Writing, Flying and Huevos Revueltos
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June 02, 2008

Sex is back!

Esqueci de comentar aqui… esqueci não, o renascimento do blog tá tão recente, que não deu tempo mesmo : numa emissão aonde enfrentam-se os melhores da dança Americana, na quinta–feira passada eu assisti mais uma vez a volta do SEX em “So You Think You Can Dance”. A emissão tem o melhor como o pior, o interessante sendo que lado à lado estão obscuros autodidatas como profissionais, mas tanto num campo como no outro podemos ver os melhores como os piores exemplos do que é a dança. Hoje, domingo, repetiram os melhores momentos; muitos voltando para uma nova audição, depois de terem se aperfeiçoado (ou pensado que se aperfeiçoaram). Existe um processo rigoroso aonde todos têm que provar suas capacidades em solo, em grupo, em diferentes estilos de dança, diferentes coreografias e diferentes parceiros de dança.

Os piores dançarinos chegam à comover a platéia em histerismo coletivo de gargalhadas, mas existe um em especial por quem eu tenho uma grande admiração pela sua vontade de ferro, coisa que muita gente com talento não tem. Auto-confiança inebranlável, desajeitado e sem talento, ele se auto-denomina "Sex", embora falte-lhe o mínimo sexy appeal. De seu verdadeiro nome, David Kenneth Soller, tem 33 anos e sua maior admiradora é a mãe, que o acompanha nas audições; os dois, mãe e filho, defendem, num inglês rigoroso e inteligente, o direito de Sex de ser um dançarino, mesmo se um dos jurados grita-lhe literalmente que ele « não será dançarino nunca neste planeta ». Defendendo-se à altura, ao menos em palavras, olhos perturbados mas confiantes, ele não desiste, e não adianta o juri afirmar que ele não é bom ou que não é sexy («Vc não é sexy coisa nenhuma, vc é duro e frio!», diz o jurado sem paciência). Sex responde sério que todos seus amigos acreditam que ele seja realmente sexy.

Semana passada ele voltou. Com um fã clube imenso, seus videos estão invadindo a web, sobretudo no YouTube. Na primeira estação pensei que ele fosse um ator, só que com o tempo fui vendo que é real; a ajuda de um banho de loja e uma investida em cabelereiros traria uma beleza escondida atrás de um teatro que não é realmente um, pois justamente, todos admiram Sex por ele ser honestamente o que aparenta ser : belo sorriso, cabelos longos, calções larguíssimos que chegam quase até seus joelhos, tênis e meias longas, desajeitado e totalmente incapaz de dançar, ele permanece com uma boa dose de auto-afirmação; infelizmente, falta-lhe o essencial.


Assistam os videos no YouTube que vcs verão as diferentes etapas de Sex: 
http://www.youtube.com/watch?v=1-oJzOWmxh0
http://www.youtube.com/watch?v=gU-cQF8E48Y&watch_response
http://www.youtube.com/watch?v=rJa9YEjT86s&feature=related

June 01, 2008

Doing Time, Doing Vipassana

O documentário “Tempo de espera, tempo de Vipassana” (Índia/Israel, 50 min) recebeu vários prêmios através do mundo; relata experiência ocorrida em diversas prisões da Índia com a aplicação da técnica de meditação Vipassana, a técnica utilisada por Buda há 2.500 anos. O filme mostra como a prática da meditação silenciosa e da auto-observação das sensações do corpo pode auxiliar na compreensão de si mesmo e da realidade ao seu redor. Criminosos que antes eram extremamente perigosos tiveram suasvidas transformadas depois do curso de Vipassana.

Na youtube existe a versão em inglês do filme, em 5 partes:

http://www.youtube.com/results?search_query=%22Doing+time%2C+doing+vipassana%22+&search_type=



The award winning "Doing Time, Doing Vipassana" is a 50 minute documentary about the introduction of Meditation program in a violently corrupt Tihar prison in New Delhi.
After course in Vipassana, violent criminals were said to have been miraculously and drastically transformed.

http://www.youtube.com/results?search_query=%22Doing+time%2C+doing+vipassana%22+&search_type=

May 30, 2008

Ser brasileira..... será que tem diferença?!

No final de 2005 ou começo de 2006, eu descobri um site sobre brasileiros que viviam fora do país. Eles nos pediam para preencher um formulário, em forma de entrevista, na web. Na época, tinha bem poucas entrevistas, tanto que eu preenchi o meu formulário e deixei para enviar depois de ler algumas e ver o site em geral. Só que na época eu tive problemas com o computador e depois de alguns rolos, acabei me esquecendo de enviar a entrevista. O tempo passou e eu me esqueci do caso. Só agora é que, reavendo alguns docs antigos que recuperei na época, dei de cara com a entrevista que eu tinha feito. Mas o tal site já não existe mais!
Para encurtar a história, coloco aqui o que eu preenchi na época:


Entrevista. Seja um pesonagem do Identidades

Pra começar, descreve um pouco de ti. O que fazes, profissão, trabalho, interesse.
Eu sempre digo rindo que saí do Brasil por causa de um poema de um japonêss chamado Matsuó Basho, que viveu por volta de 1660. Culpa do poeta japonês e de um jornalista gaúcho que se chama Eduardo Bueno, que nunca conheci, mas que foi colocar o dito poema no livro Alma Beat, o que selou o meu destino pois li o livro e três frases do poema ficaram martelando na minha cabeça : “Luas e sois são viajadantes da eternidade. Os anos que vêm e que vão são viajantes também. Os espíritos do caminho me fizeram inúmeros sinais, e eu descobri que não podia mais continuar trabalhando e tinha que partir”.

Antes de ler o poema, eu já tinha ido p/os EUA várias vezes de férias e lá conheci vários europeus que viviam me convidando para conhecer seus países. Na mesma época, alguns amigos meus foram morar na europa, aí a vontade aumentou, né?! Trabalhando no Banco do Brasil, eu estava profissionalmente descontente porque a minha ambição era desenvolver um trabalho com artes; mas a verdadeira razão é que eu sempre gostei de viajar, conhecer outros povos, outras culturas, sempre fui curiosa por tudo, e estava também bastante desiludida com a situação política e econômica do país. Um dia eu olhei ao meu redor e vi que nada do que eu vivia me interessava. Foi aí que li o poema e logo soube que ele estava me falando, foi uma certeza absoluta pois senti que os espíritos do caminho me faziam realmente inúmeros sinais. Aí eu pedi por 2 vezes uma licença para ficar 1 ano viajando fora do Brasil, o que era permitido no banco, mas o gerente da agência aonde eu trabalhava e que tinha o apelido de Vaca Brava, não me deu autorização. Depois de esperar em vão pela autorização e cansada de só ficar no país presa à um emprego que não me oferecia mais alguma satisfação pessoal, eu pedi demissão. Imediatamente peguei um avião p/ Orlando porque já tinha um emprego em vista lá e queria juntar grana para ir para a Europa. De lá, fui passar o natal em Montreal, no Canadá e o passeio que deveria durar 15 dias, dura até hoje. Fui ficando por aqui porque eu adoro esta cidade. À partir do Canadá, fui conhecendo o mundo, fiz faculdade de Artes Visuais e mestrado em Comunicações, obtive várias subvenções do Conselho das Artes do Canadá e do Quebec e de outros orgãos governamentais para desenvolver pesquisas com artes e novas tecnologias, recebi prêmios internacionais por meus trabalhos e vivo muito feliz por aqui com minha família; também adoro escrever e no momento estou trabalhando numa série de contos, e tenho um blog no http://montrealswinds.blogspot.com

Por que saíste do país? Qual o motivo de estar vivendo aqui?
Vim p/ o Canadá só p/ visitar uma amiga, mas fui ficando porque queria viver numa sociedade menos machista que a brasileira e ao princípio foi isso que me seduziu em Montreal, pois sendo mulher eu sempre fui muito mais livre aqui.

