Writing, Flying and Huevos Revueltos
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June 02, 2008

Sex is back!

Esqueci de comentar aqui… esqueci não, o renascimento do blog tá tão recente, que não deu tempo mesmo : numa emissão aonde enfrentam-se os melhores da dança Americana, na quinta–feira passada eu assisti mais uma vez a volta do SEX em “So You Think You Can Dance”. A emissão tem o melhor como o pior, o interessante sendo que lado à lado estão obscuros autodidatas como profissionais, mas tanto num campo como no outro podemos ver os melhores como os piores exemplos do que é a dança. Hoje, domingo, repetiram os melhores momentos; muitos voltando para uma nova audição, depois de terem se aperfeiçoado (ou pensado que se aperfeiçoaram). Existe um processo rigoroso aonde todos têm que provar suas capacidades em solo, em grupo, em diferentes estilos de dança, diferentes coreografias e diferentes parceiros de dança.

Os piores dançarinos chegam à comover a platéia em histerismo coletivo de gargalhadas, mas existe um em especial por quem eu tenho uma grande admiração pela sua vontade de ferro, coisa que muita gente com talento não tem. Auto-confiança inebranlável, desajeitado e sem talento, ele se auto-denomina "Sex", embora falte-lhe o mínimo sexy appeal. De seu verdadeiro nome, David Kenneth Soller, tem 33 anos e sua maior admiradora é a mãe, que o acompanha nas audições; os dois, mãe e filho, defendem, num inglês rigoroso e inteligente, o direito de Sex de ser um dançarino, mesmo se um dos jurados grita-lhe literalmente que ele « não será dançarino nunca neste planeta ». Defendendo-se à altura, ao menos em palavras, olhos perturbados mas confiantes, ele não desiste, e não adianta o juri afirmar que ele não é bom ou que não é sexy («Vc não é sexy coisa nenhuma, vc é duro e frio!», diz o jurado sem paciência). Sex responde sério que todos seus amigos acreditam que ele seja realmente sexy.

Semana passada ele voltou. Com um fã clube imenso, seus videos estão invadindo a web, sobretudo no YouTube. Na primeira estação pensei que ele fosse um ator, só que com o tempo fui vendo que é real; a ajuda de um banho de loja e uma investida em cabelereiros traria uma beleza escondida atrás de um teatro que não é realmente um, pois justamente, todos admiram Sex por ele ser honestamente o que aparenta ser : belo sorriso, cabelos longos, calções larguíssimos que chegam quase até seus joelhos, tênis e meias longas, desajeitado e totalmente incapaz de dançar, ele permanece com uma boa dose de auto-afirmação; infelizmente, falta-lhe o essencial.


Assistam os videos no YouTube que vcs verão as diferentes etapas de Sex: 
http://www.youtube.com/watch?v=1-oJzOWmxh0
http://www.youtube.com/watch?v=gU-cQF8E48Y&watch_response
http://www.youtube.com/watch?v=rJa9YEjT86s&feature=related

June 04, 2007

...porque sem asas ninguém vive.

Tem gente que tem cachorro, gato, passarinho. Eu tenho árvore. Não tem nada mais que faça tanta parte de mim quanto as árvores, os cavalos e os lobos. Gosto, mas não pode me pertencer nem depender de mim. Gosto da liberdade e p/ mim estes são os 3 seres que carregam este conceito neste mundo. Fora deles, existe o vento e a água, que não são seres p/ a maioria das pessoas, mas são p/ algumas; pode parecer loucura. Em realidade, eles todos fazem parte de um conceito maior. Eles e as asas, porque sem asas ninguém vive.

Aprendi q a gente sempre se decepciona qdo vive na espera. Espera é besteira. Coisa válida é o momento que se apresenta p a gente olhar ele no temporal do infinito q vai se abrandando. E assim a gente vai ficando forte. De tanto ver instante.

Li alguém falando q tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. Eu, grávida, sentia o cheiro da alma das pessoas! Coisa estranha prq é meio incompreensível, mas é verdade. Já vi muita coisa estranha na vida mesmo. Pensamento então... nem se fala!
Um dia, eu andando na rua, um homem de terno e gravata, bem arrumado, aprumado, cabelo cortado, parecia limpo, com uma pasta na mão, veio na minha direção, assim como várias outras pessoas andando p aqui e p lá no meio da vida. Mas de longe eu já senti o fedor que se exalava dele e q foi a coisa mais terrível q eu senti na vida.
Virei p/ o outro lado e vomitei no chão qdo ele passou por mim. Uma porção de coisa, parece, saiu com o vômito do cheiro, tanto q eu fiquei até fraca me segurando no poste, com medo de cair no chão e aquela sensação que tudo dentro de mim tinha se rebelado. Não me lembro de mais nada dele, só o horror do fedor.

Minha filha qdo nasceu, deixou dentro da casa um perfume inebriante mesmo, perfume tão bom que durou muito tempo no ar.
Era um perfume de flores, de saudade perfumada de amanhecer, de reconforto de cama quente e limpa, de tranquilidade de fio fino de chuva ondulando na janela. De vez em quando o perfume ia ficando mais forte; outras, diminuía. Às vezes, até parecia q ia morrendo. Aí a gente esquecia dele, mas depois, em uma hora qualquer, o perfume voltava, tão tranquilo e firme como antes. Qdo ela tinha 4 meses, nós mudamos de casa. Depois, eu não me lembro. Mas ela sempre teve um perfume que não é do corpo, mas coisa de alma de gente serena, assim como ela é.

E a alma dos q me rodeiam é tão suave e perfumada q eu respiro esse cheiro de coisa boa e paz o tempo todo. Constato que tenho à minha volta gente perfumada lá de dentro deles e de mim, graças à Deus a minha existência é floral, tipo jardim inglês, selvagem, puro, límpido.
Aonde tem, como em todo lugar, as suas ervas daninhas; mas elas não são nada ao lado do q é bom na minha vida perfumada. Elas são é até muito úteis prq eu aprendo à observar a dor e ver q dor é escolha. Cortar o q não é bom, mesmo se dói. Dor.
Dor sempre passa.

Mas q a vida é perigosa, lá isso ela é.

Qdo minha filha tinha 4 anos, ela me pegou pela mão e me levou até o banheiro. Abriu a privada e me disse: - mãe, abre a gavetinha da tua cabeça e joga o q causa dor lá dentro. Aí eu fiz, curiosa. Ela então pegou e deu descarga. E eu fiquei assim, abismada, vendo o ser q a Existência me deu p/ tomar conta.
Como então não ter reverência por um ser como este?

Já vi muita sabedoria na vida, assim como fantasmas, alegrias, pôr de sois, sombras obscuras e gente fantasiada, mas o q eu gosto muito é da sabedoria dela. Nunca vi tanto amor habitar um ser.


(Este texto foi publicado em 1996 pelo Jornal de Criação Literária da Universidade de Montreal).
Copyright©k.s. design, 1995. All rights reserved



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June 01, 2007

Paul Valéry e A Jovem Parca (La Jeune Parque)

Conjunto de esculturas em "ciment fondu" e ferro.
Imagens, tradução, textos Copyright©k.s. design, 2005. All rights reserved.

reserved.




“Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

«O escritor verdadeiro é um homem que não encontra as suas palavras. Então, ele as procura. E procurando, ele encontra melhor ».


