Writing, Flying and Huevos Revueltos

December 05, 2005

Campagne 16 Jours d'activisme contre la violence faite aux femmes

Um groupe de femmes « bloggeuses » brésiliennes - dont moi avec une série de post en portugais - a décidée de parler de la violence sexiste pour marquer la Campagne 16 Jours d'activisme contre la violence faite aux femmes. Et il y a encore tellement de choses à dire! Des choses à dire aussi de certains messages sournoises pouvant dénigrer l’auto estime des jeunes filles.


En 1999, l'Assemblée générale des Nations Unies a adopté une résolution qui a proclamé le 25 novembre[1], Journée internationale pour l'élimination de la violence à l'égard des femmes. Ce jour a également marqué le début de la campagne 16 Jours d'activisme contre la violence faite aux femmes. La campagne 16 Jours se termine le 10 décembre, Journée internationale des droits de l'homme. Non seulement elle établit un lien direct entre la violence à l'égard des femmes et les droits de la personne, mais elle intègre aussi deux autres dates marquantes : la Journée mondiale du sida, le 1er décembre, et la Journée nationale [canadienne] de commémoration et d'action contre la violence faite aux femmes, le 6 décembre, date du massacre de la Polytechnique, en 1989.

[1] Le 25 novembre avait déjà été choisi en 1981 par des femmes d'Amérique latine en mémoire des sœurs Mirabal, brutalement assassinées en 1960 en République dominicaine, à cause de leur militantisme politique. Surnommées « les Papillons », elles sont devenues un symbole de la vague de violence contre les femmes en Amérique latine.

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Kotex et l’image négative des caractéristiques féminines

Or, justement, il y a des publicités télévisées d’un absorbent hygiénique, Kotex. Visiblement voués à un public d’adolescentes, ces publicités passent clairement le message que la menstruation est quelque chose négative.

Visuellement attrayante, d’un design « cool » et contemporain, la publicité télévisée de kotex a un cachet branché, une empreinte esthétique attirante et habilement crée pour séduire et bien passer le message. La voix du personnage est celui d’une fille tout jeune, préadolescente même, ou à la limite, adolescente. Branchée, cool, moderne, remplie d’amis, elle est tout ce que toute jeune fille veut être. Mais, le personnage dit distinctement que la menstruation est dégoûtante ou dérangeant !

J’ai une fille de 16 ans qui est venue me dire qu’elle aimerait prendre une injection pour arrêter ses menstruations!!! Je ne peux pas affirmer que cette idée est liée directement a kotex, mais je suis sur que ces publicités ont une influence négative sur l’image qu’elle et ses amies, et toute autre fille se font d’elles mêmes.

Or, la menstruation est l’une des choses que distingue une fille d’un gars, et justement, est vers cet âge, 11 et 14 ans, que la plupart des filles ont leurs premières menstruations! Et nous sommes fragiles à cet âge, particulièrement dans cette période. Imaginez, commencer la vie de femme avec cette image si négative de soi-même?

Il faut que les jeunes filles sachent que la menstruation n’est pas négative, elles doivent apprendre à valoriser leurs corps et leurs différences biologiques. Mais, comment faire si ce genre de publicité est ouvertement permis?

Dans cette période marquée par le souvenir de la nécessité de luter contre le sexisme, il faut que je me renseigne au sujet de dire non à ce genre de publicité.

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Liens

November 30, 2005

Wikipedia:Why Wikipedia is not so great ?

November 27, 2005

Comentário à uma parte da reflexão da Pat

Não creio que homens e mulheres sejam fundamentalmente diferentes. O ser humano tem comportamento muito idêntico em determinados contextos e o contexto aonde um ser é considerado inferior gera sempre um desequilíbrio cujo efeito dominó cresce à ponto que a raiz do problema é ignorada. Estou dizendo isso para explicar que eu não tenho certeza que, se as mulheres tivessem vivido num mundo aonde elas se acreditassem superiores depois de séculos -com todo espaço para abusos que essa mentalidade permite-, elas também não seriam agressoras.

