Writing, Flying and Huevos Revueltos
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June 17, 2007

ONTEM, 16 DE JUNHO, o dia do meu aniversário

Para começar, logo no dia do meu aniversário, eu dei de cara 2 vezes com o Win Butler, do Arcade Fire!! No Mile End, o bairro aonde eu faço yoga. Mas ontem eu só estava planando com meu marido, olhando o tempo lindo q estava fazendo, depois de ter ido no Café Itália tomar o melhor capuccino e comer o melhor sanduíche de Montreal. Para quem não conhece os costumes de países frios: quando faz sol, todo mundo sai p/ as calçadas, andando, planando, tomando sol nos bancos públicos, nas escadas, sentados mesmo nas calçadas, ou nos jardins e parques. Bom, como sempre, o 16 de junho é o dia mais quente do ano (rsos). Mas é mesmo. Se não foi quente até ali, não vai ser mais. Este de 2007 foi um dia magnífico mesmo, minha gente, cheio de sol, e a Saint Laurent estava fechada com a festa de trottoir (na noite anterior ficamos até tarde no La Cabane. Bom, enfim, o pessoal estava uma marailha de contentamento e de bom humor. Verão é assim mesmo em país frio.

Mas sobre os músicos do Arcade Fire, não dá nem p/ contar como eu fiquei boba prq todo mundo q me conhece sabe q eu sou vidrada neles; até fiquei chateada prq eu estava no Brasil em janeiro qdo deram um show, às escondidas, no subsolo da igreja polonesa do Mile End (o povo do bairro sabia). Então fica claro q um dos meus presentes, ontem, foi ter dado de cara com o Win. No meu aniversário! E isso prq o rapaz é um grande poeta e eu tenho uma admiração enorme pela música deles, do Arcade Fire.

O menino, ele é realmente um menino, q eu trato carinhosamente de meu pequeno e grande Win (de perto ele é enorme!) estava tomando sol, sentado num banco, sózinho, pensando na vida e olhando o tempo... Por coincidência, ele estava no meu banco, aonde eu fico sempre tomando sol tbém.

Que coisa linda é morar em Montreal, né?! Digam-me se existe um outro lugar do mundo, uma grande cidade, aonde um artista como ele, um poeta tão completo, e cantor divino, com aquela voz cheia de emoção e profunda, poderia ficar assim sentado num dia ensolarado tomando sol sem ninguém p/ vir encher o saco do coitado com pedido de autógrafo e fotos?! Foi por isso q eu fiquei com vergonha de incomodar a tranquilidade do cara. Além de achar o cúmulo da cafonice esta idolatria de personalidades públicas! Mas, mesmo assim fiquei pensando: se eu peço um autógrafo, vai encher de gente e vão todos encher o saco dele tbém e acabou-se o seu banho de sol... Aí, eu passei devagarinho por ele, fingindo q não tava com vontade de ir lá me aprochegar... (logo de cara eu nem falei p/ o meu marido ao lado q aquele magrelo lá era o Win Butler... p/ não chamar atenção, ou de vergonha, de apreensão... sei lá, não falei na hora, mas falei qdo ele passou na segunda vez) e ficamos passeando até q eu esqueci dele por completo. Sabem como é geminiano.
Depois, fizemos uma porção de coisas, conversamos com algumas pessoas, olhamos lojas e vitrine e atravessamos a rua p sentarmos na quadra ao lado, ainda na Saint Viateur, num banco em frente daquela boutique de bombons q eu esqueci o nome. Tomando sol, de repente vejo o cara vindo na nossa direção, e de novo a minha consciência entra naquele dilema do autógrafo e da vergonha ("fazer o quê com uma assinatura, q cafonice! Eu sei, mas.... e a foto?! Fazer o quê com uma foto ao lado de um poeta q eu admiro!? Que cafonice!... droga de consciência!"). E ele passou na minha frente... discplicente, calmo, charmoso, magrelo, altíssimo, bonito, bebendo um refrigerante, e olhou p/ nós (eu achei q foi p mim - vocês conhecem geminiano, né? é tudo a mesma raça... mesmo depois de velhos). Bom, deixem isso p lá. E pensem na letra de "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento, tomando uma coca-cola... "; parecia isso mesmo.). Pois é, imaginem a vontade de pedir uma foto com ele!? Mas eu sou boba mesmo e não fiz nada , só fiquei olhando o cara aproveitar aquele dia magnífico e se perder no meio do povo.

Mas as minhas reticências, explica-se: depois q eu dei de cara com o Roy Dupuis entrando na padaria do meu bairro -e ele ficou todo envergonhado e eu tbém-, eu penso 2 vezes antes de invadir o território de alguém. Soooouuuu boooooba messssmoooo...

(Ser geminiano é, se a gente não leva na esportiva, e só de vez em quando, uma praga. Vivo dando esse tipo de furo. Um dia, há tempos, eu fui no Fofounes Electriques numa exposição Internacional de BD. E naqueles dias, eu via sempre o Dany Laferrière na televisão. Para quem não sabe, ele é um escritor -e eu já dei de cara com ele até dentro do ônibus 144, avenue des Pins! e quase ia lá contar p ele esta história do nosso passado, mas felizmente eu me retive. Mas isso é outra história...-.
Naquelas últimas semanas e para o pouco de televisão q eu via, eu dava de cara com o escritor o tempo todo na telinha. Realmente o tempo todo. E acabei incorporando a imagem do homem no meu subconsciente, como se ele fizesse parte da minha vida. Mais!... muito mais. Como se ele morasse comigo na minha casa! E sobretudo numa hora tão íntima como o ritual de fazer o jantar. ----imagino q todo mundo q dá entrevistas procurando um público, deixa sempre uma imagem estudada de si mesmo, a melhor possível; então, de acordo com o real objetivo destas entrevistas q invadiam a minha casa nos meus pequenos momentos de descanso q eu procurava ligando a televisão enquanto fazia a janta, eu já estava cativa! Ele se transformou assim em um outro EU idealizado, omnipresente, culto, charmoso, quase perfeito, o q eu queria ser naqueles dias em que chegava cansada da creche, carregando a minha filha nos braços depois de ter enfrentado um dia de transportes públicos e correrias, indo preparar o jantar, olhando a televisão como uma autômata. Resultado: acabei admirando a vida e a obra do personagem, sem mesmo ter lido uma única linha dos seus escritos!----- (Existe um filme baseado numa das obras deste escritor:"Como fazer amor com um negro sem se cansar". Podem rir. Mas é interessante, não é pornô não). Afinal, um exemplo típico de lavagem cerebral!