Um dia chuvoso lá fora e aqui dentro está quieto, cheio daquela tranquilidade que facilita a concentração para se trabalhar num projeto difícil ou enfim, trabalhar com afinco em coisas que pedem uma interiorização particular. Penso logo em Paul Valéry. Além de poeta, ele foi ensaísta e pesquisador no campo das idéias; interessou-se em geral pelas artes e ciências, notamente pela Arquitetura, Filosofia, Teoria Literária, Música, Dança, Matemática, Geometria, Física e se fixou a tarefa de refletir sobre o funcionamento do espírito. Escritor, pensador, poeta da sensualidade e do rigor intelectual, estudioso das ciências exatas, sua linguagem artística era associadas à linguagem das ciências mas ledo engano o de vcs que imaginam textos frios e sem alma. É exatamente o contrário.

Espírito dotado de uma corajosa e prolífera curiosidade pelas formas diversas e pelas linguagens possíveis, vida, arte e ciências, para Valéry, estavam intrisicamente associadas à uma dinâmica da observação, tal qual uma meditação irreligiosa vivida no rigor de um observador infatigável.
Aos 22 anos, ele chega à conclusão que o que chamaria de Método de Leonardo da Vinci -"mestre de seus meios, este possuidor do desenho, das imagens, do cálculo, tinha encontrado a atitude central a partir da qual as empresas do conhecimento e as operações da arte são igualmente possíveis, as trocas felizes entre a análise e os atos singularmente prováveis: pensamento maravilhosamente excitante"-, seria para ele o encontro com o conhecimento verdadeiro e com a sua liberdade como artista e como ser humano.
Para Valéry, a criação não é simplesmente um instrumento de expressão mas um compromisso existencial.

Através do arquiteto Eupalinos, ele deixou esta frase de profunda sabedoria: “Nada pode nos seduzir... que não seja ou pré-existente em nosso ser ou secretament esperado por nossa natureza ».

Na noite do 4 para o 5 de outubro de 1892, Paul Valèry passou por uma grave crise existencial, aonde ele decidiu repudiar os ídolos da literatura, do amor e da imprecisão para se consagrar ao que chamou de «A vida do espírito»:
«Destruí os meus encantos. Procurei o rigor porque a naturalidade não me interessa».

À partir daí, diariamente, ao nascer do dia, ele irá observar seu processo criativo notando em vários diários todas as suas reflexões e dirá mais tarde: «tendo consagrado horas à vida espiritual, eu me sinto no direito de ser besta o resto do dia ». Ele se fixa então, o trabalho de refletir sobre o funcionamento do espírito e dirá mais tarde que esta noite foi a sua verdadeira origem. Durante mais de vinte anos, ele pára então de escrever e se consagra ao que chama de « o conhecimento de si mesmo e do mundo », continuando a preencher seus diários, publicados depois da sua morte com o título de Cahiers.

A Jovem Parca, poema de 512 versos que levou 4 anos para ser finalizado, considerado por muitos como o mais importante texto da lingua francesa do século XX, será sua obra primeira depois destes vinte anos de silêncio como escritor.

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A Jovem Parca foi uma das minhas obsessões no passado e que se transformou no passar dos anos em textos, imagens, escrituras diversas traduzidas em trabalhos com vídeo, música, esculturas, gravuras e enfim multimídia. Meu livro que eu chamo A Velha Parca, está cansado, rasgado, cheio de anotações e tenho ainda por ele este amor irriquieto que me perseguiu até que eu o colocasse na estante depois de tantas obras produzidas, jamais finalizadas. A questão que me ronda ainda não conseguiu se calar. Ele, o livro, me preocupava. E isso porque eu ainda não tinha descoberto o resto. O resto, esse amálgama sem fim de idéias anotadas, de gritos e meditações em versos e prosa, anotações curtas e intarissáveis que rasgam folhas e folhas de livros nas bibliotecas. A obsessão agora se deformou, tomou novas proporções, ela se encantou, deixou talvez de ser obsessão para ser justo uma idéia, a de amar estas idéias, de admirá-las, de, no silêncio, compartilhá-las.

Luta entre a vida e a morte, escrito na primeira pessoa, o poema é uma alegoria da oposição entre consciência e inconsciência, uma luta do absoluto da inteligência lúcida contra o instinto e a sensualidade através de um jogo ordenado de imagens e de sonoridades, constituindo assim, segundo o que Valéry irá várias vezes designar, uma composição musical à partes variadas.


Extratos de La Jeune Parque (Traduzido por K.):

"O céu formou ele este amontoado de maravilhas
Para a morada de uma serpente?"

Pierre Corneille


Quem chora lá, senão o vento simples, à esta hora
Única, com diamantes extremos?... Mas quem chora,
Tão perto de mim-mesma no momento de chorar?

[...]

Sou sózinha com vocês, trêmula, tendo deixado
Minha cama; e no perigo mordida pela maravilha,
Interrogo meu coração qual dor desperta-o,
Qual crime por mim mesma ou que eu soube consumir?...
... Ou se o mal me segue de um sonho fechado
Quando (ao veludo do sopro perdido o ouro das lâmpadas)
Tenho de meus braços espessos cercado minhas têmporas,
E muito tempo a minha alma esperado os relâmpagos?
Toda? Mas toda à mim, senhora das minhas carnes,
Endurecendo de um estremecimento a sua estranha extensão,
e nos meus doces laços, ao meu sangue suspenso,
Eu me via, sinuosa, e dourava
De olhares em olhares, minhas profundas florestas.

Eu seguia uma serpente que acabava de me morder.

[…]

Mas eu tremia de perder uma dor divina!
Eu beijava na mão esta mordida fina,
E não sabia mais de meu antigo corpo
Insensível, apenas um fogo que ardia nas minhas margens:

Adeus, pensava eu, EU, mortal irmã, mentira...

Harmoniosa EU, diferente de um sonho,
Mulher flexível e firme aos silêncios seguidos
De atos puros!... Têmpora límpida, e de ondas roubadas
[...]
Diga!... Eu era a igual e a esposa do dia,

[...]

Lamento à metade esta vã potência...
Uma com o desejo, fui a obediência
Eminente, presa à estes joelhos delicados;
De movimentos tão rápidos os meus desejos eram preenchidos
Que eu sentia a minha causa apenas um pouco mais ágil!
[...]
Entre a rosa e eu vejo-a que se protege;
Sobre o pó que dança, ela desliza e não irrita
Nenhuma folhagem, mas passa, e quebra-se por toda a parte...
Desliza! Barca fúnebre...

E eu viva, de pé,
Sólida, e do meu vazio secretamente armada,
Mas, como pelo amor uma face ardente,
E a narina colada ao vento da laranjeira,
Dou ao dia apenas um olhar distante...
[...]
Penso, na beira dorada do universo,
A este gosto de morrer que toma a Pitonisa

[...]

Aonde vai ele, sem responder a sua própria ignorância,
Este corpo na noite negra espantado de sua fé?
Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

Carrega docemente eu... minha fraqueza de neve

Terra turva, e misturada à alga, carrega-me!

[...]
Misteriosa EU, no entanto, vives ainda!
Vais te reconhecer ao levantar da aurora
Amargamente a mesma...
Um espelho do mar
Se levanta... E sobre o lábio, um sorriso de ontem
Que anuncia com aborrecimento o apagar dos sinais,
Já gela no oriente as pálidas linhas
De luz e de pedra, e a cheia prisão
Onde flutuará o anel do único horizonte...
Olhe: um braço muito puro é visto, que se desnuda.
Eu te revejo, meu braço... Portas a aurora...