Acho que existe também muita fúria nas mulheres, mas que toma uma forma de auto-destruição (?)... sera que é verdade? Algo me incomoda nisso, eu acho que nao é tao simples; existem também mulheres brutais (estar em estado considerado inferior e ser tratada como tal é totalmente destruidor).

Quero dizer também que não acredito que a raça humana seja formada de duas raças. Existem, e muito, homens maravilhosos, tranquilos, compreensivos, com uma forte dose de humanismo. Mas sou totalmente de acordo que toda escravagem é uma doença infecta, e as mulheres a maior parte da historia da humanidade tal como a conhecemos, em estado de submissao, em diferentes graus segundo épocas e sociedades. Por isso posso desculpar certos atos cometidos em estado de escravagem porque foram a forma do indivíduo oprimido sobreviver.

Acho que virilidade pode existir tanto em homens quanto em mulheres, assim como um homem pode também ser feminino sem ser homosexual. Conheci mulheres forte e homens cheios de ternura e dengo, homosexuais ou heteros. Eu acho que não existe esse negócio de catalogar os sexos dando características próprias como se fosse uma peculiaridade; o ser humano é complexo. Mas gosto de dizer: um ser considerado inferior cria uma forma de escravagem e a escravagem é uma doença, no final das contas tanto para o “senhor” quanto para o ‘escravo’.

Acho que todo mundo pode ser seduzido pela virilidade, não só a masculina.  Admiro a virilidade e a feminilidade, gosto de gente dengosa, sedutora e feminina tanto quanto pessoas virils. Tenho um amigo que é só ternura. Sempre foi. Ele não é gay, mas é de um dengo tão gostoso que me dá um prazer muito grande de vê-lo, de ouvir sua voz, seus gestos. E ele tem uma lista interminável de mulheres apaixonadas fazendo a fila na sua porta, embora seja bem casado e um cara bem honesto.

A deusa Atenas é uma das minhas figuras mitológicas preferidas, como é também Marte, deus da guerra. Segundo a astrologia, eu tenho a Lua na primeira casa e parece que isso em astrologia diz que tenho o espírito guerreiro, e eu adoro essa coisa! E muito embora eu nao goste de lutas. Mas sou atraída pelo espírito desbravador, que aspira conquistas do que é novo e desconhecido. Acho que quando somos atraídos pela virilidade é por estas qualidades que somos atraídos. Entao, quando a gente fala em viril, ja imagina uma barba! Quem disse que mulher nao poe ser viril e feminina? Essa idéia subentende de forma rampante e escondida que uma pessoa que tem característica feminina não pode ser empreendedora, dinâmica, forte, guerreira, desbravadora, independente, creativa, etc e tal.  Papo furado! e o primeiro passo para nós que pedimos igualdade é começar a parar de acreditar nisso.

Uma mulher pode ser feminina, dengosa, cheia de ternura e ter todas estas qualidades. Como um homem também.
Depende saber o que é realmente o tal do poder feminino. Seria realmente a essência da alma das mulheres? Esta essência seria superior à essência masculina? Existe realmente uma essência masculina ou feminina? Não sei, mas isso iria contra a minha crença/ esperança de que o ser humano possa um dia viver num mundo egalitário. Egalitário e sem pretensão à uma superioridade qualquer de um ou outro indivíduo, mesmo se referindo aos animais.  Por isso concordo que a idolatria do masculino freia a evolução da raça humana, em todos os sentidos. Toda idolatria é involução, mesmo de um pretenso poder feminino superior.

Acho que o problema é o desconhecimento, o medo, a falta de compaixão, a falta de empatia. Certas pessoas, frutos do medo, cultivam a ignorância machista por ter virado escravos de seus próprios mecanismos de defesa; eles nao podem pensar porque estao ocupados em se defender. Acho que, em pequenas ou grandes doses, existe um machismo na grande maioria das pessoas, por simples falta de interesse. Nao tem nada complicado, mas tem muita falta de interesse.