Bom, lá no Foufones, eu chego no local e enquanto espero pelo Alex q não aparecia, visito a exposição. Depois de visitar tudo -adorei muitas coisas que agora não me recordo o quê-, descendo uma escada e vejo, lá de cima, o escritor lá embaixo conversando com um outro alguém de quem não guardei a mínima lembrança (acho mesmo q nem olhei p o personagem em questão). Aí, eu fiquei mesmo feliz. Toda contente, dei um gritinho de satisfação prq vi um rosto "mais do q conhecido" no meio daquele mundaréu internacional; um rosto q era quase o meu de tão próximo e q repetia depois de semanas, através de uma personalidade charmosa, palavras q eu admirava. O centro do mundo, ele, através do meu olhar embasbacado! Aí, eu desço as escadas, chego perto e corto a conversa do escritor com o outro, toda excitada. Dei dois beijinhos no Dany Laferrière sem mesmo dar tempo ao cara de se surpreender, perguntando como ele estava, como estava sua vida, sua família, etc., assim mesmo, cheínha de intimidades. A coisa estava meio nebulada na minha memória; eu não me lembrava de onde conhecia aquele rosto tão admirado, com aquela voz tão conhecida, mas sabia q conhecia, e muito! E fiquei lá, como se fôssemos conhecidos, assim naturalmente, sem nenhuma afetação ou desespero. Pelas imagens q me vêm hoje em dia, acho até que coloquei as duas mãos nos ombros dele, dei dois beijinhos segurando o pescoço do escritor com um carinho todo especial... Conversei, falei rapidamente de mim. E ele, um doce, né?! Participando do jogo, perguntava e respondia. Super educado, com aquele sorriso tímido de surpresa, aceitando a minha intimidade natural.
Mas, eis q de repente, como sempe acontece na vida, tomo consciência -ou pela falta de continuação no assunto ou porquê li na cara dele a estupefação- que em realidade eu não conheçia o homem! Minha nossa! Foi assim, um "plaf", na minha cara! Fiquei atônita. Imagino que deve ser isso q experimenta uma pessoa q acorda, depois de uma noite de bebedeiras, sem saber aonde está. Ficou no ar aquele silêncio. E o sorriso tímido do escritor, no canto dos lábios. Sem graça. Olhei p/ ele e, pela primeira vez, para o outro personagem lá parado, esperando. Aí, declarei séria, envergonhada: -"Olha, eu não te conheço.". Ele ainda deu um sorrisinho sem graça, quase silencioso. Educado, ele. -"É.", acho q ele completou. -"Vc me desculpa...", continuei, saindo de fininho.
E fui. Sem olhar p trás).

Agora, voltando p/ o dia de ontem, o 16 de junho 2007, a cidade "polula" de festas. Mas foi tranquilo, a gente só queria mesmo ficar no sol e vendo a felicidade do povo. Vimos alguns amigos, rimos, cantamos parabéns p/ mim. À noite fomos em família no Rumi, um dos meus restaurantes preferidos de Montreal e que tem um chef que é um verdadeiro artista.

Mas agora estou cansando. Deixa p outro momento o contar.


. . . . . . ..

June 01, 2007

Paul Valéry e A Jovem Parca (La Jeune Parque)

Conjunto de esculturas em "ciment fondu" e ferro.
Imagens, tradução, textos Copyright©k.s. design, 2005. All rights reserved.

reserved.




“Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

«O escritor verdadeiro é um homem que não encontra as suas palavras. Então, ele as procura. E procurando, ele encontra melhor ».


Um dia chuvoso lá fora e aqui dentro está quieto, cheio daquela tranquilidade que facilita a concentração para se trabalhar num projeto difícil ou enfim, trabalhar com afinco em coisas que pedem uma interiorização particular. Penso logo em Paul Valéry. Além de poeta, ele foi ensaísta e pesquisador no campo das idéias; interessou-se em geral pelas artes e ciências, notamente pela Arquitetura, Filosofia, Teoria Literária, Música, Dança, Matemática, Geometria, Física e se fixou a tarefa de refletir sobre o funcionamento do espírito. Escritor, pensador, poeta da sensualidade e do rigor intelectual, estudioso das ciências exatas, sua linguagem artística era associadas à linguagem das ciências mas ledo engano o de vcs que imaginam textos frios e sem alma. É exatamente o contrário.

Espírito dotado de uma corajosa e prolífera curiosidade pelas formas diversas e pelas linguagens possíveis, vida, arte e ciências, para Valéry, estavam intrisicamente associadas à uma dinâmica da observação, tal qual uma meditação irreligiosa vivida no rigor de um observador infatigável.
Aos 22 anos, ele chega à conclusão que o que chamaria de Método de Leonardo da Vinci -"mestre de seus meios, este possuidor do desenho, das imagens, do cálculo, tinha encontrado a atitude central a partir da qual as empresas do conhecimento e as operações da arte são igualmente possíveis, as trocas felizes entre a análise e os atos singularmente prováveis: pensamento maravilhosamente excitante"-, seria para ele o encontro com o conhecimento verdadeiro e com a sua liberdade como artista e como ser humano.
Para Valéry, a criação não é simplesmente um instrumento de expressão mas um compromisso existencial.

Através do arquiteto Eupalinos, ele deixou esta frase de profunda sabedoria: “Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

Na noite do 4 para o 5 de outubro de 1892, Paul Valèry passou por uma grave crise existencial, aonde ele decidiu repudiar os ídolos da literatura, do amor e da imprecisão para se consagrar ao que chamou de «A vida do espírito»:
«Destruí os meus encantos. Procurei o rigor porque a naturalidade não me interessa».

À partir daí, diariamente, ao nascer do dia, ele irá observar seu processo criativo notando em vários diários todas as suas reflexões e dirá mais tarde: «tendo consagrado horas à vida espiritual, eu me sinto no direito de ser besta o resto do dia ». Ele se fixa então, o trabalho de refletir sobre o funcionamento do espírito e dirá mais tarde que esta noite foi a sua verdadeira origem. Durante mais de vinte anos, ele pára então de escrever e se consagra ao que chama de « o conhecimento de si mesmo e do mundo », continuando a preencher seus diários, publicados depois da sua morte com o título de Cahiers.

A Jovem Parca, poema de 512 versos que levou 4 anos para ser finalizado, considerado por muitos como o mais importante texto da lingua francesa do século XX, será sua obra primeira depois destes vinte anos de silêncio como escritor.

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A Jovem Parca foi uma das minhas obsessões no passado e que se transformou no passar dos anos em textos, imagens, escrituras diversas traduzidas em trabalhos com vídeo, música, esculturas, gravuras e enfim multimídia. Meu livro que eu chamo A Velha Parca, está cansado, rasgado, cheio de anotações e tenho ainda por ele este amor irriquieto que me perseguiu até que eu o colocasse na estante depois de tantas obras produzidas, jamais finalizadas. A questão que me ronda ainda não conseguiu se calar. Ele, o livro, me preocupava. E isso porque eu ainda não tinha descoberto o resto. O resto, esse amálgama sem fim de idéias anotadas, de gritos e meditações em versos e prosa, anotações curtas e intarissáveis que rasgam folhas e folhas de livros nas bibliotecas. A obsessão agora se deformou, tomou novas proporções, ela se encantou, deixou talvez de ser obsessão para ser justo uma idéia, a de amar estas idéias, de admirá-las, de, no silêncio, compartilhá-las.

