia ficando de mais em mais suave e se terminando por um som tão cristalino que criava ecos nas árvores que nos circundavam. O vento que turbilhonava se acalmou enquanto permanecia uns restos de sons e vibrações quase inaudíveis de assobios de cobras, canções de pássaros, mergulhos de peixes e sorrisos de crianças. Distinta imagem foi ela, a que me acompanhou, a de sua boca redonda de estupefação, do canto misericordioso e das rendas de seu vestido na neve molhada; seus cabelos eram um labirinto de fios de ferro e serpentes.

(extraído do texto "Gorgô, ou La mort dans les yeux", da minha própria pluma e publicado em junho 1996 pela revista Concordia, Montreal).


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January 30, 2006

The Lord of the Song



Links:

The Lord of the Song (no final tem uma foto da casa do Leonard, na neve (eu na neve! Rsos)
http://montrealswinds.blogspot.com/2006/01/lord-of-song.html

Versão original de Hallelujah, de Cohen
http://montrealswinds.blogspot.com/2005/11/verso-original-de-hallelujah-de-cohen.html

Tradução minha, p/ português, de Hallelujah, de Cohen
http://montrealswinds.blogspot.com/2005/11/traduo-rapidinha-da-ks.html


Gente, desculpe não ter estado em casa p/ receber os que vieram fazer uma visitinha. Estou me descabelando em competição com o tempo; saí de circulação por causa disso e não respondi e nem fui visitar os @migos. Estou cheínha de trabalhos, alguns acumulados, e sobretudo, com problemas com o meu computador. Aí só uso o laptop e p/ mim não é suficiente porque nele não instalei todos os programas que preciso p/ trabalhar. Já deu p/ ver o stress, né? Vou respondendo tranquilamente e estou tentando também terminar o texto sobre a dor do parto, que mais de um já me cobrou, inclusive a Loba.

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Hoje, estou é a fim de falar no meu amor pelo poeta aí de cima.

Leonard Cohen doôu sua própria casa, aonde ele morava com Suzanne, p/ ser o Centro Zen Budista do meu bairro - ali em frente do parquinho português da rua Marie-Anne e esquina com Saint Laurent, aonde eu fazia minhas meditações semanais - agora parei porque me dedico mais à Meditação Vipassana do que ao Zen-.

Rufus Wainwright e Leonardo vêm ambos de Montreal. Lembro-me que uma vez Leonard Cohen disse que ele foi muito influenciado por seu vizinho e primeiro professor de violão, um exímio músico cigano-espanhol que se suicidou por amor.

Nick Cave, inspirado pela canção “Hallelujah” de Leonard, fez a sua própria versão, a qual tem a voz da mãe de Rufus, que ainda mora em Montreal, no côro final.

“Hallelujah” continua a ser regravada por muita gente depois de mais ou menos 20 anos, mas todos são unânimes em reconheer que a melhor interpretação ficou na voz de Jeff Buckley, mesmo talvez por causa desta ambivalente sombra espiritual e demais humana que cercava o artista, morto relativamente jovem.

A lista de intérpretes de “Hallelujah”, apaixonados pela canção, é longua: Bob Dylan, Rufus Wainwright, Allison Crowe, Kd Lang, Damien Rice, Bono, Sheryl Crow. Segundo vários críticos, é possível que nenhuma outra canção tenha conseguido explorar de forma tão profunda a relação entre amor, sofrimento, música e espiritualidade. Os versos de Cohen críam um sentimento de paz no meio desta imensa dor que dilacera o coração do poeta, sendo paradoxalmente, à nivel musical e lírico, uma ode ao sofrimento e à beleza do amor.

Se se quizerem ouvir, é só clicar aí embaixo:

-Hallelujah na versão do cavernoso Nick Cave (2001), que foi inspirada pela original de Cohen;
-Hallelujah, considerada até hoje a melhor interpretação (1994), na voz de Jeff Buckley que morreu tão cedo, tão lindo, tão divino e com esta voz tão santificada;
-Hallelujah interpretada (2003) pelo príncipe irônico e desabusado Rufus Wainwright;
-Hallelujah interpretada por Leonardo (1984? - letra mais religiosa);
-Hallelujah na outra versão de Leonardo (1988? - letra mais sexual) .