A sociedade humana é aleijada e não só de uma parte, mas das duas, porque são as mulheres que vivem mais intimamente com as crianças. E estas crianças aprendem, antes de tudo por mimetismo, a considerar o ser que lhes deu vida, e na maioria dos casos o ser que deu amor em primeiro lugar, como um ser inferior. Quer dizer, a sua matriz é doente e imperfeita! Logo, vc será pior do que ela porque um simples produto de toda esta imperfeição. É claro, isso está na maioria das vezes inconsciente e sorrateiro, mas de forma sutil toda a nossa cultura envia esta mensagem diariamente e automaticamente.

Com o passar dos séculos, a mulher foi ficando mais forte, tanto biologicamente como psicologicamente, por causa desta luta constante. Ela aprendeu a sobreviver num meio hostil. Mas a humanidade desconhece o que é uma verdadeira mulher, como a humanidade desconhece o que é um verdadeiro homem. Quer dizer, um ser com todas as sua capacidades livres e autônomas, de se exprimir e viver livremente, de construir, de criar, de amar. Simplesmente porque as mulheres nunca puderam se expressar na maioria das sociedades e diferentes épocas da história humana. A verdadeira mulher está nascendo agora, tranquilamente. E se deus quizer, o verdadeiro homem nascerá junto com ela.


Para ele, as responsáveis da tragédia da sua vida, eram as mulheres, e pior ainda, as feministas

O texto bem mais à baixo, eu tinha escrito à partir de leituras e reflexões sobre a tragédia que aconteceu em 06 de dezembro de 1989 na Escola Politécnica de Montreal. Nesta data, eu estava na frente da televisão amamentando a minha filha quando quase morri de susto - meu marido era professor na Politécnica e ainda não tinha chegado em casa-. Eu assisti o drama, praticamente ao vivo, pela televisão. Só que ninguém entendia ainda que era um crime sexista, o número e a identidade das vítimas sendo ainda ignorados.
Semana passada soube da "Campanha de 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, criada pelo Centro Global para a Liderança da Mulher em 1991 e que inclui um conjunto de ações e manifestações públicas pelo fim da violência contra as mulheres. A data começa em 25 de novembro, dia proclamado pelas Nações Unidas como Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher. O período também inclui outras datas significativas como o 6 de Dezembro, que marca o aniversário do Massacre de Montreal.
Lembrei-me que no Canadá, depois do massacre da Politécnica, 06 de dezembro foi escolhido para fortalecer a luta contraa violência sexista. Então decidi traduzir o texto p/ o francês e postar no dia 06. Mas aí a Pat deixou um comentário no meu blog sobre o meu post do dia 25, e eu fui lá dar uma olhada no blog dela e encontrei este texto que traduz uma das coisas que eu queria dizer enquanto escrevia. Então decidi de colocar o meu texto aí em baixo em português, e que é uma parte da minha opinião sobre certos atos sexistas masculinos.
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Depois dos anos 60, as mulheres do estado do Quebeque, no Canadá, têm ocupado importantes cargos profissionais e estudos em áreas tradicionalmente ocupadas por homens. Nas décadas de 70 e 80, houve um aumento considerável do número de mulheres inscritas na Escola Politécnica, o núcleo de engenharia da Universidade de Montréal. Infelizmente, alguns homens se sentiram prejudicados com os novos papéis e oportunidades que as mulheres conseguiram alcançar em todos estes anos. Um destes homens era Marc Lépine, um rapaz de 25 anos com uma história de violência familiar na qual ele e sua mãe eram as vítimas do pai.

Lépine tinha procurado se juntar às forças armadas canadenses, mas foi rejeitado. Tinha estudado também para a admissão na Escola Politécnica, mas não foi aceito -- responsabilizando as políticas de ações positivas promovidas por feministas e simpatizantes. No dia 6 de dezembro de 1989, ele entrou na Politécnica e matou 14 mulheres jovens, e feriu gravemente 13 outras. Todas estudantes em engenharia. Depois, ele se matou, deixando uma nota de suicídio na qual constava uma virulenta mostra de seu ódio às mulheres.

De fato, ele não odiava as mulheres, mas detestava a idéia que elas estivessem deixando de ser, na vida real, o que ele esperava que elas fossem. Desiludido com todo o espaço que elas estavam ocupando na sociedade, furioso porque elas não podiam mais corresponder com a imagem que ele tinha se fabricado do que “deveria ser uma mulher”.