O que mais gosta daqui?
Tranqüilidade e segurança (poder andar sózinha no meio da rua à qualquer hora do dia ou da noite sem me preocupar), diversidade cultural, fácil acesso à cultura e educação, objetividade, pragmatismo. De neve caindo, das cores do outono, da beleza da primavera. Dos meus amigos.

O que menos gosta daqui?
De sete meses de frio (três daria p/encarar numa boa), do pouco senso de civilidade da população, da introspecção das pessoas, da xenofobia, do individualismo que pode também ser uma coisa boa dependendo do contexto. Da repressão e ridiculização da sensualidade feminina.

O que mais sente falta do Brasil?
Do sol sempre presente, do bom humor, do interesse geral por outros povos e culturas, da abertura de espírito, da inteligência, da civilidade, da riqueza cultural, da espontainedade, humanismo e dinamismo, da faculdade de improvisação, de cocada, de acarajé, de muito sorriso, de sensualidade, de forró.

O que menos sente falta do Brasil?
Da violência, da insegurança, do machismo, da ignorância das classes abastadas, dos resquícios da escravidão, do abuso de poder e petulância com pessoas que estão em posição socialmente inferior, do fato de que muita gente considera trabalho manual degradante, da falta de respeito endêmica por empregadas domésticas, da superficialidade, da falta de cultura e presunção de uma certa burguesia que passa o tempo assistindo televisão. Do ufanismo. Da mania de julgar os outros pelas aparências. Do complexo de inferioridade perante o estrangeiro. Da zoada futebolística dominical -ainda bem que o maridão aqui não é disso, cruz credo!-. Tenho também a mais completa incapacidade de respeitar gente que chega atrasada à um compromisso, pior ainda se é profissional, neste caso está definitivamente riscado da minha agenda. Ah, ia esquecendo, e do pedantismo de certos intelectuais que usam e abusam de um linguajar arcaico, a velha mania de falar difícil e não dizer nada.

Queres voltar ao Brasil? Quando? Planos futuros?
Não sei. Não tenho planos definitivos.

Tens algum objeto ou algo que te lembre o Brasil, que entendas como parte da tua identidade brasileira?
Tem gente que usa palitinho de dente, o que eu detesto, me dá um nojo danado e infelizmente esse é um costume bem brasileiro, dá vontade de jogar a pessoa (homens na maioria dos casos), os palitinhos e a bandeira do Brasil pela janela. Mas isso eu só citei por me lembrar, prq aqui em casa não entra este negócio... rsos.... Mas tenho uma obra de valor inestimável que é um dos álbuns de fotografia de meu bisavô, com fotos de toda a família desde 1840, o nascimento da fotografia no Brasil. Tenho quatro redes, uma que coloco na minha varanda no verão. Aqui tem também uma bandeirona do Brasil p/ sair na rua quando o Brasil joga na Copa, uma porção de revistas Veja e gibis da Mônica, do Cascão, da Magali e do Cebolinha, vários DVDs de séries de TV, uma bola de futebol bem brasileira, uma peteca também bem brasileira que aqui ninguém conhece, o Aurélio, uma porção de livros de autores da terrinha (tenho até o Alquimista, juro....e também tenho autor brasileiro em francês, pode?), cassetes de camdomblé, muito Cd de música brasileira, tenho também aquele negócio de fazer misto-quente direto no bocal do fogão, que aqui não existe e nem dá p/ fazer porque o fogão é elétrico, tenho aquele abridor de lata bem primitivo que aqui é proibido porque é perigoso mas eu prefiro que qualquer outro, de vez em quando tem bombom Garoto que compro na lojinha do chinês, tenho um poster muito bonito da cidade de Mariana, MG. Tenho sabonete e incenso de casa de macumba p/ afastar mal olhado que trouxe p/ amigos e nunca dei, chinelo havaiana, camisas de futebol verde amarela, um cafona cristo redentor de madeira, uma porção de ervas medicinais que comprei numa ferinha em Rio Claro, dois vasos lindos de cerâmica marajoara, panelas de ferro de Minas Gerais, castiçal e saboneteira em pedra sabão também de Minas. Ah, aqui em casa tem até um tatami que meu marido comprou na Liberdade, acredite quem quizer. Tem também chá mate e cuia autêntica gaúcha p/ beber chimarrão e um berimbau quebrado que a gente não sabe concertar e nem tem a coragem de jogar fora.

O que é ser brasileiro/a pra ti? Na tua opinião qual seria uma característica típica brasileira? Tu a tens?
Não conheço nenhuma definição do que é ser brasileiro porque acho que isso não existe, a tal definição. Esta idéia está muito ligada à um monte de clichês, como tem gente que pensa que ser brasileiro é ser espontâneo, ou solidário, ou sambar bem. Peguei a solidariedade, que dizem que é do brasileiro, e pinguei um pouco do bom senso canadense. Mesmo se conheço uma porção de canadense sem bom senso e muito brasileiro egoísta. Fiz a mesma coisa com a espontaneidade, mas respeito o espaço de cada um e defendo o meu. Sempre fui independente, gosto de gente, mas não gosto de viver em bando. Não vou dizer que brasileiro é entrão, mas também não direi que canadense é frio. Isso tudo é clichê. Cada um tem sua própria personalidade, enriquecida com as experiências acumuladas e influênciada pelo meio ambiente (educação, classe social, clima, etc.). Tudo isso influencia o comportamento. Um exemplo: eu sambo mal, não gosto de churrasco - sou vegetariana- nem de futebol, nunca chego atrasada em lugar nenhum. Conheço muito “não-brasileiros” que sambam que é uma beleza, só vivem em festas de arromba e estão em todas, de fio dental, plumas e paetés.