Versão original de Hallelujah, de Cohen
Tradução p/ português


Leiam: Amazing Grace: Jeff Buckley - Best Music Documentary at the San Francisco World Film Festival.




Em frente da casa de Cohen num fim de tarde, no meio da neve, em fevereiro 2006.

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I BLOG HERE

Fui visitar o Paulo Kunha e acabei sabendo do I BLOG HERE, uma brincadeirinha que é mostrar o local aonde a gente fica 'blogando'. Com todos os meus problemas técnicos, a coisa foi ficando p/ depois mas agora eu vou colocar as fotos aqui, e quando tiver tempo e paciência p/ colocar o ID e responder o questionário p/ publicar a foto lá, eu faço isso. Sou geminiana e meio compulsiva.

Normalmente é aonde trabalho, olhando a neve que cai.


Quando só escrevo e o sol está lindo atrás da casa, ou o meu computador está quebrado - como agora-, uso o laptop e vou p/ a cozinha e fico olhando a neve que cai e o portão da garagem do vizinho aonde escreveram uma frase pornográfica em homenagem ao Bush.





January 23, 2006

As Bruacas e o Xamã

Foi uma semana rica e esperta, teve de tudo, até o renascimento de uma antiga surpresa. Vi amigos e conhecidos, dançamos muito, rimos à rôdo, gritamos e pulamos nas poltronas, e conheci novas pessoas sinceras e profundas. Mas revi pessoas que carregam uma certa dose de agressividade e frustações interiores, e que já me incomodaram muito no passado mas que a distância necessária me fez esquecer. Ter presenciado as larvas da frustação alheia se infiltrarem no meu ar, e claro, às custas da minha pessoinha, é algo que continua à me incomodar, tenho que reconhecer.

Mas eu tenho uns amigos geniais, realmente geniais. Eles são engraçados, inteligentes, cultos, ousados, destemidos e filósofos. O que me ajudou foi isso porque depois de ter sido sorrateiramente envenenada no sábado com a frustação de duas bruacas mal-amadas, tive encontros maravilhos no domingo de manhã com o meu osteopata budista e à tarde, no batizado do filho da Ângela e do André, com familiares e amigos deles que são pessoas verdadeiramente interessantes e honestamente interessadas; e à noite, no jantar na casa do Fábio, comemos uma muqueca baiana "verdadeira". Ramon até tirou o leite do xuxu... (sabiam que a gente faz isso na verdadeira muqueca? sabem o que é tirar o leite do xuxu?). Quem cozinhou foi o Cláudio, e estava uma delícia. Além do mais foi oficialmente a primeira vez que eu comi peixe. Sim mes dames, comi peixe!

A semana me provou mais uma vez que o inferno de cada um neste doce mundo é criado por ele próprio.

Antes de nos deliciarmos com a muqueca, nas nossas conversas espirituais, e outras nem tanto, o Fábio me falou sobre Os Quatro Compromissos, de Don Miguel Ruiz, que são hábitos e conceitos simples que todos conhecemos mas que na rotina deixamos de praticar. E que são, de verdade, uma simplificação da filosofia de Buda.

Eis os 4 compromissos (decisão íntima e pessoal):