Lépine, com este ato, radicalizou o comportamento controlador de alguns homens que se sentem ameaçados pelas realizações femininas e cujos atos descrevem exatamente o que Lépine sentia : ódio. Ódio porque eles estão perdendo o contrôle sobre a vida e o destino delas, não só das “suas” mulheres, mas das mulheres de forma geral. E quando eles não as matam, eles usam e abusam de toda forma de violência, mesmo as mais sutis, para tentar reter este contrôle.

O problema é que este tipo de homem aprendeu à ocupar um espaço social e existencial em função do contrôle que ele indiretamente tem sobre as mulheres. O verdadeiro contrôle se dá através dos jogos de poder resultantes da imagem de hegemonia que o elemento masculino alimenta dentro da sociedade, e que tem como resultado o reconhecimento social desta desigualdade, à saber, a pretendida superioridade masculina.
Ora, um belo dia este protótipo de homem acorda e descobre que a coisa não se passa mais assim. Ele começa a ficar nervoso e desamparado. Para acalmá-lo, as mulheres têm que mostrar submissão face ao pretenso poder superior de sua masculinidade.

Reconhecer que uma mulher é mais inteligente e capaz do que ele se julga, se transforma em algo terrível, e ele perde totalmente todo senso de identidade. Pior ainda é reconhecer que este ser que a sociedade deveria julgar inferior, segundo suas crenças, reussiu lá aonde ele não conseguiu. Aí, ele se sente pior que um vira-lata. Mas, é claro, a tragédia de Lépine é mais complicada porque tem o agravante da violência que ele e a mãe já sofriam do pai.

November 25, 2005

A Violência contra as Mulheres


Estudos em diversos países mostram que de 25 % à mais de 50 % das mulheres contam ter sido abusadas fisicamente por um compaheiro. A maioria foi vítima de abuso emocional e psicológico.

O abuso sexual é não somente comum mas difundido na maioria dos países. No Canadá, um estudo feito em 1993, baseado nos relatos de 420 mulheres aleatoriamente selecionadas, revelou que mais de 54 % delas tinham sofrido uma experiência sexual não desejada ou intrusiva antes de 16 anos; 51 % foram vítimas de violência sexual ou tentativa. Em 25 % dos casos, as mulheres violentadas fisicamente foram explicitamente ameaçadas de morte.

Nas Ilhas Barbadas, 1 mulher sobre 3, e 1 à 2 homens sobre 100, contam terem sidos sexualmente abusados durante a infância ou adolescence. No Peru, um estudo revelou que 90 % das jovens mães de 12 à 16 e pacientes de um hospital, foram violentadas pelo pai, por um padrasto ou por um próximo. Na Costa-Rica, 95 % das pacientes grávidas de um hospital, menores de 15 anos, foram vítimas de incesto.

Na India, onde a prática do "bride burning" é um costume tradicional, os registros oficiais da polícia mostram que 4.835 mulheres foram assassinadas em 1990 porque suas famílias não puderam dar o dinheiro do dote. Na região de Bombaim, 1 em cada 5 mortes de mulheres entre 15 e 44 anos foi considerado "morte acidental por queimadural".

A maior parte dos casos de violências contra mulheres acontece geralmente em seus próprios lares e os violentadores são homens conhecidos por elas. No Canadá, 62 % das mulheres assassinadas em 1987 morreu nas mãos de seus maridos. A violência durante a gravidez foi apontada como a causa principal de abortos e o baixo peso dos recém nascidos. Na Cidade do México, um estudo revelou que entre 342 mulheres aleatoriamente escolhidas, 20 % delas tinham sofrido golpes no estômago dos companheiros, durante a gravidez. Na Costa-Rica, um estudo realizado com 80 mulheres agredidas por seus companheiros mostrou que 49 % delas foram agredidas durante a gravidez e 7.5 % sofreram abortos em consequência destas agressões.