Te sentes mais ou menos brasileira por viver fora do país?
Conviver e me fusionar com outras culturas é uma riqueza inestimável, e isso não afeta a minha identidade básica, isso me enriquece culturalmente e espiritualmente porque me ajuda a compreender que o ser humano é muito parecido mesmo pertencendo à culturas diferentes. Brasileira eu serei sempre prq acho que somos direcionados pela primeira infância. Claro que eu aprendi uma porção de coisas, perdi algumas ilusões e ganhei outras, mas a minha base continua a mesma. O que talvez tenha mudado é a percepção que as pessoas têm de mim, porque elas sabem que eu saí do país e que convivo com outras culturas. Mas finalmente, eu sempre me considerei uma pessoa sem grandes apegos e muita curiosidade, mas nunca fui de me catalogar nem catalogar os outros. Decidi que sairia do país já desde os 6 anos de idade porque na época alguém me disse que na Inglaterra existia galinha de duas cabeças e eu sempre quiz ver isso de perto. Acho que nasci cidadã do mundo mesmo se a educação que me deu uma base e que ajudou a formar a minha identidade foi uma educação brasileira. Eu vivo muito bem em Montreal, como vivo no México, como vivi em Salvador, como viveria em Londres. Só não gosto de Paris p/ viver, só p/ passear, como também não gosto de viver em Niterói, por exemplo, ou Toronto ou Atlanta. Acho que tenho uma base muito profunda e não é mudando de lugar que ela será afetada.

Resumo a coisa assim: adoro um certo tipo de comida e posso comer isso em qualquer lugar porque sei aonde encontrar e como preparar a comida que gosto e sobretudo, não dependo de ninguém p/ cozinhar p/ mim. A minha comida é deliciosa porque eu quiz aprender a fazê-la deliciosa, e é um prazer compartilhar a mesma. Se não encontro o que quero, como outra coisa parecida, mas nunca fico com fome. Adoro restaurantes de qualidade e não me importo de pagar caro p/ ter o que quero, mas isso não é essencial. O essencial é que eu sei do que gosto e do que não gosto, dos meus limites, das minhas capacidades, e de quem eu sou. Entendeu?

Algo mais?
Um grande abraço à todos!


Brasileiro/a de onde? Montreal, canadá.

March 12, 2008

Seu Caxá

Gostei muito do "Seu Caxá".

July 20, 2007

Visitamos uma exposição sobre os dragões, no Muséu da Civilização de Québec


Copyright©k.s. design, 2007. All rights reserved.

Casamento ideal entre arquitetura antiga e moderna,











Copyright©k.s. design, 2007. All rights reserved.



Coloquei estas fotos aqui p mostrar o casamento ideal entre arquitetura antiga, em pedra e madeira, ornamental muitas vezes, e a moderna, em vidro, metal e cimento. Na cidade de Québec, ao contrário de Montreal, existem pérolas neste sentido. Montreal tem muitas catástrofes, qdo se trata de renovações ou modernização de edifícios antigos. É uma lástima, o q a gente não vê em Québec, graças aos céus!

À partir da terceira foto, vemos a faculdade de Arquitetura da Universidade de Laval, a primeira universidade de língua francesa nas Américas. Um exemplo espetacular do q eu disse acima.

July 18, 2007

Desfile Circo/Carnaval do Festival de Jazz de Montreal em fotos














Copyright© KSDesign, 2007. Proibida a reprodução.



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June 01, 2007

Paul Valéry e A Jovem Parca (La Jeune Parque)

Conjunto de esculturas em "ciment fondu" e ferro.
Imagens, tradução, textos Copyright©k.s. design, 2005. All rights reserved.

reserved.




“Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

«O escritor verdadeiro é um homem que não encontra as suas palavras. Então, ele as procura. E procurando, ele encontra melhor ».


Um dia chuvoso lá fora e aqui dentro está quieto, cheio daquela tranquilidade que facilita a concentração para se trabalhar num projeto difícil ou enfim, trabalhar com afinco em coisas que pedem uma interiorização particular. Penso logo em Paul Valéry. Além de poeta, ele foi ensaísta e pesquisador no campo das idéias; interessou-se em geral pelas artes e ciências, notamente pela Arquitetura, Filosofia, Teoria Literária, Música, Dança, Matemática, Geometria, Física e se fixou a tarefa de refletir sobre o funcionamento do espírito. Escritor, pensador, poeta da sensualidade e do rigor intelectual, estudioso das ciências exatas, sua linguagem artística era associadas à linguagem das ciências mas ledo engano o de vcs que imaginam textos frios e sem alma. É exatamente o contrário.

Espírito dotado de uma corajosa e prolífera curiosidade pelas formas diversas e pelas linguagens possíveis, vida, arte e ciências, para Valéry, estavam intrisicamente associadas à uma dinâmica da observação, tal qual uma meditação irreligiosa vivida no rigor de um observador infatigável.
Aos 22 anos, ele chega à conclusão que o que chamaria de Método de Leonardo da Vinci -"mestre de seus meios, este possuidor do desenho, das imagens, do cálculo, tinha encontrado a atitude central a partir da qual as empresas do conhecimento e as operações da arte são igualmente possíveis, as trocas felizes entre a análise e os atos singularmente prováveis: pensamento maravilhosamente excitante"-, seria para ele o encontro com o conhecimento verdadeiro e com a sua liberdade como artista e como ser humano.
Para Valéry, a criação não é simplesmente um instrumento de expressão mas um compromisso existencial.

Através do arquiteto Eupalinos, ele deixou esta frase de profunda sabedoria: “Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

Na noite do 4 para o 5 de outubro de 1892, Paul Valèry passou por uma grave crise existencial, aonde ele decidiu repudiar os ídolos da literatura, do amor e da imprecisão para se consagrar ao que chamou de «A vida do espírito»:
«Destruí os meus encantos. Procurei o rigor porque a naturalidade não me interessa».

À partir daí, diariamente, ao nascer do dia, ele irá observar seu processo criativo notando em vários diários todas as suas reflexões e dirá mais tarde: «tendo consagrado horas à vida espiritual, eu me sinto no direito de ser besta o resto do dia ». Ele se fixa então, o trabalho de refletir sobre o funcionamento do espírito e dirá mais tarde que esta noite foi a sua verdadeira origem. Durante mais de vinte anos, ele pára então de escrever e se consagra ao que chama de « o conhecimento de si mesmo e do mundo », continuando a preencher seus diários, publicados depois da sua morte com o título de Cahiers.

A Jovem Parca, poema de 512 versos que levou 4 anos para ser finalizado, considerado por muitos como o mais importante texto da lingua francesa do século XX, será sua obra primeira depois destes vinte anos de silêncio como escritor.

............................................

A Jovem Parca foi uma das minhas obsessões no passado e que se transformou no passar dos anos em textos, imagens, escrituras diversas traduzidas em trabalhos com vídeo, música, esculturas, gravuras e enfim multimídia. Meu livro que eu chamo A Velha Parca, está cansado, rasgado, cheio de anotações e tenho ainda por ele este amor irriquieto que me perseguiu até que eu o colocasse na estante depois de tantas obras produzidas, jamais finalizadas. A questão que me ronda ainda não conseguiu se calar. Ele, o livro, me preocupava. E isso porque eu ainda não tinha descoberto o resto. O resto, esse amálgama sem fim de idéias anotadas, de gritos e meditações em versos e prosa, anotações curtas e intarissáveis que rasgam folhas e folhas de livros nas bibliotecas. A obsessão agora se deformou, tomou novas proporções, ela se encantou, deixou talvez de ser obsessão para ser justo uma idéia, a de amar estas idéias, de admirá-las, de, no silêncio, compartilhá-las.