Luta entre a vida e a morte, escrito na primeira pessoa, o poema é uma alegoria da oposição entre consciência e inconsciência, uma luta do absoluto da inteligência lúcida contra o instinto e a sensualidade através de um jogo ordenado de imagens e de sonoridades, constituindo assim, segundo o que Valéry irá várias vezes designar, uma composição musical à partes variadas.


Extratos de La Jeune Parque (Traduzido por K.):

"O céu formou ele este amontoado de maravilhas
Para a morada de uma serpente?"

Pierre Corneille


Quem chora lá, senão o vento simples, à esta hora
Única, com diamantes extremos?... Mas quem chora,
Tão perto de mim-mesma no momento de chorar?

[...]

Sou sózinha com vocês, trêmula, tendo deixado
Minha cama; e no perigo mordida pela maravilha,
Interrogo meu coração qual dor desperta-o,
Qual crime por mim mesma ou que eu soube consumir?...
... Ou se o mal me segue de um sonho fechado
Quando (ao veludo do sopro perdido o ouro das lâmpadas)
Tenho de meus braços espessos cercado minhas têmporas,
E muito tempo a minha alma esperado os relâmpagos?
Toda? Mas toda à mim, senhora das minhas carnes,
Endurecendo de um estremecimento a sua estranha extensão,
e nos meus doces laços, ao meu sangue suspenso,
Eu me via, sinuosa, e dourava
De olhares em olhares, minhas profundas florestas.

Eu seguia uma serpente que acabava de me morder.

[…]

Mas eu tremia de perder uma dor divina!
Eu beijava na mão esta mordida fina,
E não sabia mais de meu antigo corpo
Insensível, apenas um fogo que ardia nas minhas margens:

Adeus, pensava eu, EU, mortal irmã, mentira...

Harmoniosa EU, diferente de um sonho,
Mulher flexível e firme aos silêncios seguidos
De atos puros!... Têmpora límpida, e de ondas roubadas
[...]
Diga!... Eu era a igual e a esposa do dia,

[...]

Lamento à metade esta vã potência...
Uma com o desejo, fui a obediência
Eminente, presa à estes joelhos delicados;
De movimentos tão rápidos os meus desejos eram preenchidos
Que eu sentia a minha causa apenas um pouco mais ágil!
[...]
Entre a rosa e eu vejo-a que se protege;
Sobre o pó que dança, ela desliza e não irrita
Nenhuma folhagem, mas passa, e quebra-se por toda a parte...
Desliza! Barca fúnebre...

E eu viva, de pé,
Sólida, e do meu vazio secretamente armada,
Mas, como pelo amor uma face ardente,
E a narina colada ao vento da laranjeira,
Dou ao dia apenas um olhar distante...
[...]
Penso, na beira dorada do universo,
A este gosto de morrer que toma a Pitonisa

[...]

Aonde vai ele, sem responder a sua própria ignorância,
Este corpo na noite negra espantado de sua fé?
Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

Carrega docemente eu... minha fraqueza de neve

Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

[...]
Misteriosa EU, no entanto, vives ainda!
Vais te reconhecer ao levantar da aurora
Amargamente a mesma...
Um espelho do mar
Se levanta... E sobre o lábio, um sorriso de ontem
Que anuncia com aborrecimento o apagar dos sinais,
Já gela no oriente as pálidas linhas
De luz e de pedra, e a cheia prisão
Onde flutuará o anel do único horizonte...
Olhe: um braço muito puro é visto, que se desnuda.
Eu te revejo, meu braço... Portas a aurora...

[...]

Devagar, eis-me: o meu fronte toca a este consentimento...
Este corpo, eu o perdôo, e saboreio a cinza.
Entrego-me inteira à felicidade de descer,
Aberta às escuras testemunhas, os braços supliciados,
Entre palavras sem fim, sem mim, balbuciadas.
Dorme, minha sabedoria, dorme. Forma esta ausência;
Volta ao germe e a assombrada inocência,
Abandona-te viva às serpentes, aos tesouros.
Dorme sempre! Desce, dorme sempre! Desce, dorme, dorme!

(A porta baixa é um anel... onde o véu
Passa... Tudo morre, tudo ri na garganta que fala...
O pássaro bebe na tua boca e não podes vê-lo...
Vem mais baixo, fala baixo... O escuro não é tão escuro...)

[...]




April 27, 2007

Loti

Abri a revista História e dei de cara com uma foto antiguíssima de Pierre Loti, em 1890, de bigodão, sério, braços cruzados e pelado! O homem era um tesão! Só não coloco a imagem aqui porque estou com problemas com o scanner. E era bonito de rosto tbém, tirando o bigode. E o pior é que na foto ele tinha mais de 40 anos e com aquele corpaço, numa época que nem o pescoço a gente mostrava...

E fiquei sabendo mais coisas que estão balançando a minha imaginação... vai ver que eu fui ele numa vida passada... rsos.

Oficial da marinha francesa, ele encontrou na Turquia, em 1877, uma odalisca de olhos verdes, bela e séria, com a qual ele viveu, aos 26 anos de idade, uma paixão desenfreada que o seguiu toda a vida; pertencendo ao harem de um destes turcos velhos e podres de rico, a amante do escritor, que se chamava Aziyadé, morreu de tristeza depois da separação forçada. Para ela, ele escreveu, em 1879, uma das mais belas histórias de amor jamais escrita.

Reporter, escritor, pintor, fotógrafo e desenhista de talento, o nome "Loti" é, de verdade, um apelido; é o nome de uma flor que se esconde ao contato humano, dizem, de vergonha e timidez; foi dado por causa da extrema timidez do escritor quando jovem.

Mas esse é o lado profundo de Loti; o outro, que me faz voltar ao início deste post, é fanfarrão : em 1890, furioso da fofoca que corria entre os acadêmicos de que ele usava uma cinta para afinar o corpo (invejosos de que um intectual tenha um corpo tão atlético e esculpido…) , Loti enviou à todos os seus colegas « imortais » da academia francesa e à imprensa, uma foto aonde ele só vestia o traîte do tal cacha-sexo!


April 24, 2007

O azul da Prússia e Frankenstein

The Nightmare (O Pesadelo), Henry Fuseli, 1781
(The Detroit Institute of Arts, Detroit).