  1. Palavra impecável: Falar com integridade. Não mentir. Não falar mal de si nem dos outros. Não minto quando digo que as duas bruacas são invejosas e mal comidas. Só que sou um pouquinho agressiva com a miséria delas, pobres coitadas. Vou tentar arreparar isto... Anyway, a palavra justa é o acordo mais importante que podemos ter consigo mesmo e o mais difícil de se cumprir. Parece simples, mas é extremamente poderoso. A palavra é o poder que temos de criar. A palavra é força; é o poder que possuímos de expressão e comunicação, de pensar e de criar os eventos da nossa vida. A palavra seria a mais poderosa ferramenta que possuímos como seres humanos. A palavra engloba a dose de energia, boa ou má, que imprimimos no nosso falar. Assim uma pessoa simples ou mesmo sem instrução pode falar de forma inatacável. Uma outra pessoa, letrada, pode falar de forma maledicente, invejosa, vingativa ( ...as bruacas); nesse caso, estaria falando de forma deficiente. A palavra justa inclui não mentir e não falar mal dos outros nem de si mesmo, e nem de situações (eu já disse que tenho que aprender...).
  2. Não reagir à nada de maneira pessoal: O que eu não estou fazendo. Quando as 2 bruacas, por exemplo, ficam ciumentas porque segundo a palavra de uma delas "sou o centro das atenções" e eu sei que as 2 gostariam de estar no meu lugar, tento enxergar nesta reação das ditas cujas a loucura pessoal de cada uma. E a minha loucura também porque mesmo se estou injuriada neste momento, nem por isso sou inconsciente. Sou responsável. O pior é que elas se incomodam comigo pela minha maneira de ser, não porque eu fiz algo contra elas ou contra alguém. Existo e me exprimo!
  3. Não fazer suposições: Ter a coragem de fazer perguntas e exprimir seus verdadeiros desejos. Comunicar claramente para evitar tristeza, equívocos e dramas (uma delas já me confessou, num momento de fraqueza ou anseios espiritualistas e quando ela fazia terapia, que seu sonho desde pequena era ser o centro das atenções, o que eu conseguia relativamente bem, mas confesso que sou só curiosa e gosto de me comunicar quando o assunto em pauta me interessa, não porque goste de ser o centro das atenções. Mas a dita voltou aos seus antigos demônios depois de ter ficado anos luzes sem cruzar a minha digna pessoa; por quais cargas do diabo, ignoro. Tá precisando de renovar a terapia ou a prescrição de prozac).
  4. Dê o melhor de si mesmo: Isso eu aprendi com a vida. Sem comentários.

Nota: Quando uso o termo BRUACA, não estou querendo dizer que a figura é feia, não. Falo da palavra no sentido de peso, pois antes, lá no tempo dos Bandeirantes, todo o material levado pelos burricos e pelos escravos eram colocados dentro de bruacas, ou broacas (bolsa de couro grande). E normalmente, eram carregados para aliviar as costas de um outro, no caso, os mestres que só queriam ficar no bem bom. Bruacas são pesos, estorvos, coisas que nos dão dor nas costas e a vontade de jogá-las no meio do caminho, enfim, coisas que a gente só carrega se for por obrigação.

Ouvindo Nick Cave And The Bad Seeds: Red Right Hand e The Ship Song .
E vendo e ouvindo o Caetano, no vídeo abaixo, q é p exorcisar a raiva.

January 19, 2006

Ontem e hoje é tudo o mesmo

Um retrato irônico da oratória brasileira durante a Belle Époque foi feito pela revista Kósmos, em 1906:
[...]"É em banquetes que os presidentes eleitos apresentam a sua plataforma, é em banquetes que se fundam partidos, e é em banquetes que se fazem e desfazem ministérios. São banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo: e isso não admira, porque neles é sempre o povo quem paga o pato... ou o peru. O champagne espuma nas taças. Os convivas, encasacados e graves, fingem prestar atenção ao programa político do orador, mas estão realmente namorando o prato de fios d'ovos... E o orador [...] declara solenemente que 'o Brasil (...) será em breve, graças a uma política enérgica, o primeiro país do mundo! porque ele, orador, está disposto a dar por isso a sua tranqüilidade, o seu saber, o seu estudo, a sua saúde, a sua vida!' E senta-se suado e comovido, dizendo ao vizinho da esquerda: 'Que tal? falei bem? passe-me aquele prato de marrons-glacés...' "
Leiam ao completo o delicioso texto sobre A Sociedade Patriarcal, do qual surrupiei este extrato acima.