Luta entre a vida e a morte, escrito na primeira pessoa, o poema é uma alegoria da oposição entre consciência e inconsciência, uma luta do absoluto da inteligência lúcida contra o instinto e a sensualidade através de um jogo ordenado de imagens e de sonoridades, constituindo assim, segundo o que Valéry irá várias vezes designar, uma composição musical à partes variadas.


Extratos de La Jeune Parque (Traduzido por K.):

"O céu formou ele este amontoado de maravilhas
Para a morada de uma serpente?"

Pierre Corneille


Quem chora lá, senão o vento simples, à esta hora
Única, com diamantes extremos?... Mas quem chora,
Tão perto de mim-mesma no momento de chorar?

[...]

Sou sózinha com vocês, trêmula, tendo deixado
Minha cama; e no perigo mordida pela maravilha,
Interrogo meu coração qual dor desperta-o,
Qual crime por mim mesma ou que eu soube consumir?...
... Ou se o mal me segue de um sonho fechado
Quando (ao veludo do sopro perdido o ouro das lâmpadas)
Tenho de meus braços espessos cercado minhas têmporas,
E muito tempo a minha alma esperado os relâmpagos?
Toda? Mas toda à mim, senhora das minhas carnes,
Endurecendo de um estremecimento a sua estranha extensão,
e nos meus doces laços, ao meu sangue suspenso,
Eu me via, sinuosa, e dourava
De olhares em olhares, minhas profundas florestas.

Eu seguia uma serpente que acabava de me morder.

[…]

Mas eu tremia de perder uma dor divina!
Eu beijava na mão esta mordida fina,
E não sabia mais de meu antigo corpo
Insensível, apenas um fogo que ardia nas minhas margens:

Adeus, pensava eu, EU, mortal irmã, mentira...

Harmoniosa EU, diferente de um sonho,
Mulher flexível e firme aos silêncios seguidos
De atos puros!... Têmpora límpida, e de ondas roubadas
[...]
Diga!... Eu era a igual e a esposa do dia,

[...]

Lamento à metade esta vã potência...
Uma com o desejo, fui a obediência
Eminente, presa à estes joelhos delicados;
De movimentos tão rápidos os meus desejos eram preenchidos
Que eu sentia a minha causa apenas um pouco mais ágil!
[...]
Entre a rosa e eu vejo-a que se protege;
Sobre o pó que dança, ela desliza e não irrita
Nenhuma folhagem, mas passa, e quebra-se por toda a parte...
Desliza! Barca fúnebre...

E eu viva, de pé,
Sólida, e do meu vazio secretamente armada,
Mas, como pelo amor uma face ardente,
E a narina colada ao vento da laranjeira,
Dou ao dia apenas um olhar distante...
[...]
Penso, na beira dorada do universo,
A este gosto de morrer que toma a Pitonisa

[...]

Aonde vai ele, sem responder a sua própria ignorância,
Este corpo na noite negra espantado de sua fé?
Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

Carrega docemente eu... minha fraqueza de neve

Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

[...]
Misteriosa EU, no entanto, vives ainda!
Vais te reconhecer ao levantar da aurora
Amargamente a mesma...
Um espelho do mar
Se levanta... E sobre o lábio, um sorriso de ontem
Que anuncia com aborrecimento o apagar dos sinais,
Já gela no oriente as pálidas linhas
De luz e de pedra, e a cheia prisão
Onde flutuará o anel do único horizonte...
Olhe: um braço muito puro é visto, que se desnuda.
Eu te revejo, meu braço... Portas a aurora...

[...]

Devagar, eis-me: o meu fronte toca a este consentimento...
Este corpo, eu o perdôo, e saboreio a cinza.
Entrego-me inteira à felicidade de descer,
Aberta às escuras testemunhas, os braços supliciados,
Entre palavras sem fim, sem mim, balbuciadas.
Dorme, minha sabedoria, dorme. Forma esta ausência;
Volta ao germe e a assombrada inocência,
Abandona-te viva às serpentes, aos tesouros.
Dorme sempre! Desce, dorme sempre! Desce, dorme, dorme!

(A porta baixa é um anel... onde o véu
Passa... Tudo morre, tudo ri na garganta que fala...
O pássaro bebe na tua boca e não podes vê-lo...
Vem mais baixo, fala baixo... O escuro não é tão escuro...)

[...]




April 24, 2007

O azul da Prússia e Frankenstein

The Nightmare (O Pesadelo), Henry Fuseli, 1781
(The Detroit Institute of Arts, Detroit).

Foi num sonho lúcido que Mary Shelley teve a visão inicial para criar Frankenstein or the Modern Prometheus (1818): “My imagination, unbidden, possessed and guided me, gifting the successive images that arose in my mind with a vividness far beyond the usual bounds of reverie…I saw the pale student of unhallowed arts kneeling beside the thing he had put together—I saw the hideous phantasm of a man stretched out, and then, on the working of some powerful engine, show signs of life, and stir with an uneasy, half-vital motion…What terrified me will terrify others; and I need only describe the spectre which had haunted my midnight pillow.”

Como é que a beleza sobrevive intimamente com o horror?

Fui intoxicada, desde que comecei a pintar à óleo, com vários tipos de venenos sórdidos e belos porque eu comia a cor, pela beleza das tintas e ansiedade de ficar mastigando os pincéis. Mas isso não é nada, assumo com tranquila sabedoria os meus jadis gostos macabros embora na época eu fosse totalmente inconsciente de que estava tranquilamente me envenenando. Cito isso não querendo comparar meus talentos com os de Beethoven (de verdade, é no cabelo dele que eu me lembro quando penso no meu lento envenenamento desde os 13 anos de idade; mas isso é uma outra história, a dos cabelos do Beethoven, e que vou contar uma outra vez).

Sobre a beleza misteriosa e profunda, realmente profunda, do azul da Prússia, e que tem tbém muito à ver com o cianureto - veneno famoso por ter matado muita gente através da história e que é uma das mais belas cores que existe, vou falar agora: pois é, o azul da Prússia que eu tanto gosto, tem a ver com o maior mito inventado na modernidade - Frankenstein - sabiam ?

A relação entre a autora de Frankenstein, entre o poeta atormentado Shelley, entre o debochado Lord Byron e o personagem Frankenstein ele-mesmo tbém é muito interessante.

La voilà : Mary Shelley era casada com Percy Bysshe Shelley, considerado um dos maiores poetas da língua inglesa, embora romântico e sensível demais e muitas vezes chatinho. Ela tinha 18 anos quando escreveu Frankenstein e 16 qdo fugiu com o poeta, que era casado, causando assim o suicídio da esposa grávida dele. Alguns anos depois Shelley tbém se suicidaria.