Foi num sonho lúcido que Mary Shelley teve a visão inicial para criar Frankenstein or the Modern Prometheus (1818): “My imagination, unbidden, possessed and guided me, gifting the successive images that arose in my mind with a vividness far beyond the usual bounds of reverie…I saw the pale student of unhallowed arts kneeling beside the thing he had put together—I saw the hideous phantasm of a man stretched out, and then, on the working of some powerful engine, show signs of life, and stir with an uneasy, half-vital motion…What terrified me will terrify others; and I need only describe the spectre which had haunted my midnight pillow.”

Como é que a beleza sobrevive intimamente com o horror?

Fui intoxicada, desde que comecei a pintar à óleo, com vários tipos de venenos sórdidos e belos porque eu comia a cor, pela beleza das tintas e ansiedade de ficar mastigando os pincéis. Mas isso não é nada, assumo com tranquila sabedoria os meus jadis gostos macabros embora na época eu fosse totalmente inconsciente de que estava tranquilamente me envenenando. Cito isso não querendo comparar meus talentos com os de Beethoven (de verdade, é no cabelo dele que eu me lembro quando penso no meu lento envenenamento desde os 13 anos de idade; mas isso é uma outra história, a dos cabelos do Beethoven, e que vou contar uma outra vez).

Sobre a beleza misteriosa e profunda, realmente profunda, do azul da Prússia, e que tem tbém muito à ver com o cianureto - veneno famoso por ter matado muita gente através da história e que é uma das mais belas cores que existe, vou falar agora: pois é, o azul da Prússia que eu tanto gosto, tem a ver com o maior mito inventado na modernidade - Frankenstein - sabiam ?

A relação entre a autora de Frankenstein, entre o poeta atormentado Shelley, entre o debochado Lord Byron e o personagem Frankenstein ele-mesmo tbém é muito interessante.

La voilà : Mary Shelley era casada com Percy Bysshe Shelley, considerado um dos maiores poetas da língua inglesa, embora romântico e sensível demais e muitas vezes chatinho. Ela tinha 18 anos quando escreveu Frankenstein e 16 qdo fugiu com o poeta, que era casado, causando assim o suicídio da esposa grávida dele. Alguns anos depois Shelley tbém se suicidaria.

Nascida em Londres, Mary Shelley era filha da filósofa féministe Mary Wollstonecraft e do escritor político William Godwin, bêbado notório que maltratava a mulher mas graças ao quê ela se tornou feminista, fato este que acrescentado ao seu exímio talento de escritora gerou textos importantes sobre o trabalho das mulheres e das classes sociais pobres da época. O círculo de tragédias na vida da mãe de Frankenstein iniciou-se dez dias depois de seu nascimento, sua mãe morrendo devido à complicações do parto; mas isso possibilitou que o pai bêbado e filósofo dela se casasse com Mary Jane Clairmont, tradutora dos contos dos irmãos Grimm. É aí que entra a importância do efeito borboleta na vida de Mary: em 1813, Mary Clairmont leu para Mary Shelley uma carta de Jacob Grimm - vc sabem quem é, não é verdade? - aonde ele cita uma história sobre como o alquimista e médico Johann Conrad Dippel tentou criar um ser à partir de partes de cadáveres. A história do titão moderno foi se desenvolvendo na cabeça de Mary à partir daí.

Mas aqui no meu assunto, o interessante é que o tal alquimista Johann Conrad Dippel fazia as experiências sobre a criação de uma espécie de Golem no laboratório de seu castelo, justamente, o mesmo aonde foi inventado a cor azul da Prússia!! Assim, de uma certa forma, o azul da Prússia é irmão de Frankenstein!

Mas voltando à Mary, o romance foi escrito no início da utilização da eletricidade e isso tem sua importância crucial pois gera todo um questionamento existencialista sobre a "energia criativa". A ideía do romance ficou rondando na imaginação dela por 3 anos e aflorou sobre papel numa visita que ela e Shelley fizeram a Lord Byron. Durante o verão de 1816, Mary (com 19 anos) e Shelley visitaram Lord Byron na Villa Diodati, na Suiça; em meio à uma discussão sobre literatura gótica alemã, Byron desafiou os dois e seu médico pessoal, John William Polidori, à escreverem cada um uma história cujo vencedor seria o autor da mais apavorante delas.

Mary escreveu o germe de Frankestein depois de um noite mal dormida aonde ela teve um estranho sonho lúcido e a ideía da criação de um homem com a ajuda de uma energia de essência divina conhecida desde a antiguidade como o "Fogo do Céu"; segundo o filósofo Plínio, o Velho, a utilisação desta energia era um sacrilégio cujas consequências seriam terríveis, o que originou o nome «Prometeu Moderno», alusão ao titão que ofereceu o Fogo Sagrado à humanidade.
Byron escreveu um fragmento de legendas que ele ouviu nos Balkans e Polidori criou The Vampyre (1819), que seria o precursor do gênero literário.

Voilà que dois grandes mitos da literatura gótica foram criados na mesma circustância e por desafio de Lord Byron!

(Existe um filme chamado Gothic, de 1986, de Ken Russel com Gabriel Byrne, Julian Sands e Natasha Richardson, que conta como cada um deles escreveu uma obra nestas férias).

Links:
Dark Romanticism: Byron, Coleridge, Mary Shelley, and the Pursuit of the Supernatural
The Thomas Dolby blog

March 03, 2007

Boris Vian e o trabalho

“O paradoxo do trabalho é que, no fim de contas, trabalhamos apenas para o suprimir. E, ao recusar constatar com honestidade o seu carácter nocivo, acordamos-lhe todas as virtudes que mascararam o seu lado fatal. De fato, o verdadeiro ópio do povo é a ideia que se lhe dá do trabalho.”



February 17, 2007

Estupores e estremecimentos




Enfim, férias surpreendentes permeadas de encontros maravilhados e maravilhosos como a paulista Sol em Itaparica, reencontros ternos e fraternos à la "Billy Bob". No meio disso tudo ficou a certeza que o meu centro é realmente o melhor lugar do meu universo.

O momento me faz lembrar de uma escritora que eu admiro muito, não só pela sutileza da pluma mas tbém pela personalidade e infinita inteligência. Amélie Nothomb escreveu um dos mais estarrecedores romances que eu já li, pela profundidade e inteligência, repito. Esta mulher é um assombro!!! Dela, leiam Stupeur et tremblements, que é simplesmente uma pequena e imensa pérola da literatura, e saibam o que se vai na minha mente.