January 13, 2006

Que Mundo!...e The Arcade Fire

Parash Pathar, poster designed by Satyajit Ray


Estou atrasadíssima com o meu mundo e com as minhas coisas.
ReComeço hoje à dar os ares de minha graça, mas serei breve. Acabei de ver que já são 21 :22 da noite da minha sexta-feira querida e que eu perdi o primeiro volet da trilogia de Satyajit Ray na Cinemateca, que começou à 20 :30.
Tenho fotos do natal e do inverno p/ colocar aqui…farei nas próximas semanas.
Ontem eu fui dançar até dar dor nos quadris e em compagnia de uma turma ótima, todos dançarinos -dança contemporânea-, e o inverno está parecendo primavera de tão quente! Coitada da terra, a situação está mesmo ruim pois nunca vi tanta neve derreter assim em pleno mês de janeiro, sinto até medo do nosso futuro. Que mundo estamos legando aos nossos filhos?

Win Butler , by Vincent Morrisset


The Arcade Fire

Veritável objeto de culto, a melhor coisa que aconteceu em 2005 em matéria de música foram os montrealenses The Arcade Fire. Quer dizer, eles lançaram o primeiro cd no fim de 2004 mas a gente passou 2005 ouvindo Funeral sem parar, numa ânsia de lobo.

Perfeito e intemporal, é difícil acreditar que FUNERAL tenha sido o primeiro álbum deles. E isso sem mesmo falar da voz linda, emotiva, forte e profunda de Win Butler que seduziu monstros da estirpe de David Bowie, Beck e David Byrne, todos fascinados pela poesia trágica e barroca da banda que teve todos os seus cds vendidos só no primeiro dia de lançamento em NY.

Que música inspirante, Meu Deus!! Dificil de descrevê-la. Tem mesmo que ouvir, e para isso é só dar um pulo no excelente Site Web deles que é uma viagem transbordante de possibilidades interativas. Um aviso : quando entrarem no site, cliquem em «Band Site» e, cada vez que clicarem no nome de um dos integrantes, esperem um momento p/ ver tudo o que acontece com as imagens; com o mouse, a gente vai descobrindo um mundo de pequenas folias. E, prestem atenção nas músicas… divinas!



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December 21, 2005

Dor de Parto I

by K.S. Design

Eu estava olhando o site Amigas do Parto, e li este artigo sobre a dor do parto. Aí eu me lembrei de algo muito interessante que eu aprendi durante o parto de minha filha única. Mas para começar, é importante dizer como começou tudo.
Bom, era sete horas da manhã quando as dores começaram, e eu fui acordando com aquela pontada muito aguda na região da bexiga. Foi uma dor muito forte mas parou logo, foi realmente só uma pontada p/ me acordar. Eu sabia que eram as tais dores de parto que começavam 2 dias antes da data sugerida pela minha médica. Os cálculos, em todo caso, estavam exatos pois ela nasceria num dia 5 ao invés de um dia 7 (diferença mínima...).

Algum tempo depois, foi começando uma dorzinha aqui, parava, e uma dorzinha ali, e recomeçava. Mas não era mais aguda não, parecia cólica, mas fraquinha. Só que levava um tempo p/ recomeçar, e foi assim durante uma boa parte do dia, diminuindo o tempo entre as tais cólicas, que eram de verdade as famosas contrações. A dor só ficou forte mesmo depois de 6 horas da tarde. Antes disso, eu aguentava numa boa, andando sempre de um lado p/ outro dentro de casa, tomando chá de framboeza, que a parteira me aconselhou p/ ajudar no trabalho. Já faziam 2 dias que eu estava com uma energia monstro, e a única forma de canalizar esta energia nesta hora de dor e espera era andar dentro do apartamento, que eu fechei à chaves. E avisei à meu marido p/ não atender o telephone e só ligar p/ o hospital quando eu lhe desse o sinal vermelho.

No parto, eu comecei a me transformar num animal. De verdade, esta transformação já tinha começado antes do quinto mês de gestação, mas tão selvagem que eu não conseguia entender nem identificar. Antes do quinto mês, eu estava frequentemente com uma náusea insuportável e com um sono insaciável. Minhas náuseas eram tão fortes e frequentes que comecei a constatar que a causa era não somente os odores que eu sentia, mas os odores que eu pressentia. Uma vez andando na rua, cruzei com um homem na calçada, um homem muito bem vestido, aparentemente limpo, terno e gravata, carregando uma pasta. O bairro era de classe media alta e o lugar anode estávamos era frequentado por homens de negócios. No exato momento em que este homem passou do meu lado, eu virei p/ o outro lado para vomitar. Foi incontrolável. Ele exalava um odor tão terrível que de longe eu já tinha dedectado a sua presença e ficava tentando controlar meu impulso de vomitar e correr.