[...]

Devagar, eis-me: o meu fronte toca a este consentimento...
Este corpo, eu o perdôo, e saboreio a cinza.
Entrego-me inteira à felicidade de descer,
Aberta às escuras testemunhas, os braços supliciados,
Entre palavras sem fim, sem mim, balbuciadas.
Dorme, minha sabedoria, dorme. Forma esta ausência;
Volta ao germe e a assombrada inocência,
Abandona-te viva às serpentes, aos tesouros.
Dorme sempre! Desce, dorme sempre! Desce, dorme, dorme!

(A porta baixa é um anel... onde o véu
Passa... Tudo morre, tudo ri na garganta que fala...
O pássaro bebe na tua boca e não podes vê-lo...
Vem mais baixo, fala baixo... O escuro não é tão escuro...)

[...]




March 02, 2007


Já que o assunto é família, vou falar dela que tem na minha cabeça uma imagem de matrona gorda, baixinha, simpática e dura ao mesmo tempo, e preta.... preta como um tição, peituda, engraçada, pele lisa e simpática, abraço gostoso, cheia de dengo e riso. Tudo o que não tive. Porque o que ficou na lembrança do nome, foi mesmo a coisa dela, inflexível memória. O pai era de família nobre holandesa, a mãe também porque eram primos, e o nome está em livros de história como Savoie, a parte afrancisada, mas em flamengo é mais complicado e cheio de van e der. Em todo caso, isso de nome carrega importância básica porque cria laços e obrigações. E dura até hoje!

Depois
Primeiro eu fechei os olhos, depois eu me sentei no vazio da noite e fiquei lá, agachada, esperando.

Fui abrindo devagar as persianas. Cheio o ar daquele sentir mofado de coisa esquecida, e no meu nariz. Como poderia adivinhar eu que a solidão dele pesava tanto em mim que no vazio das palavras que ele não sabia exprimir? E era culpa minha?, eu pensei. E pensando continuava acubranhada. Tanta miséria humana cheia na sola do sapato... e tudo por causa do reitor, ele que disse que vaca tinha uma bosta que não fedia. Ele, o ignorante.

Ontem, a velha me deu um sorriso destentado. Mais um. E eu fiquei com nojo e vergonha de mim mesma porque não quiz me sentar na frente dela e daqueles dentes faltantes e que iam crescendo em proporções desumanas tão grandes que eu que era antes tão cortês comecei a evitá-la por causa do dente, do podre e dos outros, os faltantes. Perco a fome e a vontade de comer olhando a boca dela que não para de sorrir e de me dizer que trabalhou toda a sua vida desde pequena nas casas mais ou menos de Lisboa. Isso na juventude dela, que nasceu em Santarém, terra que era também do meu 7 avô, o mesmo que era um Marques da Fonseca de prenome Luís e que se casou com uma Bessa.

Eu
fui entrando com cuidado, olhando muros e medos atravessando as frestas da janela da sala. E o sol. A mão negra dela segurou a persiana encardida e ele acordou, ranzinza, me olhando eu, cheia de silêncio de manhã e a fome de profundezas que eu queria roubar dos olhos dele, querendo também uma pitada de atenção mais prolongada que essa face disforme de acordar tão apressado e descontente. E eu tremento do anseio de mim mesma, olhei pra frente e pra dentro, entrando, entrando, entrando sem fim lá num cantinho que eu fiquei segura.

Até o final de tudo.


Ouvindo Nick Cave

November 02, 2006

O meu bairro em Montreal

Fazem dezessete anos que moro no meu bairro. Ele é bótimo. Uma vez encontrei com uma carioca recém-chegada que exclamou: "Vc mora no Leblon de Montreal?!" Aí fiquei sabendo como os novatos chamam isso aqui. Em todo caso, só não temos a praia, mas temos, só no bairro, 5 excelentes piscinas públicas (free) abertas no verão e 3 no inverno. E todas têm saunas.


Temos também quadras de tênis, espaços p/ piquenique, p/ volley, futebol, cinemas e festivais de boa música, e teatro, grátis, tanto no inverno quanto no verão; dois parques enormes e tranquilos p/ passear, correr, fazer ski, badalar, ir dançar aos domingos (sem falar nos cursos de tango ao ar livre e nos festivais de verão com cinema e música, e que acontecem dentro do parque), etc. Temos Cafés Literários (que estão ficando raros), festivais de arte com performances (também rareficando), cinemas de arte (também rareficando), e pessoas interessante (também rareficando). Sem falar na riqueza do conjunto arquitetônico, um dos mais bem conservados nas Américas (e que está sendo destruído por novas construções sem gosto e sem alma).

Justamente, mesmo com tudo isso, o bairro era ainda melhor, até sair uma reportagem na Wallpaper alemã, sobre design fashion, classificando-o como o quinto melhor lugar p/ se morar nas Américas. Depois desta malfadada matéria, tranquilamente, o caos foi se instalando e de bairro de artistas e intelectuais, ele está se transformando em um frutífero investimento p/ os interesses de promotores imobiliários com ânsias vampirescas, e aonde se instalou uma fauna heteróclita e sem creatividade, sem classe ou elegância, com complexos de novos-ricos, muito dinheiro e sem cultura alguma, cheiradores de cocaína, clientes de prostitutas, alcóolatras, passeadores de cachorros e donos de 4&4.

A decadência está instalada. Os lofts dos escultores e dançarinos encareceram de repente e eles tiveram que partir porque não podiam mais continuar pagando o novo preço do mercado, deixando locais que foram sendo transformados em lofts modernos e renovados à velocidade da luz. Trouxeram um monte de cafés americanos, clubs de trocas de casais (quer maior decadência do que uma orgia organizada quando o casal nem é mais capaz de transar? voilà a utilidade das drogas e do álcool...) , trouxeram também muita falta de paciência no trânsito, falta de bom humor, +++ falta de civilidade, falta de estacionamento, muito ponto de droga, muita prostituição, muito roubo e muitos pedófilos, além de encherem as calçadas e os parques de merda, xixi e catinga de cachorro. A salvação é que no momento ainda resta, digamos, 50% dos antigos moradores, pré-diluvianos do ciclo Wallpaper.

Fazem doze anos que moro na mesma casa, aliás, um prédio com três andares e três casas. Não são apartamentos não, não do jeito que existe no Brasil. Cada um tem seu próprio número e somos independentes um do outros, com entradas independents e exteriors, escadas exteriors para cada apartamento. Mas é um prédio só.

Embora adore o meu bairro e sempre tenha tido uma ótima relação com meus vizinhos, há dois anos atrás tive como vizinhos de cima um casal com um dogue alemão, aquela raça de cachorros caçadores enormes e musculosos, por isso mesmo chamados de molosses, do tamanho de um pônei. Eles tinham também um daqueles 4&4 também eeeenormes, com aquelas rodonas parecidas carro de guerra, o tipo californiano. E só saíam com o cachorro durante 15 minutois por dia. Quer dizer, o bicho era todo descontrolado e meio paranóico, cheio de energia acumulada. Desconfio, aliás, que o cara tinha um complexo de pênis minúsculo porque tudo p/ ele tinha que ser grande e chamar atenção; quando chegava em casa, às 3 ou 4 da manhã, a música tinha que ser alta.