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November 08, 2006

"100 livros essenciais" da literatura brasileira :

Confesso que estou um pouco no Copy/Paste por única e absoluta falta de tempo; estou chegando de viagem e já preparando a próxima, com as papeladas do Conselho das Artes. Esta semana tive que encarar burocracias brasileiras, e à cada vez que isso acontece me dá um cansaço existencial. Desisti de pedir uma bolsa do ONF/Governo Brasileiro, por causa da burocracia brasileira; Minha amiga Karin me enviou a proposição, mas realmente não dá; um documentário dependendo do dinheiro e papelada brasileira é mais do que pede a minha paciência porque temos que tratar com funcionários. Não dá. Desde que pedi minha demissão do Banco do Brasil não tenho mais saco p/ tais coisas. Foi uma das razões pelas quais eu saí do país e é uma das responsáveis pela minha decisão de não voltar p/ viver; só visitar, e mesmo assim fico doente com o grau de burocracia que temos que enfrentar p/ preparar papeladas, e tempo de espera. Porque a eficiência é algo tão difícil p/ o Brasil?
A burocracia brasileira esta afastando seus cérebros... dá vontade de gritar nos telhados. Neste meio tempo, a vida vai indo e eu cansada de ver aeroportos, mas vou ainda mais uma vez pegar o avião.
Minha querida Laurinha, amiga de todas as horas, lágrimas e muitas gargalhadas, me enviou a lista que a revista "Bravo!" publicou sobre o que eles consideram como os "100 livros essenciais" da literatura brasileira :
2. DOM CASMURRO, Machado de Assis
3. VIDAS SECAS, Graciliano Ramos
4. OS SERTÕES, Euclides da Cunha
5. GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Guimarães Rosa
6. A ROSA DO POVO, Carlos Drummond de Andrade
7. LIBERTINAGEM, Manuel Bandeira
8. LAVOURA ARCAICA, Raduan Nassar
9. A PAIXÃO SEGUNDO G.H., Clarice Lispector
11. LIRA DOS VINTE ANOS, Álvares de Azevedo
12. O TEMPO E O VENTO, Erico Verissimo
13. MORTE E VIDA SEVERINA, João Cabral de Melo Neto
14. VESTIDO DE NOIVA, Nelson Rodrigues
15. SERAFIM PONTE GRANDE, Oswald de Andrade
16. CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA, Lúcio Cardoso
17. OS ESCRAVOS, Castro Alves
18. O GUARANI, José de Alencar
19. ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, Cecília Meireles
21. SÃO BERNARDO, Graciliano Ramos
22. LAÇOS DE FAMÍLIA, Clarice Lispector
23. SERMÕES, Padre Vieira
24. AS MENINAS, Lygia Fagundes Telles
25. SAGARANA, Guimarães Rosa
26. NOVA ANTOLOGIA POÉTICA, Mário Quintana
27. NAVALHA NA CARNE, Plínio Marcos
28. A OBSCENA SENHORA D, Hilda Hilst
29. NOVA ANTOLOGIA POÉTICA, Vinícius de Moraes
30. BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA, Antônio de Alcântara Machado
31. PAULICÉIA DESVAIRADA, Mário de Andrade
32. I-JUCA PIRAMA, Gonçalves Dias
33. BAÚ DE OSSOS, Pedro Nava
34. A VIDA COMO ELA É, Nelson Rodrigues
35. A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS, João do Rio
36. ESTRELA DA MANHÃ, Manuel Bandeira
37. OBRA POÉTICA, Gregório de Matos
38. GABRIELA, CRAVO E CANELA, Jorge Amado
39. MARÍLIA DE DIRCEU, Tomás Antônio Gonzaga
40. CLARO ENIGMA, Carlos Drummond de Andrade
41. MAR ABSOLUTO, Cecília Meireles
42. MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO, João Antônio
43. O PAGADOR DE PROMESSAS, Dias Gomes
44. NOITE NA TAVERNA, Álvares de Azevedo
46. BAGAGEM, Adélia Prado
47. VIVA O POVO BRASILEIRO, João Ubaldo Ribeiro
48. MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, Manuel Antônio de Almeida
49. CARTAS CHILENAS, Tomás Antônio Gonzaga
50. CANAÃ, Graça Aranha
52. A COLEIRA DO CÃO, Rubem Fonseca
53. ESPUMAS FLUTUANTES, Castro Alves
54. UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar
55. A ESTRELA SOBE, Marques Rebelo
56. POEMA SUJO, Ferreira Gullar
57. LUCÍOLA, José de Alencar
58. O ATENEU, Raul Pompéia
59. FOGO MORTO, José Lins do Rego
60. O QUINZE, Rachel de Queiroz
61. SEMINÁRIO DOS RATOS, Lygia Fagundes Telles
62. INVENÇÃO DE ORFEU, Jorge de Lima
63. TERRAS DO SEM FIM, Jorge Amado
64. BROQUÉIS, Cruz e Souza
65. O ENCONTRO MARCADO, Fernando Sabino
66. A MORENINHA, Joaquim Manuel de Macedo
67. MORANGOS MOFADOS, Caio Fernando Abreu
68. O EX-MÁGICO, Murilo Rubião
69. O PICAPAU AMARELO, Monteiro Lobato
70. AS METAMORFOSES, Murilo Mendes
71. HARMADA, João Gilberto Noll
72. ÓPERA DOS MORTOS, Autran Dourado
73. O CORTIÇO, Aluísio Azevedo
74. A ESCRAVA ISAURA, Bernardo Guimarães
75. 200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS, Rubem Braga
76. O VAMPIRO DE CURITIBA, Dalton Trevisan
77. O CORONEL E O LOBISOMEM, José Cândido de Carvalho
78. OS RATOS, Dyonélio Machado
79. O ANALISTA DE BAGÉ, Luis Fernando Verissimo
80. FEBEAPÁ, Stanislaw Ponte Preta
81. O HOMEM E SUA HORA, Mário Faustino
82. CATATAU, Paulo Leminski
83. OS CAVALINHOS DE PLATIPLANTO, José J. Veiga
84. AVALOVARA, Osman Lins
85. EU, Augusto dos Anjos
86. O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?, Fernando Gabeira
87. O BRAÇO DIREITO, Otto Lara Resende
88. QUARUP, Antonio Callado
89. A SENHORITA SIMPSON, Sérgio Sant’Anna
90. TREMOR DE TERRA, Luiz Vilela
91. ZERO, Ignácio de Loyola Brandão
92. GALVEZ, IMPERADOR DO ACRE, Márcio Souza
93. VIVA VAIA, Augusto de Campos
94. GALÁXIAS, Haroldo de Campos
95. INOCÊNCIA, Visconde de Taunay
96. POESIAS, Olavo Bilac
97. O TRONCO, Bernardo Élis
98. O URAGUAI, Basílio da Gama
99. JUCA MULATO, Menotti del Picchia
100. CONTOS GAUCHESCOS, João Simões Lopes Neto

October 26, 2006

Mémoires, Casanova (vers 1790)