Nascida em Londres, Mary Shelley era filha da filósofa féministe Mary Wollstonecraft e do escritor político William Godwin, bêbado notório que maltratava a mulher mas graças ao quê ela se tornou feminista, fato este que acrescentado ao seu exímio talento de escritora gerou textos importantes sobre o trabalho das mulheres e das classes sociais pobres da época. O círculo de tragédias na vida da mãe de Frankenstein iniciou-se dez dias depois de seu nascimento, sua mãe morrendo devido à complicações do parto; mas isso possibilitou que o pai bêbado e filósofo dela se casasse com Mary Jane Clairmont, tradutora dos contos dos irmãos Grimm. É aí que entra a importância do efeito borboleta na vida de Mary: em 1813, Mary Clairmont leu para Mary Shelley uma carta de Jacob Grimm - vc sabem quem é, não é verdade? - aonde ele cita uma história sobre como o alquimista e médico Johann Conrad Dippel tentou criar um ser à partir de partes de cadáveres. A história do titão moderno foi se desenvolvendo na cabeça de Mary à partir daí.

Mas aqui no meu assunto, o interessante é que o tal alquimista Johann Conrad Dippel fazia as experiências sobre a criação de uma espécie de Golem no laboratório de seu castelo, justamente, o mesmo aonde foi inventado a cor azul da Prússia!! Assim, de uma certa forma, o azul da Prússia é irmão de Frankenstein!

Mas voltando à Mary, o romance foi escrito no início da utilização da eletricidade e isso tem sua importância crucial pois gera todo um questionamento existencialista sobre a "energia criativa". A ideía do romance ficou rondando na imaginação dela por 3 anos e aflorou sobre papel numa visita que ela e Shelley fizeram a Lord Byron. Durante o verão de 1816, Mary (com 19 anos) e Shelley visitaram Lord Byron na Villa Diodati, na Suiça; em meio à uma discussão sobre literatura gótica alemã, Byron desafiou os dois e seu médico pessoal, John William Polidori, à escreverem cada um uma história cujo vencedor seria o autor da mais apavorante delas.

Mary escreveu o germe de Frankestein depois de um noite mal dormida aonde ela teve um estranho sonho lúcido e a ideía da criação de um homem com a ajuda de uma energia de essência divina conhecida desde a antiguidade como o "Fogo do Céu"; segundo o filósofo Plínio, o Velho, a utilisação desta energia era um sacrilégio cujas consequências seriam terríveis, o que originou o nome «Prometeu Moderno», alusão ao titão que ofereceu o Fogo Sagrado à humanidade.
Byron escreveu um fragmento de legendas que ele ouviu nos Balkans e Polidori criou The Vampyre (1819), que seria o precursor do gênero literário.

Voilà que dois grandes mitos da literatura gótica foram criados na mesma circustância e por desafio de Lord Byron!

(Existe um filme chamado Gothic, de 1986, de Ken Russel com Gabriel Byrne, Julian Sands e Natasha Richardson, que conta como cada um deles escreveu uma obra nestas férias).

Links:
Dark Romanticism: Byron, Coleridge, Mary Shelley, and the Pursuit of the Supernatural
The Thomas Dolby blog

April 17, 2007

Terapia de Enxada

"Muito além de toda santidade, reina a inocência astuciosa e cruel das feras e dos loucos".
Anne Hébert, citado no romance Kamouraska

"A inocência e a beleza só têm como inimigo o tempo”.
William Butler Yeats


Minha amiga Bhumi tem lá pelos lados lindos da Bahia e ao redor da casa dela, um quintal enorme repleto de árvores frutíferas e grama. Ela de vez em quando chama o pessoal p fazer terapia de enxada. O necessitado pega na enxada e começa a capinar e vai capinando a raiva q tá no peito e q tá envenenando a alma; capina, capina, capina até ir aliviando o corpo, a alma, o coração. E vai limpando o quintal.

Na falta de uma enxada e de um quintal p/ ficar capinando a raiva, escrever é uma ótima terapia.

A Lena me enviou este texto embaixo (... é, eu sei, estou só no copy/paste... hehehehe.... mas não tenho tempo, minha gente.....). Achei o texto legal mesmo, sobretudo prq já sofri esta situação na pele, não da mesma forma, mas da incompreensão e desprezo pelo esforço que a gente como mulher e como ser humano está continuamente fazendo. Imaginem algumas mulheres que, como eu, foram ao mesmo tempo ótimas mães/estudantes e ótimas profissionais?! E tudo isso num país novo p a gente, aprendendo a língua ao mesmo tempo em que se aprendia à ser mãe e esposa, estudar, trabalhar, se adaptar à realidade do país, do clima, da cultura, das pessoas, etc?! Foram anos maravilhosos!!! juro! Sempre tive uma energia danada, hoje eu vejo. E isso sem falar q eu sempre participei de exposições de arte e technologia, sempre mostrei meus trabalhos, sempre saí com amigos p/ dançar, me divertir; viajei bastante com minha filha, e ela conhece muitos países e fala 4 línguas prq eu insiti q ela aprendesse, sempre mostrei à ela várias razões p/ se orgulhar de si mesma e das pessoas q a rodeiam; levei-a p/ ver várias apresentações de meus trabalhos, inclusive na Europa, e ela pôde se orgulhar da mãe dela. Enfim, minha vida sempre foi dinâmica nestes anos, mesmo com uma criança pequena e muito trabalho!

Isso, sem nunca poder contar com ajuda de familiares, mas graças à Deus, de alguns amigos fiéis q eu guardo até hoje. E ainda trabalhei para levantar o dinheiro para p/ sustentar a casa e toda esta pesquisa de desenvolvimento humano! Mas o desabafo vem aqui, pois ouvi uma vez uma exclamação sorrateira de que eu "não fazia nada"! Imagino q por despeito, sómente prq não sou de ficar reclamando o dia todo da vida e dos problemas q surjem; não sou frustada ou 'deprimida' ou incompreendida, embora eu possa me revoltar de ouvir este tipo de coisa. Eu me assumo, assumo as minhas responsabilidades com prazer e sem cara amarrada. Detesto me ver como vítima e tenho horror de ser uma! Aliás, detesto o conceito de vítima. E ainda arrumo tempo para me exercitar fisicamente, ser bonita, ser feliz, ser amada, ter prazeres na vida, ter bons amigos, viajar bastante e ter uma vida cultural rica!
Pronto.

O texto é o seguinte:
"Uma mulher foi renovar a sua carteira de motorista. Pediram-lhe para informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar. O que eu pergunto é se tem um trabalho, insistiu o funcionário. Claro que tenho um trabalho, exclamou. Sou mãe. Nós não consideramos 'mãe' um trabalho. Vou colocar Dona de casa, disse o funcionário friamente.

Não voltei a lembrar-me desta história até o dia em que me encontrei em situação idêntica. A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira. Qual é a sua ocupação? Perguntou. Não sei o que me fez dizer isto, as palavras simplesmente saltaram-meda boca para fora:

- Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas.

A funcionária fez uma pausa, caneta a apontar para o ar, olhou-me como quem não ouviu bem. Eu repeti pausadamente, enfatizando as palavras mais significativas. Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo no questionário oficial. Posso perguntar, disse-me ela com novo interesse, o que faz exatamente? Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder:
- Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e fora de casa). Sou responsável por uma equipe (minha família), e já recebi quatro projetos (todas meninas). Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda???), o grau de exigência é em nível de 14 horas por dia (para não dizer 24 horas).

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de preencher o formulário, levantou-se e pessoalmente foi abrir a porta para mim. Quando cheguei em casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipe: uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. Do andar de cima, pude ouvir o meu novo experimento (um bebê de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz".