Em resumo, estes dois anos foram difíceis porque eles viviam na rua, inclusive à noite, e o bicho em casa na compagnia de 2 gatos fazendo uma guerrinha contra nossos nervos, derrubando objetos, chorando, e pulando à ponto de nos acordar quando os mestres chegavam. Felizmente, eles se mudaram p/ uma casa no campo com quintal, lugar mais condizente p/ aquele zoo. No apartamento deles entrou um casal alemão, diretamente vindos da Alemanha, muito simpáticos os dois. O único problema é que a menina, sobretudo, desce as escadas e bate a porta como se tivesse raiva de existir. Um caos. Aí, antes, eu ia lá e me baixava a vizinha da Samantha, aquela chata mesmo, sorridente e simpática -até levei um Panetone italiano, delicioso por sinal, porque era perto do natal-. A primeira vez eu expliquei p/ eles que o nosso prédio é histórico, tem 120 anos, e que fica num bairro excelente e tão antigo quanto o prédio, cheio de histórias, blá, blá, blá...e madeiras, portas e muros VELHOS. E terminava p/ pedir que quando eles chegassem, sobretudo às 3 da manhã, não batessem a porta com força, e não subir as escadas correndo porque eles me acordavam com o barulho. Eles sorriam, me diziam que eram pessoas educadas e 'profissionais', embora eu não veja a relação, acho que na Alemanha os 'profissionais' pensam que não fazem barulho!!! Mas, no dia seguinte, ou 2 dias depois, eles recomeçam. Sempre.

Fui lá umas 5 vezes, sem partir p/ a ignorância porque não é meu feitio, até que cansei. Aí eu cansei mesmo de pedir que parassem com o barulho. Não digo mais nada. Consolo-me dizendo que, de tudo quanto é forma, eles incomodam mil vezes menos que o cachorro; quer dizer, o barulho maior é durante o dia e isso é fichinha p/ quem foi acordada no meio das suas noites, durante 2 anos, por um molosse frustado. Para o meu bem estar psicológico e mental, decidi fazer abstração do barulho; a menina vive em casa porque faz doutorado, e é daquelas alemãs enérgicas, que vive subindo e descendo escadas correndo... mas eu tanto tentei que consegui. Eu os ignoro totalmente, à não ser quando dou com eles na frente da casa.

Antes, nestas horas, a vizinha da Samantha me possuía, eu sorria e dava um bom dia educado. Só isso. Depois que verifiquei que eles não querem parar com o barulho, quem baixa é o Horatio do CSI:Miami.

Deu p/ entender?

Bom, esta semana, me vem todo assustado o carinha que faz a limpeza p/ me dizer que chegando, ele deu de cara com um homem arrombando a porta dos alemães; o homem fugiu e ele veio me perguntar se eu não tinha ouvido barulho. Eu disse que ouvi sim, um barulhão danado, mas acrescentei que isso não era excepcional porque barulho vindo da casa deles eu ouço sempre porque fazem sempre muuuuiiiito barulho, frisei, honesta. À noite, a alemã não veio falar comigo, fui eu que fui perguntar sobre o tal ladrão porque estava curiosa p/ saber o que os policiais disseram. Ela visivelmente, estava com raiva porque eu não fui 'averiguar' a origem do barulho! Respondi-lhe que o barulho não era maior do que o que eles fazem diariamente. Aí, ela inocentemente, me disse que "quando a gente ouve barulho, tem que ir lá averiguar, mesmo se estiver achando que se está incomodando o vizinho...!".

Aí, eu fiquei assim, meio parada, tentando refletir se tinha entendido bem, e baixou em mim o Horatio do CSI:Miami, com aquele jeito de raposa noturna, fria, enracinada, cínica e meio psicótica.

Não é que a mulher estava pensando que eu era mucama?! Bom, isso até ela ver o Horatio de perto, cara à cara, porque depois ela anda cautelosa.
Ontem e hoje, ela está silenciosa. Que nem anjo de presépio.

October 26, 2006

Com esta aqui, eu quase morri de rir, e tomei a fina decisão de surrupiar do Copy &Paste:
Cemiteriedade
O Pessoal lá do cemitério, está meio encanado com a gente desde que começou a reforma do túmulo do meu avô. O primeiro que começou a reforma faleceu e deixou a gente na mão, então tivemos que contratar outro. Quando foi pra fazer a exumação do corpo, o outro foi mordido por escorpião e agora que um terceiro assumiu, foi internado ontem, chegou louco no cemitério e precisou ser levado pro hospital de camisa de força. Diz meu pai que hoje, quando ele chegou no cemitério, levando as plaquinhas de cobre pra colocar no túmulo, os coveiros se esconderam com medo de serem contratados por ele.O administrador do cemitério disse pro meu pai, que era melhor contratar um inimigo pra terminar o serviço, assim já fazia dois trabalhos de uma vez. As plaquinhas voltaram, ninguém quis colocar e meu pai disse que também não vai colocar não e perguntou se a empregada não quer ir lá fazer o serviço, ela disse que vai mandar o ex-marido: - Pelo menos ele não fica com aquela vaca!

October 21, 2006

Poesia do mito, uma complexa associação de idéias (4)

Lousnak

Lousnak
Ela é noturna e fascinante; suas canções não deixam ninguém indiferente. Seu canto é emotivo, muito suave, doloroso, cheio de silêncios e poesia. Pintora e atriz (Ararat, de Atom Egoyan), mas sobretudo cantora, seu nome significa "pequena lua" e sua música possui uma alma. De origem armeniana, ela vive em Montreal há mais de vinte anos, mas ao ouví-la, nós somos imediatamente transportados à um outro mundo, docemente sombrio, docemente melancólico, feito de beleza e profundidade.

Poesia do mito, uma complexa associação de idéias (3)

K.
Parque du Mont-Royal, 2000
Copyright© k.s. design.

Poesia do mito, uma complexa associação de idéias (2)

Hécate
Mágica, caótica, imprevisível, Hékate ensinava a alma a recordar suas vidas passadas, sendo uma divindade subterrânea, quer dizer, ctônica. As divindades ctônicas residiam abaixo da superfície da terra, concernadas com o básico da vida: fertilidade, parto, colheitas, destino e morte, faziam germinar e frutificar as possibilidades de tudo que é material ou abstrato.
O próprio Zeus, que portanto não se submetia à nenhum outro ser, rendia culto à Hécate, com quem compartilhava o poder de conceder ou reter os desejos humanos e os domínios do mundo. Deusa Tríplice, em trindade com Perséfone e Deméter, ela não reinava apenas sobre o mundo da magia e da morte, mas sobre tudo que dizia respeito ao nascimento, renascimento e renovação. Em algumas versões, ela era mãe de Scyylla, e filha de Perseu e Astéria; em outras, filha de Nyx, a noite profunda e antiga do inconsciente.
Sua origem remonta, historicamente, aos karianos da Ásia menor, chegando em Grécia no século 6 a.c. . Hekat, uma antiga palavra egípcia que significa "Todo o poder", pode ser a origem do nome Hécate. Em alguns lugares da Tessália, ela era cultuada sómente por mulheres, nas noites de lua cheia.
Os mitos gregos atribuem-lhe a concessão da prosperidade material, o dom da eloquência nos discursos, a vitória nos campos de batalhas, assim como o acesso à memória do Inconsciente Coletivo e das forças primitivas. Representada carregando torchas acessas cuja luz indica o caminho à seguir na vasta escuridão de nosso ser interior, acompanhada por espíritos e lobos que uivam, Hécate é a imagem invencível de uma guardiã do mundo subterrâneo que envia sabedoria intuitiva e sonhos proféticos p/ a humanidade. E visão inspirada aos artistas.