" Cultiver le plaisir des sens fut toujours ma principale affaire : je n’en eus jamais de plus importante. Me sentant né pour le beau sexe, je l’ai toujours aimé et m’en suis fait aimer tant que j’ai pu. J’ai aussi aimé la bonne chère avec transport, et j’ai toujours été passionné pour tous les objets qui ont excité ma curiosité. J’ai eu des amis qui m’ont fait du bien, et le bonheur de pouvoir en toute occasion leur donner des preuves de ma reconnaissance. J’ai eu aussi de détestables ennemis qui m’ont persécuté, et que je n’ai pas exterminés parce qu’il n’a pas été en mon pouvoir de le faire. Je ne leur eusse jamais pardonné, si je n’eusse oublié le mal qu’ils m’ont fait. L’homme qui oublie une injure ne la pardonne pas, il oublie; car le pardon part d’un sentiment héroïque, d’un cœur noble, d’un esprit généreux, tandis que l’oubli vient d’une faiblesse de mémoire, ou d’une nonchalance, amie d’une âme pacifique, et souvent d’un besoin de calme et de tranquillité; car la haine, à la longue, tue le malheureux qui se plaît à la nourrir.
Si l’on me nomme sensuel, on aura tort, car la force de mes sens ne m’a jamais fait négliger mes devoirs quand j’en ai eu. [...]. "

October 15, 2006

Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz

Um grande urra p/ a escolha do Nobel da Paz deste ano : MUHAMMAD YUNUS.

Chamado de "banqueiro dos pobres", ele começou com 27 dólares distribuídos entre 42 fabricantes de móveis de bambu de uma aldeia pobre do Bangladesch, e transformou até agora a vida de 6,6 milhões de pessoas. Isso começou há trinta anos atrás.

Com um doutorado em economia obtido nos Estados Unidos, ele ensinou esta disciplina durante sete anos no Colorado antes de retornar em 1971 ao seu país natal, o Bangladesch. A fome, que estava devastando o país obrigou Muhammad Yunus a mudar o rumo da sua vida. O fato é que enquanto ele estava ensinando teorias econômicas desconectadas com a realidade, seu país enfrentava uma grave crise econômica e várias pessoas estavam morrendo de fome nas ruas. Assim, tomando consciência do quanto era arrogante pretender ter respostas permanecendo numa sala de aula, ele foi aos poucos desenvolvendo um projeto centrado sobre a idéia de emprestar-se dinheiro às pessoas pobres, aquelas que não podiam dar nenhuma garantia em retorno.
Em consenquência, muitas pequenas empresas foram desenvolvidas graças aos seus pequenos empréstimos, e o conceito de microcrédito excedeu as fronteiras do país para ser reproduzido na África.

Reagindo à obtenção do prêmio Nobel da paz, Muhammad Yunus declarou: "É uma notícia fantástica, não somente para mim, mas também para milhões de pessoas no mundo que beneficiaram do microcrédito."

Mesmo se cada atribuição de um prémio Nobel da paz acontece raramente sem controvérsias, a escolha foi aplaudida nos quatro cantos do mundo e todos reconhecem que "o vencedor deste ano fez um trabalho notável na luta contra a pobreza, mesmo se não se pode qualificá-lo de pacifista", diz a nota do Prêmio Nobel.

Alguns criticam o projeto de Muhammad Yunus acusando-o de não incentivar a poupança, uma besteira segundo o meu ponto de vista porque o projeto foi feito p/ pobres e quando vc não tem o que comer, como é que vai pensar em poupar?! Mas outros o defendem partindo do princípio que que uma paz duradoura só pode ser alcançada se uma grande parte da população conseguir sair da pobreza. E foi isso que nos recordou o Comité de Seleção do Prêmio Nobel da paz. " O microcrédito, neste sentido, permite progredir a democracia e os direitos humanos.".

September 24, 2006

Thomas Mann e a aranha do quadro do Klint

Esta manhã, eu estava justamente conversando com o Ciro sobre um assunto relacionado com a frase do Khalil Gibran que a Valdelice me enviou, a do post anterior: alguns dias depois de ter voltado de um retiro Vipassana de silêncio, 10 dias meditando 10 à 12 horas por dias, eu acordei uma manhã e abrindo os olhos vi na parede algo brilhante e magnífico, pronto à entrar atrás do meu poster de Gustav Klint. Foi uma parada do tempo. Um silêncio que pareceu durar uma eternidade. Ou simplesmente nada. -é nestas horas que nós percebemos que o tempo não existe realmente, embora nunca poderemos voltar atrás ...-. Ora, petrificada pela beleza do que eu via, não percebi logo que o objeto brilhante era uma aranha, inseto pequeno e que normalmente achava feio e ao qual eu normalmente dedicava um total desprezo devido à sua pequenez, à sua feiúra e à sua qualidade de inseto. Mas naquele momento, acordando, eu só percebi as luzes. Firmando a vista, abrindo mais os olhos e tomando consciência de que eu não estava sonhando, eu pude perceber algo nela que modificou totalmente a forma com que olho não só os insetos mas como procuro ver o mundo em geral. Em volta dela havia linhas brilhantes que a faziam parecer uma pedra preciosa, suas longas pernas eram fios em ouro, de uma elegância que eu nunca poderia suspeitar.

Foi uma das imagens mais lindas que eu já vi, e portanto era uma aranha, destas de longas pernas e que se escondem com rapidez quando percebem nossa presença. A beleza do inseto primeiro fez nascer em mim uma admiração. Eu fiquei profundamente tocada; era algo espiritual. Através desta visão eu pude entender a atração que jóias e brilhos têm em geral p/ os seres humanos: existe uma relação entre o espírito e linhas brilhantes sutis que nos 'encerclam'. Somos seres brilhantes, luminosos e belos. E tudo o que nos lembra este estado, nos atrai.

Eu já tinha percebido também, durante retiros intensivos de meditação e de silêncio, que nós temos, perto da superfície externa da nossa pele, linhas extremamente sutis e que repetem ad infinitum uma ornamentação parecida com motivos utilizados nos anos vinte - parecidos com folhas e flores-, ou certos motivos parecidos com uma gota de água vista num microscópio ou de uma gota de água que se gelifica na janela. Mas em forma extremamante sutil e viva, transparente, finíssima, dinâmica e elegante. São formas que se recriam sem parar, com muita elegância e rapidez, formando eternamente formas belas. Nós todos somos encerclados po restas linhas, numa espécie de dança; elas estão sempre se transformando e se auto-criando, como se fosem plantas vivas dançando eternamente.
Todo o seu movimento lembra realmente de uma dança sutil, dinâmica, extremamente elegante.
Acho que são as mesmas linhas vistas no inseto, ou bem parecidas, mas a diferença é que as do inseto eu não vi meditando, mas estando simplesmente presente no momento.

A experiência da meditação me mostrou que uma grande parte do mundo é completamente ignorada por nós, mas que existe realmente embora não possamos percebê-la à todo momento. Sei que pude perceber toda esta beleza por causa da meditação, que me ajudou à acalmar meu espírito e retirar grande parte de um véu que encobre meus olhos. Mas mesmo se esta visão da beleza pura foi rápida, e embora eu não possa percebê-la todo o tempo, existe dentro de mim o conhecimento da existência dela, nascido da experiência do silêncio e da auto-observação.