March 29, 2007

O filme "300"


O ridículo politicamente correto da nossa atualidade querendo destruir a criatividade e a fantasia, e mesmo a realidade da História.
Sou fã de HQ, BD, graphic novels, gibi, etc. Sou fã disso tudo, e p/ completar, eu já tinha gostado de 2 filmes que foram adaptados e têm uma estética bem próxima das HQ: Sin City, baseado na obra gráfica homônia de Frank Miller, dirigido pelo próprio Miller e por Robert Rodriguez; e O Imortal, escrito e realizado por Enki Bilal.

Frank Miller também escreveu "300", HQ adaptada p/ o cinema com direção de Zack Snyder e no qual Miller também participa como produtor executivo. Faz semanas que assisti o filme "300", mas não tinha tido tempo de escrever a minha opinião. Agora, aí vai ela:

Nunca pensei que eu fosse escrever sobre um filme de guerra, mas assim que vi a estética eu sabia que teria que assistí-lo, porque o que eu supunha é bem real: não é simplesmente um "filme de guerra", embora a hemoglobina seja omnipresente, e mesmo tendo cenas duras e eu fechado várias vezes os olhos e me encolhido na poltrona, 300 permanece um filme que marca pela inovação e criatividade técnica.
Mas está generando debates apaixonados dos prós e contras.

Bom, o filme em si é inspirado em fatos históricos, a famosa "Batalha das Termópilas", ocorrida em 480 a.C., episódio também conhecido como "Os 300 de Esparta". O famoso episódio histórico do desfiladeiro das Termópilas embalou meus sonhos de adolescente, primeiro porque história é uma matéria que me interessa, tanto quanto estória, mas sobretudo pelas características da sociedade Espartana, pelo respeito q eles tinham pelas mulheres e pelas proezas de Leônidas, o "Filho do Leão". O "Filho do Leão" sempre me seduziu, tanto quanto Ricardo Coração de Leão, o filho de Alienor d'Aquitânia. A sedução vem em parte pelos feitos cantados em versos e prosas através dos séculos e o romantismo que a forca vibratoria de tais nomes insufla em ardor e fantasia. Sem mesmo se dar conta do fato, alguns amigos meus diriam, como já disseram, que o fato de admirar as caracterísitcias de um personagem masculino equivaleria à uma "necessidade de se ter um pênis".  Face à este eco de Freud, eu respondo: "Mentira Mentira!" da mesma forma que Hamlet grita: "Shame Shame!". Pois eu sempre quiz ter tracos que eu admiro em muita gente e entre eles Leônidas, Ricardo Coração de Leão, Alienor d'Aquitânia, Cleópatra, Rainha de Sabá, e sobretudo Penthesilea, a célebre rainha das amazonas, depois q eu assisti uma peca de teatro escrita por Heinrich von Kleist, c textos de Marina Tsvétaeva, e maravilhosamente interpretada por Carmen Jolin, sobre os amores e dramas de Penthesilea e Aquiles.

A história
Em resumo, depois de ter ouvido e lido críticas vindas de pessoas q nunca tiveram a curiosidade de procurar pelas fontes históricas, eu resumo aqui um pouco do contexto  do filme: em 499 a.C., o imperador Persa Dario sentindo-se numa posição de força envia os seus embaixadores às cidades da Grécia continental, a fim de submetê-las ao seu jugo, mas apenas a Macedónia e a Tessália se declararam vassalas da Pérsia. Inicia assim o conflito aberto entre Persas e Helenos, aonde Dario é derrotado. Xerxes, seu filho, subira ao trono em 485 a.C. com a mesma intenção de subjulgar a Grécia mas as cidades-cstados Gregas decidiram, em reação do perigo comum, pôr de lado as suas divergências tradicionais e formaram uma Liga, sob o comando de Leônidas, proclamando a reconciliação geral e declarando guerra à Pérsia (Leônidas era o chefe das tropas Espartanas, potência militar dominante na antiguidade e aonde homens e mulheres eram condicionados desde o nascimento à serem soldados profissionais). E foi desta reação geral de proteção que nasceu o que hoje conhecemos como a civilização ocidental.

O filme
Tudo começa com a tentativa de invasão da Grécia por Xerxes, que se considerava um imortal. A época não era propícia p/ guerras pois os Espartanos estavam em pleno festival religioso de Carnéia, o que os impossibilitava de lutar. Além disso 480 a.C. foi ano de Olimpíadas, durante as quais se proclamava uma trégua sagrada e cessavam as hostilidades entre todos os inimigos na Grécia. Assim, a cidade de Esparta, guerreira por excelência, tomou a frente de um exército de 300 Espartanos e de outros homens de várias outras cidades gregas, o que deveriam contar com o máximo 6.000 homens, sendo que a grande maioria eram pastores e lavradores e não entendiam nada de guerras. Segundo a New Oxford American Dictionary, Leônidas tinha um exército de 6.000 homens (300 soldados espartanos que permaneceram até o fim), enquanto os Persas tinham um exército de 200.000 à 2 mihões de soldados.

P/ os amantes de histórias em quadrinhos, esta ocasião é um prato cheio de delícias supremas em relação à renovacão e ousadia técnica e estética visual /sonora, porque o filme consegue realmente nos fazer submergir no mundo fantástico das Grafic Novels, permanecendo uma adaptação muito honesta da HQ e do recito histórico; sendo o único ítem fraco, a meu ver, o espaço dado à realidade espartana concernando as mulheres, mas que não é totalmente absente.

Esparta
Plutarco admirava as virtudes dos Espartanos, consagrando vários escritos sobre seus costumes: as crianças, meninos e meninas, depois dos setes anos eram educados pelo estado e condicionados às lutas, esportes e à uma vida frugal; desde a primeira menstruação, as meninas tinham uma vida sexual ativa e escolhiam seus amantes entre os escravos, casando-se geralmente aos vinte; só depois dos trinta anos é que os homens podiam se casar. Homens e mulheres praticavam juntos as lutas e esportes, nus ou as mulheres com uma pequena túnica aberta aos lados. As mulheres só usavam, o tempo todo, esta túnica, p/ total escândalo dos outros gregos; Ibycos de Rhégion as chamava de "aquelas que mostram as coxas" e o poeta Anacréon, quando se referia à elas usava um verbo, "dvri‹zein", no sentido de "se mostrar nua".