* Estes dados foram extraídos de um documento entitulado Violence Against Women, deste site aqui, de janeiro de 1995, tirado por sua vez de um documento do U.N. Division for the Advancement of Women (sem data no site).

Pela eliminação da violência contra as mulheres


No Canadá, 6 de dezembro foi oficialmente instituído o dia para lembrar e combater a violência feita às mulheres. Este dia marca o aniversário da morte de 14 jovens, assassinadas na Escola Politécnica de Montreal, em 1989. Elas foram assassinadas pela única razão de serem mulheres. E também por terem sido aceitas em uma escola aonde o assassino foi barrado, e decidiu se vingar nas jovens que, segundo ele, tinham previlégios demais'.
A gente chega logo à conclusão, através da mídia, que esta violência é um fenômeno global e contra mulheres de todas as idades, que são ou foram violentadas, mutiladas e assassinadas. A violência sexista é tolerada em inúmeras sociedades com bases na crença que uma mulher é geralmente a propriedade de seu marido, pai ou irmãos. E esta violência é aceita, se não oficialmente mas tradicionalmente, e coberta frequentemente pela comunidade.
A edição brasileira da revista Marie Claire cita que no Brasil, a cada 15 segundos, uma mulher sofre algum tipo de agressão. Em compensação, essa mesma mulher leva de 10 a 15 anos para denunciar o seu algoz, acuada por medo, vergonha ou seja lá o que for. Subjugada à vontade masculina ou mutilada em nome de costumes milenares, estima-se que sete em cada dez mulheres vítimas de homicídio em todo o mundo foram assassinadas por seus companheiros.
Mas eu não posso deixar de pensar na violência contra as crianças e jovens, quando penso na violência contra as mulheres. Para mim, são atos intimamente correlacionados.

Alguns dados:
70% das mulheres vítimas de assassinato, no mundo, foram mortas por seus próprios maridos.
7 milhões de brasileiras acima de 15 anos de idade já foram agredidas pelo menos uma vez.
1 bilhão de mulheres do mundo, ou 1 em cada 3, já foram estupradas, espancadas ou sofreram algum outro tipo de violência.
A iniciativa desta blogagem foi de Denise Arcoverde, neste site aqui, aonde tem uma lista de vários outros sites que tratam do mesmo tema.

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O meu pensamento para as mulheres (e a violência que a muitas de nós teve ou tem que aturar), vai na forma deste conto:
Pássaros vorazes*
por k.s.


Conheci uma senhora cujas palavras fluíam fáceis e insólitas. Ela acreditava que certas mulheres são capazes de voar durante a noite, metamorfoseando-se em vorazes pássaros noturnos. Seduzida pela eloquência e teatralidade de suas próprias palavras, ela acrescentava eufórica a opinião que tais pássaros noturnos não são apenas mulheres velhas, e que todas são, finalmente, mulheres fatais.

Olhar imperturbável, ela me disse que o vôo noturno é uma característica das "bondosas damas", acrescentando com uma voz trovejante: "Pássaros vorazes de cabeça desmesurada, olhos fixos, bico afiado para a rapina, plumas brancas e garras tortas. Estes pássaros, sejam eles o fruto de uma reprodução entre sua própria raça, criados por um encanto infernal ou ainda, sejam sómente velhas senhoras metamorfoseadas, nós os reconhecemos sempre pelos gritos estridente com que amedrontam as noites . "

De resto, ela me revelou ter ouvido isso em algum lugar. E eu acreditei. Alguém certamente também acreditou ser uma boa idéia falar sobre o assunto. E ela ficava assim pensativa repetindo estas palavras, com o olhar perdido. Olhar de vingança. Esse era o seu passatempo predileto, sonhar com asas largas que a levariam à distantes províncias e lhe dariam a força de escapar. Ela sonhava em escapar. Escapar dos murros, dos muros, dos gritos, das ironias, dos insultos, das dores e dos silêncios.

Gestos e nomes apoiando os seus contares, numa destas ocasiões ela me falou do escritor que disse que a força das sereias está no silêncio! "No seu silêncio! Pode imaginar pior insulto !?".

