Writing, Flying and Huevos Revueltos

September 22, 2005

Donana

Dona Anna depois que casou-se com seu primo Elóy, acrescentou o nome "de Braga" ao seu. O Braga era nome antigo e quase nao visto na familia; naqueles tempos, as pessoas de vez em quando carregavam os sobrenomes dos avós e não sempre os dos pais, como por exemplo meu bisavô Elóy Praxedes de Braga, marido de Dona Anna, que era filho do Coronel João Caetano Rodrigues e de Sinhá Umbelina Josephina da Cunha. Donana, como era conhecida, não herdou o "da Cunha" de seu avô Francisco Rodrigues da Cunha e seus filhos homens guardariam o "de Oliveira', o "Rodrigues", o "de Paula" e as mulheres, o "Braga" que vinha lá dos idos de 1700 e poucos, de José Rodrigues Braga, o último Braga da lignée familiale até então. Este ultimo Braga era marido da matrona Bernardina Caetana do Sacramento; primos-irmãos, eles repetiam a tradição familiar casando-se entre os seus e assim os nomes só ficavam passeando de cá para lá.
Luiza Josephina, irmã de Elóy, casou-se com um outro "Rodrigues"que era também primo seu, filho este de Anna Lidoína de Mello; de nome Antônio, ele foi pai de minha avó Milota. Antonio era bonito e elegante, mas isso não era nada porque Luiza era também belíssima, além de ter uma personalidade forte e imponente.

Enfim, cada criança nascida na familia tinha uma quantidade grande de sobrenomes à disposição pois era costume usarem os nomes dos avós que não tinham sido passado aos filhos destes, coisa de dar continuidade e oferecer homenagem. Mas como nos registros só constavam os prenomes, quem se lembraria exatamente do nome da criança depois, se ele não era quase jamais escrito e só ficando na lembrança da mãe e alguns poucos? E às vezes não sobrava nada na memória de ninguém, nem da mãe, e assim era comum isso:
-Como te chama, menina?
-Anolinta, respondia ela sem saber que era Anna Olaya. De onde veio o Olinta, só Deus sabe depois.

Os irmãos de Elóy, por exemplo, chamavam-se Luiza Jocelina (ou Josephina) da Cunha, João Caetano de Paula e Procópio Theolino de Paula. O Cunha vinha de longe também, la de Portugal e da historia do Castelo de Arnóia, e estava intimamente ligado aos Braga. A esposa de Francisco Rodrigues da Cunha, neta como ele da matrona Bernardina Caetana, era chamada em diferentes documentos de Anna Helena, Anna Olinta Olóia, Anna Olina de São José. O nome Oloia, que devia ser em realidade Olaya como a santa das Astúrias tida em alta estima naquele tempo, era nome já repetido na família - em Anna Olaya, filha de Bernardina Caetana falecida criança -. Catolicos fervorosos, se orgulhavam de terem gerações de religiosos na família.

Em todo caso, fora esta mistura de sobrenomes que são muitos e amaranhados, o que sei de Donana é pouco e esse pouco se deixa desvendar continuamente através das histórias de Dona Júlia, negra forte que revejo em memória sempre na cozinha da casa de minha avó, perto do fogo e com o ferro antigo e grande de passar roupas na mão. Pois a história de Dona Júlia era parte da história da casa grande, estando ela na família à muito tempo, vindas suas raizes lá dos tempos dos escravos, tempos de maldades, assombros e fantasmas. Era pois era nesse meio que comandava Donana, filha do Coronel Oliveira e de Sinhá Ignácia Cassiana.
Assim, Anna Cândida casou-se com Elóy, que era filho de sua tia Dª Umbelina, a bela Umbelina. Dos filhos de Anna Cândida dois casariam-se com suas primas-irmãs, filhas elas da irmã de Elóy, Luiza Josephina; um deles foi meu avô Antônio, casado com Milota.

Muitas vertentes correram lado à lado na história das mulheres da família, parece mesmo que muitas tinham todas as bondades e maldades do mundo em si. Família cheia de Donanas, esta aqui faria parte das mulheres fortes, como sua prima-cunhada Dª Luiza Josephina da Cunha. Donana tinha o rosto forte, decidido e muita inteligencia. Dotada de uma sensibilidade excepcional, praticava uma medicina à base de ervas e conhecia muita coisa sobre o mundo do além, dialogando e resolvendo os problemas de mortos e vivos; suas fotos deixam transparecer um rosto decidido, mesmo duro, quase de concreto, uma força moral absoluta. Não sei se vem dela ou antes dela essa característica que uma boa parte da família têm de olhar o mundo espiritual como se não houvesse algum limite, sem sonhos idílicos, com uma grande força moral. Seu filho, Jesus de Oliveira, tinha os mesmos traços de uma moral íntegra e exigente. Já João era poeta.

Um dia, nos tempos findos de 1876, o pai de Donana recebeu na Fazenda Rio do Peixe uma carta vinda de um primo seu, o coronel João Caetano Rodrigues, filho de Felício Rodrigues de Paula. A carta dizia que muito lhe agradaria de casar um de seus filhos à uma das filhas do Coronel Antonio. Ouvindo a leitura em alta voz que seu pai fazia à sua mãe, a pequena Donana que se encontrava em outra sala brincando debaixo de uma mesa, se colocou na frente dos pais e disse firmemente: "Sou eu que irei me casar com o primo! "Quatorze anos depois, Elóy ainda moço viria ao Rio do Peixe para conhecer os tios e para surpresa geral apaixonou-se por Anna que correspondeu, casando-se algum tempo depois, concretizando a premonição.