Poesia do mito, uma complexa associação de idéias (1)

Julia Margaret Cameron
The Kiss of Peace, 1869

"Be it addressed to the eye, ear, or mind only; be it a song of Handel, a painting of Reynolds, or a verse of Shakespeare; if it " transport our minds beyond this ignorant present" , if it full us with consciousness of immortality, or the pride of knowing right from wrong, it is to us, to all intents and purposes, poetry. Nor is it anything uncommon in language to apply the term to these arts. We hear of the poetry of sculpture, the poetry of painting.”
J. Keble, Occasional Papers and Reviews (Oxford, 1877) p. 152-153

As palavras de John Kebler, líder do Movimento de Oxford, refletem o pensamento de Julia Cameron. E resumem o seu trabalho. A poesia do mito, de acordo com Kebler, nos transporta, e inspira uma complexa associação de idéias ligadas à moral e à espiritualidade. Esta teoria foi defendida por David Hartley em Observation on Man, em 1749. Julia Cameron e seu marido, Charles Cameron, foram fortemente influenciados pela teoria de David Hartley; eles eram amigos de Henry Taylor, que mantinha relações estreitas com os escritores Coleridge e Wordsworth, e que também foram fortemente influenciados por Hartley. Charles Cameron escreveu, em 1824, um ensaio intitulado Essay on the Sublime and Beautiful.

Julia Cameron
Para muitos, sua técnica era imperfeita, mas é justamente esta 'imperfeição' que gera a poesia e a beleza das imagens de Julia, que começou a trabalhar com fotografia em 1863 e nomeia seu trabalho de 'Arte Divina'. Vaporosas, suas imagens têm uma 'nebulosidade' intencional que nos conduz à uma atmosfera romântica e mística de inspiração intemporal.
Leitora de Keats e de Tennyson, ela fazia parte de um grupo de pessoas que propunham questionamentos e reflexões sobre a poesia, literatura e arte em geral. Graças à sua técnica e tenacidade, Julia Cameron forneceu uma preciosa contribuição para a estética na arte fotográfica e seus trabalhos continuam inspirando artistas contemporâneos.
Mulher forte e dotada de un temperamento ardente, ela começou a trabalhar com a fotografia aos quarenta e oito anos. Com a sua família, suportava frequentemente dificuldades financeiras, mesmo tendo ajuda financeira de Lord Overstone, à quem escreveu : "... so, I suppose I must suppress my ambition and stop, but it is an art full of mystery and beauty... " .
(NOTA : Este texto é um extrato de um projeto universitário, 'HISTOIRE DE LA PHOTOGRAPHIE (1830 - 1940) - JULIA MARGARET CAMERON ET LES PRÉRAPHAÉLITES', escrito por mim, e que foi impresso em 1996 pela Université du Québec à Montreal. Cópias interditas, of course!).

September 24, 2006

Thomas Mann e a aranha do quadro do Klint

Esta manhã, eu estava justamente conversando com o Ciro sobre um assunto relacionado com a frase do Khalil Gibran que a Valdelice me enviou, a do post anterior: alguns dias depois de ter voltado de um retiro Vipassana de silêncio, 10 dias meditando 10 à 12 horas por dias, eu acordei uma manhã e abrindo os olhos vi na parede algo brilhante e magnífico, pronto à entrar atrás do meu poster de Gustav Klint. Foi uma parada do tempo. Um silêncio que pareceu durar uma eternidade. Ou simplesmente nada. -é nestas horas que nós percebemos que o tempo não existe realmente, embora nunca poderemos voltar atrás ...-. Ora, petrificada pela beleza do que eu via, não percebi logo que o objeto brilhante era uma aranha, inseto pequeno e que normalmente achava feio e ao qual eu normalmente dedicava um total desprezo devido à sua pequenez, à sua feiúra e à sua qualidade de inseto. Mas naquele momento, acordando, eu só percebi as luzes. Firmando a vista, abrindo mais os olhos e tomando consciência de que eu não estava sonhando, eu pude perceber algo nela que modificou totalmente a forma com que olho não só os insetos mas como procuro ver o mundo em geral. Em volta dela havia linhas brilhantes que a faziam parecer uma pedra preciosa, suas longas pernas eram fios em ouro, de uma elegância que eu nunca poderia suspeitar.

Foi uma das imagens mais lindas que eu já vi, e portanto era uma aranha, destas de longas pernas e que se escondem com rapidez quando percebem nossa presença. A beleza do inseto primeiro fez nascer em mim uma admiração. Eu fiquei profundamente tocada; era algo espiritual. Através desta visão eu pude entender a atração que jóias e brilhos têm em geral p/ os seres humanos: existe uma relação entre o espírito e linhas brilhantes sutis que nos 'encerclam'. Somos seres brilhantes, luminosos e belos. E tudo o que nos lembra este estado, nos atrai.

Eu já tinha percebido também, durante retiros intensivos de meditação e de silêncio, que nós temos, perto da superfície externa da nossa pele, linhas extremamente sutis e que repetem ad infinitum uma ornamentação parecida com motivos utilizados nos anos vinte - parecidos com folhas e flores-, ou certos motivos parecidos com uma gota de água vista num microscópio ou de uma gota de água que se gelifica na janela. Mas em forma extremamante sutil e viva, transparente, finíssima, dinâmica e elegante. São formas que se recriam sem parar, com muita elegância e rapidez, formando eternamente formas belas. Nós todos somos encerclados po restas linhas, numa espécie de dança; elas estão sempre se transformando e se auto-criando, como se fosem plantas vivas dançando eternamente.
Todo o seu movimento lembra realmente de uma dança sutil, dinâmica, extremamente elegante.
Acho que são as mesmas linhas vistas no inseto, ou bem parecidas, mas a diferença é que as do inseto eu não vi meditando, mas estando simplesmente presente no momento.

A experiência da meditação me mostrou que uma grande parte do mundo é completamente ignorada por nós, mas que existe realmente embora não possamos percebê-la à todo momento. Sei que pude perceber toda esta beleza por causa da meditação, que me ajudou à acalmar meu espírito e retirar grande parte de um véu que encobre meus olhos. Mas mesmo se esta visão da beleza pura foi rápida, e embora eu não possa percebê-la todo o tempo, existe dentro de mim o conhecimento da existência dela, nascido da experiência do silêncio e da auto-observação.

Isso me faz lembrar de uma frase de Thomas Mann no filme Morte em Veneza: "A visão da beleza pura é o prenúncio da morte próxima". Eu tinha quatorze anos quando a ouvi mas a minha alma já velha de tanta dor sentiu esta compreensão silenciosa do que nos passa como uma corrente; não me recordo se a frase foi literalmente esta, mas foi a que ficou no meu espírito e depois de tê-la arquivada na minha memória durante todos estes anos, eu nunca pude deixar de constatar o quanto é verdadeira.

April 17, 2006

Projeto Releituras e Jack Kerouac


Meu conto gótico no Releituras
Leiam um dos meus contos no Projeto Releituras, que é um excelente site p/ quem curte literatura.