Ela me contou também que um conhecido seu, passeando em Montreal às margens do canal e numa noite de lua, entendeu uma voz que perfurou o silêncio do matagal:
"Muitos gostam de acreditar que somos todas iguais, pela nossa voz estridente ou sedutora. Julgam que somos instrumento de perdição, que somos o sonho. Desiludam-se ! Somos o rosto cansado das velhas, o rosto apaixonado das jovens. Companheiras dos sonhos, com os animais elegemos nosso lar. Assim, temos uma forma bestial. Vejam aí só o que vocês sabem, pois no entanto, ignoram que mesmo sendo veneração, somos também horror. Horror e veneração.”

Quanto à mim, não sou velha ; sou relativamente jovem e bem correta. Meus urros, vocês não conseguem diferenciá-los no mais claro do dia. Mas quando a noite se desponta no alto dos edifícos cinzentos e que me vem este desejo de correr e gritar e gritar... gritar... e nunca mais parar... eh bem, nestes momentos, o meu corpo se contorse, treme... e eu tenho frio, tenho frio, tenho um frio de morrer... e as minhas asas, elas, se armam para cobrir o meu corpo e com estas asas trêmulas escondo a minha cabeça desmesurada, os meus olhos fixos, o meu bico afiado, as minhas plumas e as minhas unhas tortas. Os meus gritos não amedrontam a noite. Enrolo-me em mim mesma, como as minhas garras, e fico lá no canto, quieta, torta e doente deste silêncio.
*Este conto foi originalmente escrito em francês, Oiseaux voraces, e publicado em vários jornais e revistas.
K.S.
WINGS – WRITING, FLYING AND HUEVOS REVUELTOS

November 22, 2005

Vive Montréal!

Désolé pour ceux dont l’humeur est aigre, mais vraiment, vraiment, j’adore Montréal et elle me le rend bien, surtout entre jeudi et mardi de chaque semaine.

Le vendredi dernier, la ‘tit famille est allé diner chez le resto thaïlandais Sherbrooke coin St. Denis (où était logé l’ancien Commensal, souvenez-vous?). Samedi matin, brunch chez le brésilien Senzala du Plateau. Dimanche matin, ‘tit déjeuneur chez Norma, la boulangère du coin. Ensuite, une bonne marche de santé sur le Mont-Royal pour remplir les poumons d'air froid et après midi, le meilleur capuccino de Montréal chez Gino, au Café Italia, de la Petite Italie. Ce matin, Power Yoga et déjeuneur avec mon amie Mai au Vietnamien de la rue Laurier. Après, une rigolade avec Monica Freire où nous avions parlé du Brésil, de l’immense spiritualité de notre peuple, et de notre amour pour Montréal.

NINGUÉM NASCE PROSTITUTA

Fernando Gabeira é o autor de um projeto de lei que regulamenta a prostituição. Assim ele abre espaço para que o explorador de mulheres não seja mais considerado um criminoso.
Estou bem consciente que a imagem da bela prostituta que se dá muito bem e que adora o seu trabalho é pura ficção, digna irmã da Bela Adormecida. Alguma dúvida que há, ou houve, algumas ou alguns satisfeitos. E mesmo se a lenda diz que certas pessoas se prostituem por que gostam. Mas as que são levadas por necessidade ou desequilíbrio afetivo, a grande maioria, vai é para ganhar um pouco mais de dinheiro ou p/ alimentar a família.
Perguntem à estas pessoas se elas tivessem crescido numa sociedade justa aonde mulheres e crianças são respeitadas tal como se respeitam um homem, e se elas tivessem tido oportunidades de desenvolver todo seu potencial como seres humanos, emocionalmente e materialmente, com acesso à estudos, trabalho, moradia, prazeres da vida porque ninguém nasceu só p/ trabalhar ou estudar, viagens, restaurantes, etc, etc e tal, para elas e para seus familiares; perguntem se elas tivessem sido valorizadas nesta sociedade, com oportunidades e apoio para almejar suas aspirações; perguntem se em tais condições, elas ou eles não teriam escolhido ganhar dinheiro com outra atividade que lhes fizessem ser orgulhosos de si mesmos, não somente como cidadãos mas como ser humano, e sobretudo como mulher.
Mesmo se sei que o fato de ser homem não garante justiça, sei também que o fato de ser mulher ou criança ou adolescente, garante muito menos justiça do que à um homem. Acho que mesmo se vivéssemos numa sociedade espiritualmente evoluída, aonde o sexo fosse uma atividade sadia, espiritual e respeitada por todos, mesmo assim, um ser humano não deveria ser obrigado a se transformar em uma máquina de dar prazer (ou sensação de poder?) de forma alguma.
A lei do Gabeira para mim é perigosa porque tem grandes chances de só contribuir à regulamentar uma situação de discriminação que existe depois que o sexo masculino tem todas as prerrogativas dentro da sociedade humana.
Em todo caso, a revista Marie Claire entrevistou a psicóloga Nalu Faria, coordenadora de uma ONG voltada para os interesses da mulher, e que critica o projeto. Segundo ela, e é o que eu acredito também, é que quem explora a prostituição ficará ainda mais fortalecido.