Uma das primeiras mudanças que percebi, logo no início da gravidez, foi a sensação de ter um radar com o qual eu estudava continuamente o meu meio-ambiente. Eu funcionava como se este radar me guiasse, e no meio da rua, eu era sempre rápida, lançando olhares rápidos à minha volta, e mesmo quando eu não olhava, minha atenção estava total e em vários lugares ao mesmo tempo, dedectando todos os gestos e intenções da multidão. Mesmo se as pessoas sempre me percebiam como alguém muito calma e tranquila, existia um computador potente na minha cabeça, ou na minha barriga, trabalhando ao máximo e sem nenhum esforço, estudando tudo ao meu redor.

Esta sensação só ficou mais evidente, como eu disse, depois do quinto mês, porque parei de dormir tanto, as náuseas desapareceram e eu me sentia bem melhor. Eu tinha uma energia enorme. Ter náuseas intermitentes durante cinco meses foi uma experiência difícil, mas depois disso, eu me transformei num ser forte e invencível, pronto à atacar ou fugir ao mínimo sinal de perigo, mas sem alguma violência, sem algum estress. Eu estava totalmente centada e muito segura de mim mesma, sabendo exatamente aonde meus pés pisavam, eu "farejava" os lugares e pessoas.

Mas, na época, eu ignorava tudo isso. Foram mudanças que, mesmo se não passaram despercebidas no momento, eu nunca realmente questionei. Mas durante o parto me aconteceu essa experiência que eu vou contar aqui, e foi depois dela, com o passar do tempo, relembrando esta experiência, que eu comecei à corrrelacionar as coisas e identificar claramente, e p/ mim mesma, estas mudanças que agora estou relatando.

Acho que todas as mulheres passam por isso. Mas eu estava numa situação relativamente isolada, sem amigos ou familiares por perto, ocupada com meus estudos – o que me impedia de estar frequentemente com outras pessoas com exceção das pessoas na universidade, sem contar que os amigos da minha própria cultura eram homens, e homens não se interessam muito por mudanças na vida de mulheres grávidas – e o fato de eu estar me adaptando com a cultura canadense era um ponto importante. Estar assim isolada não me incomodava nem um pouco, muito pelo contrário, eu realmente usurfruia deste tempo para direcionar toda a minha atenção na observação desta transformação, sem explicações alheias para deturpar minhas observações. O que me ajudou realmente foi meu senso de independência. Eu sempre me surpreendo com pessoas que têm a necessidade da opinião dos outros pois embora muito sociável – adoro conversas e papos furados no meio da rua, num café, saber como estão indo, o que estão fazendo, etc -, mas sou muito introspectiva também. Preciso estar comigo mesma, no silêncio. Gosto de observar as coisas. E estar grávida p/ mim era algo tão natural, e ao mesmo tempo tão íntimo, que eu realmente nunca tive a necessidade de compartilhar, no momento em que acontecia, porque minha atenção estava em observar. Eu observava, simplesmente, sem analizar, ou querer respostas. Hoje em dia é diferente. Eu já analizei, tenho respostas e vontade de compartilhar esta experiência.