Jack Kerouac e a Beat Generation
Quando dizem que na vida a gente obtém o que quer, é verdade. Eu era vidrada em Jack Kerouac e na Beat Generation e o meu sonho era viver no mundo deles, como eles. E sem premeditar ou mesmo perceber, tranquilamente foi o que aconteceu, e este espaço de tempo foi o suficiente p/ eu me conscientizar que certos eventos literários vividos com graça e elegância no papel e quando lidos, podem ser assustadoramente trágicos. A vida, simplesmente. Embora na minha alma a beleza daqueles momentos dilacerantes e dramaticamente verdadeiros, e singelos, tão inocentes, sem alguma máscara ou artifícios, tenham deixado uma marca profunda. Eu sou muito feliz por ter vivido isso.

O dia em que ouvi meu amigo falando no telefone com seu co-locatário, eu sabia que a voz indistinta no outro lado da linha seria um grande amor na minha vida. Uma emoção totalmente nova entrou na minha consciência e quando ele ultrapassou a porta da frente e me convidou à tomar um café -eu me sentei na sua frente e olhei aqueles olhos azuis profundos e pela primeira vez na minha vida olhei profundamente lá dentro dos olhos de alguém com coragem e paciência e o tempo – que nos corrói por dentro- de ver não somente a superfície (e ele não desviou o olhar nem os abaixou -seus olhos infinitos-), eu soube que um anjo vagabundo estava ali na minha frente. E não era questão de um sonho focalizado em Jack Kerouac não, pois eu tinha me esquecido dele à muito e portanto os próximos anos da minha vida iria copiar no palco de Montreal e através da febre de jazz -pianos e saxs daquelas noites frias- os passos de algumas existências que se assemelhavam sem mesmo mostrar uma ínfima suspeita. Eu tinha me esquecido, ou nunca sabido até então, que Kerouac era de origem franco-canadense justamente, seus pais tendo emigrado do Québec para Lowel.


Minha amiga que eu gosto muito
Conheci ela na rua Sherbrook, passeando; não, p/ ser mais exata, atravessando a rua. Uma coisa mesmo estranha é que embora eu nunca tenha tido um interesse particular pelas culturas orientais em exceção do Vietnam e do Cambodja, eu sempre desenvolvi grandes e profundas amizades com pessoas vindas destas culturas. Minha falta de interesse sempre veio, confesso envergonhada, que sou arisca à certas expressões culturais e artísticas como os móveis -eu juro- pois tenho horror do design dos móveis japoneses e chineses sobretudo! Mas não é minha culpa pois sempre fiz um grande esforço p/ entender e mesmo gostar, mas está acima de minhas forças.

Mas as amizades que crio com pessoas destas culturas sempre foram verdadeiras e quase eternas. É com minha amiga sul-coreana que conheci no meio da rua, Jean O., que passo horas falando sobre a diferença da percepção que temos do mundo. E fico abismada de verificar, mas sem analisar o porquê exatamente, de como os coreanos do sul são parecidíssimos com os sul americanos, mas sobretudo com uruguaios e peruanos. Esta minha observação é puramente subjetiva e eu deveria acrescentar, com uruguainos e peruanos que eu conheço. Mas, em todo caso, espero que vcs tenham entendido. Isso p/ dizer que constatei que existem mais afinidades entre sul-coreanos, chinese, vietnamitas, cambodjanos com as culturas da américa latina do que com europeus ou norte americanos. Será que é por causa da herança dos povos autóctones? Não sei. Talvez eu possa acrescentar os tibetanos nesta lista, embora eu não tenha tido amigos tibetanos e nem conhecido profundamente algum deles mas tenha conversado com muitos em várias ocasiões, tanto no Canadá quanto na França e à primeira vista eles são muito parecidos com brasileiros, pasmem!

k.
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March 15, 2006

Aniversários, Jung, Freud e a família

O final de fevereiro e começo de março é uma época muito importante p/ mim, pois é o aniversário de muita gente que eu gosto e amo. À todos vcs que não gostariam de ver seus nomes aqui em público, feliz aniversário.

É aniversário dos meus dois peixinhos de amor!!!! Eu amo vocês.
Na sexta-feira, 10 março, foi a festa de aniversário da minha amiga M., de quem eu gosto imensamente, sendo ela uma das raras pessoas que sempre me deu liberdade total de ser o que sou, desaparecendo ou me apresentando quando me dá na telha. Nós nos damos muito bem porque somos livres e independentes e nos respeitamos. E faz 19 anos que a relação dura, atravessando choros, doenças, filhos, maridos. E foi muito gostosa a festa de aniversário dela; muito bom ir e ver outros amigos, mais os amigos dela e curtir todos eles. Afinal, nós temos bom gosto.

Não dá e nem interessa contar sobre todos os assuntos que falamos na festinha (música, comida e bebida muito boa por sinal) ou de todas as pessoas e fatos dignos de serem citados, mas de uma coisa eu estou à fim de falar justamente porque virou moda na América do Norte e Europa, e deve estar chegando no Brasil. Mas quero frisar que não é porque pesquisei o assunto que eu seria partidária desta teoria. Em todo caso, à cada um de escolher o seu campo, mas na minha humilde opinião, sedutora à primeira vista, ela [a teoria em questão] se tornou demais pop à ponto que algumas pessoas coloquem uma carga 'espiritualista', sem falar no número cada vez maior de pseudo-terapeutas e charlatães que surgiram em consequência. Aí está o perigo.
Vai o texto aí embaixo:

Minha tetravó, Antônia Teodora de São José (? -1881).
Fazenda Oliveira, comarca do Rio das Mortes, MG.
Foto do provável batizado de meu trisavô, Antônio, em 1840.


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A Psico-genealogia
Escrito por Katia S.


Englobando um número grande de teorias e escolas de pensamento, a psico-genealogia tem na Dra. Anne Ancelin Schützenberger uma das figuras de proa. Antiga colaboradora de Jacques Lacan e de Françoise Dolto [1], ela é professora emérita da Universidade de Nice, onde dirigiu durante mais de vinte anos o Laboratório de Psicologia Social e Clínica.
Segundo a psico-genealogia, nós legamos à nossos filhos, além de nossos cromossomas, nossos sofrimentos emocionais assim como os dos nossos antepassados. Juntamente com o Inconsciente Coletivo [2], um outro conceito prisado pela teoria da psico-genealogia é a Lealdade Familiar Invisível [3], e que está intimamente ligado ao conceito de justiça familiar. Segundo esta teoria, repetir os mesmos fatos, datas ou idades que fizeram a novela familiar da nossa linhagem é uma maneira para nós de, à nível inconsciente, honrar os nossos antepassados e viver em lealdade com eles; assim, cada família manteria uma contabilidade subjetiva daquilo que cada membro deu e recebeu no passado e no presente, e do que dará e receberá no futuro. Haveria assim, em cada família, regras de lealdade e um sistema de contabilidade inconscientes que fixariam o lugar, o papel e as obrigações familiares de cada membro. Estas regras de lealdade são chamadas de ‘invisíveis’ porque são inconscientes. As Lealdades Invisiveis seriam, entre outras, a causa de atos ou situações que obrigariam as pessoas à não depassarem seus pais à nível social ou intelectual. [4]

Esta necessidade de contabilização é frequentemente transgeneracional, quer dizer, passa de geração à geração: "o que recebemos de nossos pais, nós devolvemos à nossos filhos". A pessoa que de forma inconsciente herdou a mensagem que lhe diz que um código moral familiar não foi respeitado corre o risco de carregar consigo uma dívida inconsciente e de transmití-la aos seus descendentes em várias gerações. Um exemplo seria a morte do ator Brandon Lee durante uma filmagem, causada por uma bala esquecida num revólver que não deveria estar carregado. Ora, vinte anos antes deste acidente, seu pai, o célebre Bruce Lee, tinha morrido em plena filmagem de uma hemorragie cérebral, durante uma cena aonde desempenhava o papel de um personagem que iria morrer acidentalmente por um revólver que não deveria estar carregado!