As Espartanas
Historicamente, eram guerreiras respeitadas não só pelo caráter bélico, pela capacidade estratégica como pela inteligência. Um recito de Plutarco diz que Gorgo, esposa de Leônidas e filha do rei Cléomène, aos 8 anos deu um conselho à seu pai de expulsar à pontapés um inimigo que queria comprar seus favores. E foi o que o rei do pai fez! Conselho de mulher era seguido à risca! Elas gozavam de uma liberdade pouco comum, permanecendo caso único no mundo antigo. Possívelmente, até hoje não exista nada comparado com a liberdade que as mulheres tiveram em Esparta, nem mesmo em nossas sociedades contemporâneas. Uma frase que ficou célebre na história é aquela de Géradas de Esparta, contada por Plutarco: “Não existe adultério em Esparta". A razão é que a noção de adultério era totalmente ignorada por eles porque as mulheres podiam ter filhos com qualquer cidadão livre, e mesmo com escravos em alguns casos, que as crianças seriam consideradas filhos do marido legítimo. Antes de casarem-se elas já tinham tido vários amantes e podiam mesmo ter filhos com estes homens pois filhos eram sempre bem-vindos socialmente. Plutarco, em "Vie de Lycurgue", conta que uma Ateniense perguntou à Gorgo: "Porque é que vcs Espartanas são as únicas mulheres à comandar os homens?. "Porque somos as únicas a dar nascimento à verdadeiros homens!", ela respondeu. Heródoto tbém conta que elas tinham suas opiniões respeitadas, pois tidas como muito inteligentes, e cita o seguinte: os gregos souberam do ataque persa graças à Gorgo, pois uma mensagem tinha sido enviada à eles, gravada numa tabuleta de madeira e coberta com cera p/ que o texto fosse escondido dos Persas. Quando a tábua chegou à Esparta, ninguém soube como ler a msg pois era muito difícil perceber que havia cera em cima dos textos, mas a rainha teve a idéia de raspá-la.

Conclusão
Reconheço a violência omnipresente no filme, mas não é maior do q de outras obras cinematográficas, como Apoclipse Now, por exemplo. 300 tem grande valor estético e técnico. Confesso que a violência me gera um mal-estar, mas o mesmo se dá quando assisto vários seriados de TV e vários outros filmes excelentes e q tbém retratam esta violência. Mas não é por isso q deixo de reconheço o valor que o filme tem através de uma estética particularmente envolvente; como trabalho com novas tecnologias, admiro muito este tipo de arte por saber o que isso realmente implica.
Mas, enfim, o filme gerou uma quantidade enorme de críticas "Politicamente Corretas" e uma batalha de oponentes politicamente corretos à procura de um detalhe p/ as acusações mais insanas umas que as outras; esta mentalidade está destruindo o bom senso geral. Há pessoas reclamando que o rei Persa era afeminado e p eles é um insulto, outros acusando o filme de homoheróico, uns dizendo que o personagem de Xerxes foi caricaturado, outros reclamando que o filme é uma propaganda política de guerra, outros dizendo q o filme quer denegrir a imagem cultural do Irã, e ainda outros ouvem e fazem eco sem analisar, e alguns sem mesmo ter visto o filme!!!

Ora, ora, o filme retrata um episódio histórico ocorrido há séculos, ninguém inventou o roteiro p/ ferir a cultura Iraniana e aliás, o roteiro segue muito bem a História e foi escrito muito antes da guerra do Irã. Mas podem questionar: porque fazer um filme destes justamente agora qdo existe esta guerra? Certo, podem. Mas na minha opiniao, isso pode ou nao ter sido falta de bom senso, tanto quanto Charles Chaplin que fez o  The Great Dictator em 1940, ridicularizou o nazismo e mesmo retratou personagens judeus ostensivos, mas foi considerado um ato de coragem.

Há alguns anos ninguém questionaria os filmes sobre a segunda guerra os acusando de denegrir a cultura alemã. Ou os filmes sobre a Guerra Fria como um ataque deliberado contra a cultura Russa. Assim, os alemães seriam vítimas dos filmes de guerra que poluíram nossas telas nos últimos 50 anos?! Charles Chaplin por ter feito entre outros o The Great Dictator, seria condenado pela critica por caricaturar um Hitler afeminado?  Isso sem contar os militares do mundo inteiro que reclamariam do fato de um dirigente militar em uniforme ter sido descrito como ignorante e ridiculo!

300 retrata como o pragmatismo bélico foi a forma de sobrevivência numa sociedade antiga. Pode ser mesmo propaganda bélica, mas pode ser tbém um clamor p o bom senso. Exatamente como nas tribos Yanomamis do Brasil aonde a mãe tem o direito de matar, no nascimento, a criança que mostra algum defeito físico que impediria sua plena aceitação social. Isso eu não estou inventando, um amigo meu que viveu 10 anos no meio da tribo, na floresta, me contou este fato. Eu fiquei possuida de raiva, mas meu amigo me acordou: vc nao pode condenar eles la e vc aqui, é a cultura deles e é uma cultura ancestral. No nosso mundo contemporâneo, esse ato é completamente bárbaro, assim que para eles é bárbaro cortar arvores no meio da floresta qdo se precisa delas p se ter alimento, medicina, protecao. Mas assim como devemos olhar certos costumes de nossos antepassados como algo que se explica pela própria época em que se encontravam, devemos fazer prova de inteligência respeitando e compreendendo cada época e costume.
Na hora da critica pela critica, muitos grupos se transformam em algozes com o mesmo pensamento e atitudes de q eles sempre foram vítimas. Particularmente vejo nisso um grande perigo, sobretudo prq muitas das cabeças pensantes da atualidade procuram se acomodar num confortável estereótipo da vítima.

Heródoto foi quem primeiro apresentou o número dos guerreiros em meio à luta e embora encontremos divergências nos números dados através dos tempos, uma coisa é certa: a disparidade numérica que levou com que a batalha terminasse com uma aparente vitória Persa, mas hélas, conseguida unicamente devido à traição de Efialtes que revelou aos Persas um caminho secreto que conduzia à rectaguarda das Termópilas, possibilitando um ataque surpresa no meio da madrugada! Entretando, os gregos conseguiram inflingir um elevado número de baixas e retardar o avanço Persa, cumprindo o objetivo de Leônidas, o que enquadra esta batalha num exemplo de estratégia militar, pois eles desejavam ganhar alguns dias à mais enquanto o resto dos Estados Gregos organizavam a defesa. A vitória Grega foi conseguirada 2 meses depois, lançando assim as bases da democracia (?) e da futura civilização ocidental e eu tive um prazer imenso em ficar lá sentadinha absorvendo um filme que marca em matéria de técnica cinematográfica. Bravo!

Plutarco: Apótegmas dos Espartanos; Apótegmas das Mulheres Espartanas; Antigos Costumes dos Espartanos.

March 20, 2007

Video Katu numa sátira de Much Ado About Nothing

Much Ado About Nothing é uma comédia de Shakespeare, publicada pela primeira vez em 1600.

Clique aqui p/ assistir e rir com o video louco que a Katu fez com os amigos, no 3 ano.

March 08, 2007

8 de março, Dia Internacional da Mulher


Minha amiga Alice, como Cassandra...
Fotos: K.
Copyright © K. S. Design




Este post faz parte de uma Blogagem Coletiva - Dia Internacional da Mulher, idéia da Denise Arcoverde, e que continua à cada ano. Passem lá p/ ver a lista das outras "blogueusas". Ano passado, eu falei sobre a italiana Artemisia Gentileschi (1593/1653), e a mineira Bárbara Heliodora.