Tenho um amiga que já me confessou ‘várias vezes’ que a vontade de ficar grávida só lhe veio depois que ela me conheceu grávida, pois eu não andava e nem funcionava como as outras grávidas que ela estava acostumada à ver (hoje, o filho dela é um ano mais jovem que minha filha, e ela é a minha melhor amiga aqui). Isso porque em Montreal, não sei exatamente a razão, a maioria das grávidas têm um ar de doentes e andam com dificuldades, mesmo nos primeiros meses de gravidez, e mesmo as mais jovens. A sociedade trata a mulher grávida como doente, como alguém que está sempre precisando de cuidados, dependente, acho mesmo que como uma pedra no sapato. Não quero radicalizar, mas olhando algumas mulheres grávidas eu tenho a sensação que elas mesmas transmitem esta sensação. Acho que deve ser psicológico! A grande maioria anda como se tivessem um peso enorme na barriga! Coisa que parece ser normal nos últimos meses de gravidez, mas nem isso eu tive pois mesmo dois dias antes de ter o meu bebê, eu ainda ia frequentemente na Escola Politécnica, aonde trabalhava meu marido, e subia aquela escadaria enorme sem alguma dificuldade. Nesta época eu frequentava a universidade, e minhas colegas me diziam frequentemente que a gravidez me ia muito bem, e que elas nunca tinham visto uma grávida se sentir tão bem no seu corpo. Eu sabia que era sincero pelo olhar de admiração delas. Eu fiquei grávida um ano depois de ter chegado aqui, talvez não tenha tido tempo de ser invadida por esta percepção da sociedade. Talvez. Eu realmente não tenho resposta p/ isso, mas me lembro de ver no Brasil muitas mulheres grávidas como eu neste período. Lembro-me que na semana do meu parto, indo p/ a universidade de metrô, eu e outra mulher éramos as únicas de pé dentro do trem. Ela fez um escândalo, xingando todos presentes porque eles viam que eu estava grávida, carregando peso, e ninguém tinha tido a educação de me oferecer uma cadeira. Eu me surpreendi com duas coisa; primeiro, que uma canadense tenha reagido face à isso e segundo, porque, com toda sinceridade, não tinha percebido a situação! Na maioria das vezes, eu não pensava na minha gravidez, e não me via barriguda nem frágil. Embora ela tivesse totalmente razão sobre a falta de educação do povo neste caso, mas isso faz parte da cultura daqui (eu não me incomodo tanto, não à ponto de me revoltar, porque sei que é cultural e a minha revolta face à isso não vai mudar as coisas. Embora reconheça que com um pouquinho de empatia, individualmente falando, este tipo de comportamento social poderia ser extirpado. O que eu faço é dar o exemplo de civilidade oferecendo meu lugar para os mais velhos, para os doentes, para crianças e para as grávidas; usando sempre as palavras mágicas “obrigada” e “por favor” e abrindo portas para os que passam, segurando portas depois que eu passo, etc. mas a maioria não compreende mesmo. Como se diz lá no interior da Bahia, fazê o quê, Santo Deus?! A astúcia é sempre ficar atento p/ não levar literalmente uma “portada“ na cara).

Até o sétimo mês de gravidez eu recebia cantadas por parte de muitos estudantes bem mais jovens do que eu, e que aparentemente não tinham sacado que eu estava grávida. Recebi cantadas descaradas, o que não acontecia antes da gravidez. Eu ficava realmente sem saber o que pensar, talvez tenha sido meus seios que ficaram enormes, não sei. Isso p/ mim foi um outro mistério. Embora eu não tenha engordado muito, eu estava mais cheiinha e barrigudinha. Mas, antes de tudo, eu estava felicíssima. Ficar grávida, foi um presente enorme que a vida me deu. Talvez teha sido o furor de viver que me envadiu.


A possível transmutação da dor durante o parto

Eu teria que ter um outro filho para me certificar disso e passer por um outro parto. Mas a experiência poderá servir à muitas futures mães de todas as idades, e mesmo àquelas que não se interessam a ser mães - o que é natural porque as mulheres não deveriam ser mães só porque têm orgãos que servem para se reproduzir-. Acho que é uma decisão estritamente individual, e não cabe à um governo e nem à um indivíduo outro que a própria mulher, pois se trata de seu corpo, de ter uma opinião ou decidir. Para algumas mulheres e em certos períodos de suas vidas, como foi para mim, a experiência de ser mãe é algo que elas desejam muito conhecer. E o que eu descobri é que existe em mim uma força que se revelou durante o parto, mas que já estava presente durante a gravidez, e esta força tinha um instinto tão forte e conectado com o mundo ao redor e com meu corpo, que eu compreendi intuitivamente a forma de ultrapassar a dor do parto.



- - - - - - - - - - - -- terminarei este texto no próximo post.- - - - - - - - - - - - - - - -

December 08, 2005

Luiza, mon arrière grande-mère