Nosso inconsciente seria literalmente leal à nossa história familiar e em certas famílias pode-se observar o que é chamado de Síndrome do Aniversário (eventos que se repetem em datas cíclicas) se repetir sob a forma de doenças, mortes, abortos espontâneos ou acidentes sobre três, quatro, cinco, às vezes oito gerações!

Mas existiria uma razão obscura par este comportameno repetitivo. Podemos obervar em qualquer árvore genealógica a ocorrência de mortes violentas, adultérios, histórias secretas, crianças ilegítimas, alcolismo, etc., que são coisas que esconde-se, feridas secretas que não se quer mostrar. Ora, o que se passa quando, por vergonha, ou por espírito de conveniência, não falamos sobre o incesto, sobre a morte suspeita, sobre as falências? O silêncio que foi feito criará uma zona obscura na memória de um dos membros da família que, para preencher a falta e eliminar as lacunas, irá repetir no seu corpo ou na sua existência o drama que tenta-se esconder. Mas esta repetição não é causada porque o indivíduo em questão sabe algo desta vergonha familiar ou porque ele ouviu algo sobre o parente caído em desgraça. A vergonha não tem nenhuma necessidade de ser invocada para ultrapassar a barreira das gerações e vir perturbar um ligamento da família.

Uma hipótese para esta transmissão seria uma comunicação directa de inconsciente à inconsciente, à que Freud fez referência em Totem e Tabu, segundo a Dra. Ancelin Schützenberger; Freud evocou a possibilité de uma "alma coletiva" para tentar explicar a transmissão do inconsciente de uma pessoa ao inconsciente de uma outra :"Postulamos a existência de uma alma coletiva (...) [e a possibilidade que] um sentimento poderia se transmitir de geração em geração unido à uma falta (a qual) os seres humanos não têm mais consciência e nem a mínima lembrança (Totem e Tabu, 1913).

Existe uma outra hipótese, que complementa esta primeira, de que a mãe possa transmitir para o filho todas as imagens do inconsciente materno e estas poderiam impressionar a memória da criança que vai nascer, criando um canal para as imagens ou segredos de família que passariam de uma geração à outra através da unidade mãe/filho.

Ainda, segundo a psico-genealogia, a boa notícia é que este ciclo repetitivo pode ser evitado através da conscientisação do processo. Se a origem do mal está próxima da consciência, visualizar a árvore genealógica e tomar conhecimento da repetição pode ser suficiente para liberar o paciente do peso das lealdades familiares inconscientes.


Notas:
[1] Jacques Lacan (1901-1980) foi o seguidor que mais contribuiu e deu continuidade à obra de Freud; formou-se em medicina, atuando como neurologista. Lacan utilizou conhecimentos da lingüística, a lógica matemática e a topologia em seus trabalhos, e mostrou que o inconsciente se estrutura como a linguagem. Quanto à Françoise Dolto (1908-1988), seu gênio consistiu em levar os limites da intervenção psicanalítica até o primeiro dia de vida da criança, sugerindo aos pais que falassem com a criança de tudo o que lhes dissesse respeito, de "falar a verdade" desde o nascimento. Segundo ela, o pior para um ser humano é o que fica privado de sentido: o que não passou pela linguagem.

[2] Segundo Jung, o inconsciente coletivo subentende-se uma certa heriditariedade, mas no seu livro Psicologia do Inconsciente (1913), ele complementa: "não afirmo de modo algum a transmissão hereditária de representações, mas únicamente a transmissão hereditária da capacidade de evocar tal ou tal elemento do património representativo". No mesmo ano, 1913, em Totem e Tabu, Freud escrevia: “Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por muitos milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela".
[3] Conceito desenvolvido pelos psicoanalistas Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark, em 1973.
[4] Anne Ancelin cita um exemplo, tirado do livro La Névrose de classe (1987) do sociólogo Vincent de Gauléjac, no qual um jovem não passa nos exames universitarios inconscientemente para não ultrapassar o estatuto social dos seus pais.

K.
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December 21, 2005

Dor de Parto I

by K.S. Design

Eu estava olhando o site Amigas do Parto, e li este artigo sobre a dor do parto. Aí eu me lembrei de algo muito interessante que eu aprendi durante o parto de minha filha única. Mas para começar, é importante dizer como começou tudo.
Bom, era sete horas da manhã quando as dores começaram, e eu fui acordando com aquela pontada muito aguda na região da bexiga. Foi uma dor muito forte mas parou logo, foi realmente só uma pontada p/ me acordar. Eu sabia que eram as tais dores de parto que começavam 2 dias antes da data sugerida pela minha médica. Os cálculos, em todo caso, estavam exatos pois ela nasceria num dia 5 ao invés de um dia 7 (diferença mínima...).

Algum tempo depois, foi começando uma dorzinha aqui, parava, e uma dorzinha ali, e recomeçava. Mas não era mais aguda não, parecia cólica, mas fraquinha. Só que levava um tempo p/ recomeçar, e foi assim durante uma boa parte do dia, diminuindo o tempo entre as tais cólicas, que eram de verdade as famosas contrações. A dor só ficou forte mesmo depois de 6 horas da tarde. Antes disso, eu aguentava numa boa, andando sempre de um lado p/ outro dentro de casa, tomando chá de framboeza, que a parteira me aconselhou p/ ajudar no trabalho. Já faziam 2 dias que eu estava com uma energia monstro, e a única forma de canalizar esta energia nesta hora de dor e espera era andar dentro do apartamento, que eu fechei à chaves. E avisei à meu marido p/ não atender o telephone e só ligar p/ o hospital quando eu lhe desse o sinal vermelho.

No parto, eu comecei a me transformar num animal. De verdade, esta transformação já tinha começado antes do quinto mês de gestação, mas tão selvagem que eu não conseguia entender nem identificar. Antes do quinto mês, eu estava frequentemente com uma náusea insuportável e com um sono insaciável. Minhas náuseas eram tão fortes e frequentes que comecei a constatar que a causa era não somente os odores que eu sentia, mas os odores que eu pressentia. Uma vez andando na rua, cruzei com um homem na calçada, um homem muito bem vestido, aparentemente limpo, terno e gravata, carregando uma pasta. O bairro era de classe media alta e o lugar anode estávamos era frequentado por homens de negócios. No exato momento em que este homem passou do meu lado, eu virei p/ o outro lado para vomitar. Foi incontrolável. Ele exalava um odor tão terrível que de longe eu já tinha dedectado a sua presença e ficava tentando controlar meu impulso de vomitar e correr.

Uma das primeiras mudanças que percebi, logo no início da gravidez, foi a sensação de ter um radar com o qual eu estudava continuamente o meu meio-ambiente. Eu funcionava como se este radar me guiasse, e no meio da rua, eu era sempre rápida, lançando olhares rápidos à minha volta, e mesmo quando eu não olhava, minha atenção estava total e em vários lugares ao mesmo tempo, dedectando todos os gestos e intenções da multidão. Mesmo se as pessoas sempre me percebiam como alguém muito calma e tranquila, existia um computador potente na minha cabeça, ou na minha barriga, trabalhando ao máximo e sem nenhum esforço, estudando tudo ao meu redor.