Porquê 8 de março?
A data de 8 de março está ligada a uma proposta feita em 1910, pela líder comunista alemã Clara Zetkin. Agumas versões dizem que a data escolhida foi para lembrar operárias mortas durante um incêndio que ocorreu em uma fábrica em Nova York, em 1857. Existem, entretanto controvérsias quanto à esta versão, pois este acidente ocorreu em 25 de março de 1911, na Triangle Shirtwaist Company. Em todo caso, foi uma grande tragédia aonde morreram 146 pessoas, sendo 125 mulheres, todas imigrantes e a maioria com idade entre 13 e 23 anos. É bem provavél que a morte das trabalhadoras tenha se incorparado ao imaginário coletivo da comemoração do Dia Internacional da Mulher, mas a instituição de uma data comemorativa já estava sendo estudada e acabou confirmada em 1910. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu oficialmente a data como o Dia Internacional da Mulher.


PISTIS SOPHIA
Em agosto de 1912, Karl Jung escreveu à Freud sobre uma intuitição que ele teve à propósito de uma sabedoria antiga de origem gnóstica, essencialmente feminina, chamada simbolicamente de Sophia; Jung predizia um retorno do respeito ao feminino na história da humanidade.

Gnosticismo é um termo usado geralmente para designar religiões e/ou seitas proeminentes nos primeiros anos do primeiro século. Um texto muito importante pertencente aos gnósticos é o Pistis Sophia, que data de 250 à 300 anos D.C. e relata os ensinamentos que Jesus, depois de ressuscitado, teria passado à uma assembléia de apóstolos, entre eles Maria Madalena e Maria, sua mãe.
Pistis e Sophia são palavras gregas. Pistis tem o significado de fé decorrente do conhecimento adquirido na experiência pessoal, nunca da fé nas palavras ou atos de outros seres. Sophia significa Sabedoria que advém da experiência, da vivência, não a sabedoria adquirida em livros ou informações alheias. Pistis Sophia, livro escrito em forma de símbolos, conta a história da peregrinação da alma, e segundo os estudiosos no assunto, o livro afirma que a única forma de encontrar Deus é irmos ao encontro de nós mesmos, interiormente, pois ele habitaria nossa própria alma e teria sobretudo uma essência feminina.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1851, na França, e bem mais tarde houve uma versão para o inglês, feita por G.R.S. Mead. Depois disso, muita água rolou, e pedras idem. A premonição de Jung data de quase um século... é, mas ele era um homem de ciências... isso pode esperar. Enfim, isso tudo me dá esperanças sobre a forma respeituosa que a humanidade começaria a olhar as mulheres.

Permanece, assim, verdadeira a atualidade do assunto e do belíssimo site Um Buraco na Sombra, aonde o capítulo intitulado imagens e sombras de santa maria madalena nos interessa mais precisamente neste dia.

Mas, vá lá.. eu dedico este post à Cassandra, a sibila troiana, personagem que fez parte de um de meus trabalhos com video que eu entitulei Le Chant de la sibylle I - Lamento , e que representa também muito nesta data.

Chant é uma palavra francesa, quer dizer canto; neste trabalho, esta palavra vem com o significado de ode, prece. O mesmo som está em champ, que é campo, espaço aberto, território. E também no português canto, no sentido de espaço.
Sibylle é a Sibila. Sacerdotisa, profetisa, o seu nome imita o som do vento; sibila quer dizer assobia e murmura. por isso, as palavras da sibila nunca são totalmente compreendidas por todos, sómente por aqueles que a escutam baixinho e de olhos fechados, deixando uma lágrima rolar em direção à boca, que vai cantando e acompanhando, em murmúrios, a história tão sofrida do mundo.

Para muitos o canto da sibila não tem nenhum sentido, suas palavras parecendo destituídas de rigor, de limites, de cronologia. É que a sibila traduz a linguagem do vento, a linguagem da sua natureza instintiva e selvagem.

Conta a lenda, que Cassandra, famosa sibila durante a guerra de Troia, não podia ser compreendida por ninguém, todos a julgavam louca. Enquanto previa um futuro funesto p/ a cidade, suas palavras eram sempre abafadas por gritos de injuria e de piedade, ao ponto que o seu canto não pôde mais parar. Ela continuou, assim, murmurando e chorando suas visões até se encontrar sózinha, de pé, em meio aos escombros da cidade.

March 03, 2007

Boris Vian e o trabalho

“O paradoxo do trabalho é que, no fim de contas, trabalhamos apenas para o suprimir. E, ao recusar constatar com honestidade o seu carácter nocivo, acordamos-lhe todas as virtudes que mascararam o seu lado fatal. De fato, o verdadeiro ópio do povo é a ideia que se lhe dá do trabalho.”



March 02, 2007


Já que o assunto é família, vou falar dela que tem na minha cabeça uma imagem de matrona gorda, baixinha, simpática e dura ao mesmo tempo, e preta.... preta como um tição, peituda, engraçada, pele lisa e simpática, abraço gostoso, cheia de dengo e riso. Tudo o que não tive. Porque o que ficou na lembrança do nome, foi mesmo a coisa dela, inflexível memória. O pai era de família nobre holandesa, a mãe também porque eram primos, e o nome está em livros de história como Savoie, a parte afrancisada, mas em flamengo é mais complicado e cheio de van e der. Em todo caso, isso de nome carrega importância básica porque cria laços e obrigações. E dura até hoje!

Depois
Primeiro eu fechei os olhos, depois eu me sentei no vazio da noite e fiquei lá, agachada, esperando.

Fui abrindo devagar as persianas. Cheio o ar daquele sentir mofado de coisa esquecida, e no meu nariz. Como poderia adivinhar eu que a solidão dele pesava tanto em mim que no vazio das palavras que ele não sabia exprimir? E era culpa minha?, eu pensei. E pensando continuava acubranhada. Tanta miséria humana cheia na sola do sapato... e tudo por causa do reitor, ele que disse que vaca tinha uma bosta que não fedia. Ele, o ignorante.

Ontem, a velha me deu um sorriso destentado. Mais um. E eu fiquei com nojo e vergonha de mim mesma porque não quiz me sentar na frente dela e daqueles dentes faltantes e que iam crescendo em proporções desumanas tão grandes que eu que era antes tão cortês comecei a evitá-la por causa do dente, do podre e dos outros, os faltantes. Perco a fome e a vontade de comer olhando a boca dela que não para de sorrir e de me dizer que trabalhou toda a sua vida desde pequena nas casas mais ou menos de Lisboa. Isso na juventude dela, que nasceu em Santarém, terra que era também do meu 7 avô, o mesmo que era um Marques da Fonseca de prenome Luís e que se casou com uma Bessa.

Eu
fui entrando com cuidado, olhando muros e medos atravessando as frestas da janela da sala. E o sol. A mão negra dela segurou a persiana encardida e ele acordou, ranzinza, me olhando eu, cheia de silêncio de manhã e a fome de profundezas que eu queria roubar dos olhos dele, querendo também uma pitada de atenção mais prolongada que essa face disforme de acordar tão apressado e descontente. E eu tremento do anseio de mim mesma, olhei pra frente e pra dentro, entrando, entrando, entrando sem fim lá num cantinho que eu fiquei segura.

Até o final de tudo.


Ouvindo Nick Cave