Isso me faz lembrar de uma frase de Thomas Mann no filme Morte em Veneza: "A visão da beleza pura é o prenúncio da morte próxima". Eu tinha quatorze anos quando a ouvi mas a minha alma já velha de tanta dor sentiu esta compreensão silenciosa do que nos passa como uma corrente; não me recordo se a frase foi literalmente esta, mas foi a que ficou no meu espírito e depois de tê-la arquivada na minha memória durante todos estes anos, eu nunca pude deixar de constatar o quanto é verdadeira.

August 23, 2006

Fotos dos dois Jacks: London e Kerouac

Anjos perdidos: livros, Jack Kerouac, Jack London e outros


Antes de Kerouac, eu tinha descoberto Jack London.

Durante algum tempo, eu venerei Jack London. Comecei lendo ele na biblioteca de Barra Mansa, aquela salinha raquítica que eu já tinha revirado de ponta à rabo mas que era tão pobremente insuficiente p/ a minha sede... Depois venerei ele durante algum tempo, na minha adolescência quando fui atrás de seus livros na biblioteca da AMAN (ahahaha... a biblioteca da AMAN era muito boa mesmo!) e li tudo que me caiu nas mãos. Sempre achei que Kerouac fosse herdeiro de London e inclusive, eles são fisicamente parecidos em algumas fotos - incrível! É desta imagem que me recordo num dos livros de London da minha adolescência: ele em cima de um barco, escrevendo, roupas de couro, cabelos ao vento-.
De London, me vem a memória de Kipling e James Joyce. Com eles, tranquilamente, vieram vindo os outros mais.

Um dia o Ricardo me apareceu lá em casa com o "On the Road" embaixo do braço p/ presente. Porquê? Não me lembro. Talvez porque eu vivia viajando e fazendo planos p/ futuras viagens, querendo saber o que existia do outro lado do muro, com uma sede e vontade de dizer 'sim' à tudo. Não sei. Amador de cinema, foi também Ricardo quem me apresentou à obra de Fassbinder no tempo que só tinha Fassbinder no Instituto Goethe. E ele me explicava tudo. Eu tinha 18 anos e aquilo tudo era tão encantador, novo, sedutor e profundo que me senti irremediavelmente subjulgada pelo mundo descrito no "On the Road" à ponto de começar à encontrar pela frente na minha vida algumas figuras parecidas sair direto de lá. Encontrei em Porto Alegre um digno herdeiro dos Beat, que fazia parte dos que se chamavam Darks na época e se vestiam com aquelas roupas negras e elegantes de Berlim, louros e bonitos, com os sapatos grandes de pontas quadradas que eu só encontraria em Montreal alguns anos depois....

Mas a Beat Generation me deixou um gosto inesquecível dos The Subterraneans na boca e na mente. Eu amei este livro e quando cheguei em Montreal, ele estava no fundo do meu pensamento, sobretudo quando eu observava aquele pessoal jovem que se instalava na estação do metrô de Santa Maria -a mesma desilusão... e mais ainda, tinha o jazz, tinha o inverno frio e as noites nebulosas através da cidade sonolenta de neve-. E eles tinham a minha idade. E eu era mais jovem do que Jack Kerouac quando ele, bêbado do amor de uma deusa cigana negra, escreveu este livro em 1958; é totalmente uma obra sobre o amor, descrevendo uma relação que foi sendo detalhada intimamente desde a descoberta do início e as surpresas do fim que ia se anunciando. O título do livro ficou sendo Os Subterrâneos graças à Allen Ginsberg, que descrevia os personagens, reais, do romance nestes termos:…"They are hip without being slick, they are intelligent without being corny, they are intellectual as hell and know all about Pound without being pretentious or talking too much about it, they are very quiet, they are very Christlike[…] ".

Uma pequena pausa: a primeira vez que ouvi o nome Kerouac em francês, eu estava no Cheval Blanc com a turma do François, todos amantes de jazz, e não entendi que Jo estava falando de um dos meus escritores preferidos simplesmente porque como boa brasileira, eu repetia a pronúncia errada dos anglófonos que têm um sotaque horrível quando falam francês. Não que eu seja excelente em francês, mas realmente existe uma grande diferença nas duas pronúncias. Mas geralmente, os anglófonos que sabem que é um nome francês e mesmo se não falam a língua, procuram a pronúncia mais perto possível da original. A gente diz o nome exatamente assim, devagar e em 4 sílabas, a última sendo mais rápida do que a penúltima: ke-rru-aaa-ki.
Isso tudo porque muita gente não sabia ou preferiam ignorar achando que fosse um simples detalhe -ao menos no Brasil na época em que eu morava lá e lia os livros em português e nunca li referência à sua origem- que a família de Kerouac veio do Québec, eram canadenses franceses. Ele se chamava Jean Louis Lebris de Kerouac.
Embora eu não seja conhecedora profunda da obra de Kerouac, acho que todos os que são deveriam vir aqui p/ observar o comportamento social p/ poder entender as raízes desta pequena comunidade francófona de Lowell na época. Não entrarei demais no assunto, mas eu poderia quase jurar que no sangue da família Kerouac, como no sangue da maioria dos canadenses de origem francesa, tem sangue índio. Sem falar que aqui mesmo nos deparamos frequentemente com muitos tipos físicos parecidos com os de Kerouac (os canadenses franceses têm esta característica de serem bonitos, muito bonitos mesmos com estes profundos olhos azuis de lobos de mar - descendência gaulesa obriga). Inclusive com os olhos em amêndoas (como minha filha e o pai dela), característicos dos indígenas embora eles sejam de raça branca. Acho que a personalidade de Kerouac e sua necessidade de verdade, espiritualidade e liberdade, é em grande parte devedora destes antepassados autóctones.

E depois? bom, à partir de Kerouac, cheguei à John Fante e "Arturo Bandini", Ginsberg, William Burroughs, Antonin Artaud, Andre Breton, poetas obscuros japoneses antiquíssimos, Rimbaud, Baudelaire, Jean Genet, Keats... -eu já amava Byron- e Percy Shelley, alguns poemas de Walt Whitman e os contos de Edgar Allan Poe, e outros, muitos outros... Isso só aumentou a minha fome.

Mas a figura central e que foi a base p/ a existência do movimento Beat, inspirador de obras marquantes na literatura através da pluma de John Clellon Holmes, Jack Kerouac, Allen Ginsberg e muitos outros, foi Neal Cassady, sem o qual o movimento Beat jamais existiria. Seu estilo espontâneo de escrita nas trocas de correspondência com os amigos, inspirou Kerouac à inventar a noção de prosa espontânea.