Esta sensação só ficou mais evidente, como eu disse, depois do quinto mês, porque parei de dormir tanto, as náuseas desapareceram e eu me sentia bem melhor. Eu tinha uma energia enorme. Ter náuseas intermitentes durante cinco meses foi uma experiência difícil, mas depois disso, eu me transformei num ser forte e invencível, pronto à atacar ou fugir ao mínimo sinal de perigo, mas sem alguma violência, sem algum estress. Eu estava totalmente centada e muito segura de mim mesma, sabendo exatamente aonde meus pés pisavam, eu "farejava" os lugares e pessoas.

Mas, na época, eu ignorava tudo isso. Foram mudanças que, mesmo se não passaram despercebidas no momento, eu nunca realmente questionei. Mas durante o parto me aconteceu essa experiência que eu vou contar aqui, e foi depois dela, com o passar do tempo, relembrando esta experiência, que eu comecei à corrrelacionar as coisas e identificar claramente, e p/ mim mesma, estas mudanças que agora estou relatando.

Acho que todas as mulheres passam por isso. Mas eu estava numa situação relativamente isolada, sem amigos ou familiares por perto, ocupada com meus estudos – o que me impedia de estar frequentemente com outras pessoas com exceção das pessoas na universidade, sem contar que os amigos da minha própria cultura eram homens, e homens não se interessam muito por mudanças na vida de mulheres grávidas – e o fato de eu estar me adaptando com a cultura canadense era um ponto importante. Estar assim isolada não me incomodava nem um pouco, muito pelo contrário, eu realmente usurfruia deste tempo para direcionar toda a minha atenção na observação desta transformação, sem explicações alheias para deturpar minhas observações. O que me ajudou realmente foi meu senso de independência. Eu sempre me surpreendo com pessoas que têm a necessidade da opinião dos outros pois embora muito sociável – adoro conversas e papos furados no meio da rua, num café, saber como estão indo, o que estão fazendo, etc -, mas sou muito introspectiva também. Preciso estar comigo mesma, no silêncio. Gosto de observar as coisas. E estar grávida p/ mim era algo tão natural, e ao mesmo tempo tão íntimo, que eu realmente nunca tive a necessidade de compartilhar, no momento em que acontecia, porque minha atenção estava em observar. Eu observava, simplesmente, sem analizar, ou querer respostas. Hoje em dia é diferente. Eu já analizei, tenho respostas e vontade de compartilhar esta experiência.


Tenho um amiga que já me confessou ‘várias vezes’ que a vontade de ficar grávida só lhe veio depois que ela me conheceu grávida, pois eu não andava e nem funcionava como as outras grávidas que ela estava acostumada à ver (hoje, o filho dela é um ano mais jovem que minha filha, e ela é a minha melhor amiga aqui). Isso porque em Montreal, não sei exatamente a razão, a maioria das grávidas têm um ar de doentes e andam com dificuldades, mesmo nos primeiros meses de gravidez, e mesmo as mais jovens. A sociedade trata a mulher grávida como doente, como alguém que está sempre precisando de cuidados, dependente, acho mesmo que como uma pedra no sapato. Não quero radicalizar, mas olhando algumas mulheres grávidas eu tenho a sensação que elas mesmas transmitem esta sensação. Acho que deve ser psicológico! A grande maioria anda como se tivessem um peso enorme na barriga! Coisa que parece ser normal nos últimos meses de gravidez, mas nem isso eu tive pois mesmo dois dias antes de ter o meu bebê, eu ainda ia frequentemente na Escola Politécnica, aonde trabalhava meu marido, e subia aquela escadaria enorme sem alguma dificuldade. Nesta época eu frequentava a universidade, e minhas colegas me diziam frequentemente que a gravidez me ia muito bem, e que elas nunca tinham visto uma grávida se sentir tão bem no seu corpo. Eu sabia que era sincero pelo olhar de admiração delas. Eu fiquei grávida um ano depois de ter chegado aqui, talvez não tenha tido tempo de ser invadida por esta percepção da sociedade. Talvez. Eu realmente não tenho resposta p/ isso, mas me lembro de ver no Brasil muitas mulheres grávidas como eu neste período. Lembro-me que na semana do meu parto, indo p/ a universidade de metrô, eu e outra mulher éramos as únicas de pé dentro do trem. Ela fez um escândalo, xingando todos presentes porque eles viam que eu estava grávida, carregando peso, e ninguém tinha tido a educação de me oferecer uma cadeira. Eu me surpreendi com duas coisa; primeiro, que uma canadense tenha reagido face à isso e segundo, porque, com toda sinceridade, não tinha percebido a situação! Na maioria das vezes, eu não pensava na minha gravidez, e não me via barriguda nem frágil. Embora ela tivesse totalmente razão sobre a falta de educação do povo neste caso, mas isso faz parte da cultura daqui (eu não me incomodo tanto, não à ponto de me revoltar, porque sei que é cultural e a minha revolta face à isso não vai mudar as coisas. Embora reconheça que com um pouquinho de empatia, individualmente falando, este tipo de comportamento social poderia ser extirpado. O que eu faço é dar o exemplo de civilidade oferecendo meu lugar para os mais velhos, para os doentes, para crianças e para as grávidas; usando sempre as palavras mágicas “obrigada” e “por favor” e abrindo portas para os que passam, segurando portas depois que eu passo, etc. mas a maioria não compreende mesmo. Como se diz lá no interior da Bahia, fazê o quê, Santo Deus?! A astúcia é sempre ficar atento p/ não levar literalmente uma “portada“ na cara).

Até o sétimo mês de gravidez eu recebia cantadas por parte de muitos estudantes bem mais jovens do que eu, e que aparentemente não tinham sacado que eu estava grávida. Recebi cantadas descaradas, o que não acontecia antes da gravidez. Eu ficava realmente sem saber o que pensar, talvez tenha sido meus seios que ficaram enormes, não sei. Isso p/ mim foi um outro mistério. Embora eu não tenha engordado muito, eu estava mais cheiinha e barrigudinha. Mas, antes de tudo, eu estava felicíssima. Ficar grávida, foi um presente enorme que a vida me deu. Talvez teha sido o furor de viver que me envadiu.


A possível transmutação da dor durante o parto

Eu teria que ter um outro filho para me certificar disso e passer por um outro parto. Mas a experiência poderá servir à muitas futures mães de todas as idades, e mesmo àquelas que não se interessam a ser mães - o que é natural porque as mulheres não deveriam ser mães só porque têm orgãos que servem para se reproduzir-. Acho que é uma decisão estritamente individual, e não cabe à um governo e nem à um indivíduo outro que a própria mulher, pois se trata de seu corpo, de ter uma opinião ou decidir. Para algumas mulheres e em certos períodos de suas vidas, como foi para mim, a experiência de ser mãe é algo que elas desejam muito conhecer. E o que eu descobri é que existe em mim uma força que se revelou durante o parto, mas que já estava presente durante a gravidez, e esta força tinha um instinto tão forte e conectado com o mundo ao redor e com meu corpo, que eu compreendi intuitivamente a forma de ultrapassar a dor do parto.



- - - - - - - - - - - -- terminarei este texto no próximo post.- - - - - - - - - - - - - - - -