O fim da vida de Donana foi no Sítio Califórnia, perto de Olaria em Minas Gerais; sítio que tinha a sua sede num velho casarão cheio de cômodos e que diziam assombrado: passos invisíveis subiam as escadas, sombras andavam nos corredores, barulhos de correntes nos muros, cães fantasmas se evaporavam nas porteiras, vultos gigantescos cruzavam os jardins. Foi assim minha infância. Todos os fantasmas dos tempos de Anna permaneciam ainda na minha memória, mesmo se eu nunca cruzei o seu olhar. Dona Júlia se encarregava de fazê-lo quando me deixou esta cicatriz na alma cheia de estórias grudadas e contadas à luz do fogão de lenha da cozinha de minha avó.

E assim, eles, fantasmas silenciosos pedintes de atenção e emoção, deixavam coisas, fatos, duvidas... Imediatamente após o casamento de meus avós, uma força estranha instalou-se na casa. Meu avo, 25 anos de vida, cheio de ânsias e paixão, não conseguia portanto se aproximar de minha avó. Ao contar à sua mãe Donana as coisas estranhas que ocorriam, ela lhe revelaria a razão depois de ter-se reunido com seus amigos invisíveis : uma mulher, pertencente à uma vida passada de meu avô tinha jurado que ele não teria outra esposa nem mesmo em outra vida. Assim, depois de conversar com o espírito da mulher, Anna conseguiu um pouco de paz para seu filho, mas, segundo os olhares alarmantes e as frases ditas em sussurros, esse espírito de mulher plainou muito tempo na família e até mesmo durante minha adolescência ela aparecia aqui e là, suas formas ficando de mais em mais cadavéricas. Até que eu cresci, fui para longe e as asas do pássaro da noite desceram sobre a minha memória, esqueci de todos estes fantasmas guardados nos álbuns de meu bisavô e dos rostos daquelas crianças mortas, coisa lúgubre e triste, lembrança teimosa que é nada mais que continuação do sofrimento e de sua exaltação em imagens, assim como o Cristo na cruz.

Olhando as fotos e ouvindo as histórias, parece-me uma constante o fato de que Donana era ciente do seu valor. Dignidade explícita mas silenciosa, profunda, sem alardes nem seduções. Imagino que ela se fazia respeitar pela sua própria presença. Quem saberá um dia o que foi a vida de Donana? Só o silêncio de suas fotos deixam transparecer essa dignidade tão furiosa.
Envelhecendo, ela ia ficando de mais em mais a cara do filho Jesus, o jornalista Jesus de Oliveira. O que escondia o rosto de Anna? Nascida em Conceição de Ibitipoca, em 1868, ela conheceu a opulência dos tempos dos barões e nos seus 71 anos de vida muitas revoluções presenciou. Mas ela tinha o rosto de uma pessoa prática, pés na terra! E isso até o dia 17 de junho de 1939, quando exalou seu último suspiro no Sítio California, longe do fausto de sua infância, mas rodeada de amor e de um respeito imensos.

Seus filhos foram: José Delpídio de Oliveira, Maria Jocelina (falecida quando criança), Umbelina da Cunha, Antonio Carlos Rodrigues de Oliveira, meu avô, Jesus de Oliveira Rodrigues, João Caetano de Paula Rodrigues, Maria Josephina e Maria Umbelina (falecidas quando criança), Inácia da Cunha Braga, Carmelita da Cunha, Laura da Cunha Braga.

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5 comments:

  1. Oi Kátia.

    Gostei muito do seu blog; vou logo mostrar a Wan. Pôxa, como vc tá escrevendo bem, heim? Um deleite percorrer suas palavras... As fotos da família... me lembrou muito Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques. Como vai? Vejo que esta encontrando uma forma de espantar a deprê, voltando a meditar, ne? Pôxa, eu to fazendo um mestrado que está mudando minha rotina toda. Parei com muita coisa que me fazia bem. Mas preciso voltar com urgência, pois meu corpo reclama muito, a irritação facilmente me invade e tenho sido arrogante. Bom, aqui o sol está voltando. Uma temperatura deliciosa, um sol morninho soprado por uma brisa fresquinha. Beijos, Fafá.

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  2. Looks nice! Awesome content. Good job guys.
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  4. " Oh, eu não sei se era os antigos que diziam que em seus papiros ...Que na ferrujem toda carne se cai..."(Zé Ramalho)

    E é que eu não sei, ou não se me falaram e se me falaram me esqueci, é que nos verdes das alterosas me plantaram para nascer-me em um futuro tal. Khayrós de Deus! Nasci.
    E que nas folhas de papiros antigas, amaravelhadas, maravilhei-me ao vê-las e vendo-as , encontrei-me comigo mesmo, com os meus tão distantes, porém, tão presentes!

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Un peu de retenu, SVP! LOL :))