Bonito, selvagem, olhar cândido de uma alma sofrida, Neal Cassady foi educado por um pai alcoólatra em hotéis de beira de estrada e vagões de trem. Tendo vivido grande parte de sua juventude em escolas reformatórias e prisões, ele desenvolveu instintos suaves de um ilusionista na pele de um ladrão de carros com uma habilidade original para seduzir pessoas através da sua enorme fome de amor e de vida, e pelo temperamento tão angelical quanto demoníaco. Mas um demoníaco profundo, silencioso, espiritual, atormentado e sedutor. Como pode-se ser tudo isso ao mesmo tempo é a base do enígma Neil Cassaday. Para Kerouac, ele era um anjo perdido.

Diziam que ele nunca tinha tempo de escrever nada porque estava ocupado demais em viver. Relacionando-se com várias mulheres e tendo alguns filhos, Cassaday viveu uma relação "oficial" e um pouco mais duradoura com Carolyn, que também foi durante um curto período de tempo amante de Kerouac formando os três um menage à trois tão atormentado quanto obscuro.

Encontrado desmaiado ao lado das trilhas de trem uma manhã e levado às pressas ao hospital em estado de coma, Neil Cassaday morreria algumas horas mais tarde, em 1968. Kerouac viria à morrer um ano depois.


"He was simply a youth tremendously excited with life, and though he was a con-man, he was only conning because he wanted so much to live and to get involved with people who would otherwise pay no attention to him. He was conning me and I knew it, and he knew I knew (this was the basis of our relationship)." --- On the Road, pg. 4

"Have you ever seen anyone like Cody Pomeray?-- a young guy with a bony face that looks like it's been pressed against metal bars to get that dogged look of suffering... who walks as fast as he can go on the balls of his feet, talking excitedly and gesticulating... There are some young men you look at who seem completely safe, maybe just because of a Scandanavian ski sweater, angelic, saved; on Cody Pomeray it immediately becomes a dirty stolen sweater worn in wild sweats." --- Visions of Cody, pg. 48



K.
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July 07, 2006

O Silêncio do Mar, de Vercors

Ontem à noite eu estava conversando com a Tati sobre o romance de Vercors "O Silêncio do Mar", o que reacendeu em mim uma flama fumegante por esta grande obra que Pierre Boutron adaptou e transformou em uma maravilha cinematográfica.
Humanista, Vercors conta, e Pierre Boutron descreve em imagens magníficas, a alma humana. Mas atenção, é um telefilme e é bem difícil encontrá-lo em locadoras mas se vc conseguir vê-lo, tenho certeza que vai desligar a TV refletindo sobre esta história que nos ajuda a entender o quanto é raro o encontro de outros seres que se parecem conosco e graças aos quais nos surge o natural desejo de fusão. O romance de Vercors nos conta que este contato entre seres que se complementam pode ser fatalmente destruído, e isso é uma grande perda. É o senso do trágico na história.

P/ quem não leu, dê um pulo aqui p/ ler o artigo que eu escrevi sobre o filme.



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April 17, 2006

Projeto Releituras e Jack Kerouac


Meu conto gótico no Releituras
Leiam um dos meus contos no Projeto Releituras, que é um excelente site p/ quem curte literatura.

Jack Kerouac e a Beat Generation
Quando dizem que na vida a gente obtém o que quer, é verdade. Eu era vidrada em Jack Kerouac e na Beat Generation e o meu sonho era viver no mundo deles, como eles. E sem premeditar ou mesmo perceber, tranquilamente foi o que aconteceu, e este espaço de tempo foi o suficiente p/ eu me conscientizar que certos eventos literários vividos com graça e elegância no papel e quando lidos, podem ser assustadoramente trágicos. A vida, simplesmente. Embora na minha alma a beleza daqueles momentos dilacerantes e dramaticamente verdadeiros, e singelos, tão inocentes, sem alguma máscara ou artifícios, tenham deixado uma marca profunda. Eu sou muito feliz por ter vivido isso.

O dia em que ouvi meu amigo falando no telefone com seu co-locatário, eu sabia que a voz indistinta no outro lado da linha seria um grande amor na minha vida. Uma emoção totalmente nova entrou na minha consciência e quando ele ultrapassou a porta da frente e me convidou à tomar um café -eu me sentei na sua frente e olhei aqueles olhos azuis profundos e pela primeira vez na minha vida olhei profundamente lá dentro dos olhos de alguém com coragem e paciência e o tempo – que nos corrói por dentro- de ver não somente a superfície (e ele não desviou o olhar nem os abaixou -seus olhos infinitos-), eu soube que um anjo vagabundo estava ali na minha frente. E não era questão de um sonho focalizado em Jack Kerouac não, pois eu tinha me esquecido dele à muito e portanto os próximos anos da minha vida iria copiar no palco de Montreal e através da febre de jazz -pianos e saxs daquelas noites frias- os passos de algumas existências que se assemelhavam sem mesmo mostrar uma ínfima suspeita. Eu tinha me esquecido, ou nunca sabido até então, que Kerouac era de origem franco-canadense justamente, seus pais tendo emigrado do Québec para Lowel.


Minha amiga que eu gosto muito
Conheci ela na rua Sherbrook, passeando; não, p/ ser mais exata, atravessando a rua. Uma coisa mesmo estranha é que embora eu nunca tenha tido um interesse particular pelas culturas orientais em exceção do Vietnam e do Cambodja, eu sempre desenvolvi grandes e profundas amizades com pessoas vindas destas culturas. Minha falta de interesse sempre veio, confesso envergonhada, que sou arisca à certas expressões culturais e artísticas como os móveis -eu juro- pois tenho horror do design dos móveis japoneses e chineses sobretudo! Mas não é minha culpa pois sempre fiz um grande esforço p/ entender e mesmo gostar, mas está acima de minhas forças.

Mas as amizades que crio com pessoas destas culturas sempre foram verdadeiras e quase eternas. É com minha amiga sul-coreana que conheci no meio da rua, Jean O., que passo horas falando sobre a diferença da percepção que temos do mundo. E fico abismada de verificar, mas sem analisar o porquê exatamente, de como os coreanos do sul são parecidíssimos com os sul americanos, mas sobretudo com uruguaios e peruanos. Esta minha observação é puramente subjetiva e eu deveria acrescentar, com uruguainos e peruanos que eu conheço. Mas, em todo caso, espero que vcs tenham entendido. Isso p/ dizer que constatei que existem mais afinidades entre sul-coreanos, chinese, vietnamitas, cambodjanos com as culturas da américa latina do que com europeus ou norte americanos. Será que é por causa da herança dos povos autóctones? Não sei. Talvez eu possa acrescentar os tibetanos nesta lista, embora eu não tenha tido amigos tibetanos e nem conhecido profundamente algum deles mas tenha conversado com muitos em várias ocasiões, tanto no Canadá quanto na França e à primeira vista eles são muito parecidos com brasileiros, pasmem!

k.
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