NINGUÉM NASCE PROSTITUTA
NALU FARIA, coordenadora da Sempreviva Organização Feminista (SOF)

MC O que acha do projeto que regulamenta a prostituição?
NF O projeto trata menos da regulamentação e mais da liberalização do comércio que envolve a atividade. Não apresenta nenhuma defesa real da prostituta e da violação de direitos que elas sofrem.

MC É contra regulamentar a atividade?
NF Não encaro a prostituição como profissão. Entendo que as prostitutas merecem ser protegidas e precisam ter os direitos assegurados. Só que o projeto não define regras, é vago no que diz respeito às garantias de direitos dessas mulheres. O projeto só defende o fim de artigos penais que tratam do comércio em torno da atividade.

MC Os serviços sexuais deveriam ser pagos ou não?
NF Não deveriam ser. Mulheres desde sempre foram exploradas pelo simples fato de serem mulheres. No meu ponto de vista, a sexualidade não é um serviço e sim uma relação entre pessoas em igualdade de posição. Ao se tornar um serviço, acaba fortalecendo as relações que pressupõem dominação de um sobre o outro.

MC O projeto propõe formalizar as casas de prostituição e tirar do crime a figura do cafetão. Isso pode favorecer as prostitutas?
NF De jeito nenhum. Os bordéis podem determinar que suas funcionárias façam sexo com um número maior de clientes, e o projeto não define como vai ser a fiscalização. Se nem grandes empresários cumprem direitos trabalhistas, alguém imagina que donos de bordéis irão cumprir? O outro item só favorece o cafetão.

MC Gabeira ainda propõe tirar do Código Penal o artigo que diz respeito ao tráfico de mulheres. Assegura ser contra o tráfico humano, mas considera o artigo desnecessário, já que há uma legislação específica sobre o tema que penaliza o tráfico de pessoas de maneira geral. O que acha?
NF O artigo que se refere especificamente ao tráfico de mulheres tem de existir. O Brasil está entre os países que têm o maior número de traficantes de mulheres no mercado da prostituição. Além disso, é uma importante rota de tráfico do turismo sexual. Então, por que acabar com uma lei que trata especificamente disso?

MC Alguém se torna prostituta por que quer?
NF Há poucos casos, mas, se examinarmos esses poucos, perceberemos que as mulheres têm auto-estima baixa, foram infelizes na escolha do parceiro, tiveram pais ausentes e vivências sexuais complicadas. Muitas viveram situações de pobreza afetiva e não sabem o que pode ser uma mulher autônoma. A pessoa escolhe ser prostituta em função das condições que tem ou pensa ter na vida. Mas alguém decide ser prostituta?
MC Quais os pontos críticos do projeto?NF Ser prostituta não é o mesmo que vender sanduíche em uma lanchonete. Gabeira entende que as relações são iguais, mas não são. Ele também não considera a questão da violência nem a desigualdade de poder entre homens e mulheres. Como assegurar isso num contrato? Quantas pessoas hoje têm carteira assinada? Não acredito que um projeto desse tipo possa trazer algum benefício social às prostitutas.