Writing, Flying and Huevos Revueltos

May 24, 2006

B is for bomb

Anthropomorphik calendar 1997 by Dave McKean - November.

O documentário B IS FOR BOMB ganhou a competição online CANNES 2006, um grande sucesso com quase 44 000 visionamentos! A ganhante é Carey McKenzie, documentarista da África do Sul, mas a produção é americana. O curta é narrado por uma criança que conta, em modo alfabético, os efeitos negativos gerados pelo abuso do poder nuclear. O concurso foi organizado pelo National Film Board of Canada, em associação com o Short Film Corner, do 8 ao 22 maio último.
Quem quiser visionar o curta, é só clicar aqui!

Um outro vídeo muito bom, mas nada à ver com o concurso acima, é Spin dj is a god.



k.
Wings: Writing, Flying and Huevos Revueltos
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May 23, 2006

Helena Barbas: Imagens e sombras de Madalena





Imagens madalênicas de Julia Margaret Cameron

N. Loraux dizendo: [...]E a «Grande Deusa» faz a sua aparição como «Terra Mãe personificada». E as «Terras Mães multiplicam-se, «universalmente presentes», da Anatólia à Grécia e da Grécia ao Japão, passando pela África profunda». [...]e é novamente a mulher, reduzida à sua matriz[...]
O Que É Uma Deusa? História das Mulheres - Antiguidade..., p.50;

Caí sobre um excelente trabalho, de Helena Barbas, publicado na rede: Imagens e sombras de Santa Maria Madalena na literatura e arte portuguesas - a construção de uma personagem: simbolismos e metamorfoses -.

Agora, Madalena me leva de encontro com a febre atual do 'da Vinci Code' que eu ainda não assisti porque não tenho saco p/ ficar em fila. Vou esperar 1 semana p/ ver se o frenesi acaba. Mas confesso despudoradamente que eu li o livro; e pior, gostei. Mas deixa eu explicar antes que me joguem pedra ou cacá, como dizem os franceses lá de casa. Gostei simmmm... êpa, essa caiu aqui em cima... Pois é, gostei do livro muito embora não considere o Dan Brown um grande escritor mas o que me interessou foi a possibilidade de acesso da massa à certas teorias sobre mitos femininos. Pronto, falei. Agora, deixa eu explicar tranquilamente: o livro me seduziu pelo assunto tratado, pela capacidade do autor de massificar algo tão iconoclasta. Fácil? Então porquê vcs não o escreveram antes dele?
Em todo caso, vocês estão lendo as palavras de alguém que começou à estudar mitologia aos 13 anos de idade; aos 9 eu já tinha lido a bíblica de cabo a rabo, mais por uma necessidade de conhecimento do que por religiosidade; aliás, sou absolutamente anti-religiosa. Desde os 9 anos de idade me descobri adepta incondicional de Madalena; através de Madalena cheguei às imagens arquetipais das deusas antigas e das Virgens Negras. Madalena, p/ mim, é uma história entre eu e a imagem feminina primordial. Madalena, Ísis, Artémis, Hécate, Oxum, Eleyé.
O livro de Dan Brown pode estar representando uma sementinha na consciência - ou inteligência- de muita dona de casa febril justamente devido ao assunto tratado e, justamente, ele segue uma diretiva já prevista por Jung e exemplificada nas minhas palavras roubadas à Thomas Mann: a visão da beleza pura é o prenúncio da morte próxima- ou explicando em miúdos, estamos provavélmente observando o renascimento dos mitos femininos.

Fotografias de Julia Margaret Cameron, dos arquivos da George Eastman House.



k.
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May 19, 2006

Imigração Canadá




Nas últimas semanas recebi 3 msgs de brasileiros pedindo infos sobre o Canadá com finalidade de imigração p/ este paízinho frio.
Então, les voilà:

O Canadá é um país grande e com culturas diversas. Moro no estado do Québec, que é francófono e muito frio. Depois de uns 5 anos tenho muita dificuldade de suportar este frio, que começa em outubro e vai até maio (está frio agora, 22 de maio, embora todas as folhagens estejam verdes, mas o pior é que faz quase 1 mês que está chovendo todos os dias sem parar e não tem sol!!). Em todo caso, eu adoro Montreal e sou muito feliz de morar aqui, mesmo se preciso de mais vitamina D.

Para quem está pensando em emigrar do Brasil, o melhor é se informar com pessoas que estão aqui há menos de 5 anos e idéalmente o máximo de 2. Imigrantes que chegaram há mais de 5 anos estão muito distantes da realidade de novos imigrantes e a visão que temos, tanto quanto nossas prioridades, vão se distanciando com os anos. Eu sempre aconselho aos pretendentes à imigrantes canadenses à:
1. procurar por listas de discussão de brasileiros sobre imigração p/ o Canadá;
2. através destas listas, contatar pessoas com a mesma profissão, faixa etária e que morem na região almejada;
3. à pensar objetivamente sobre a capacidade ou não de aguentar um frio que, no caso do Québec, gira em torno de -15, -20 graus no inverno e que pode chegar até a -50 ou mais, com o vento em certos dias de dezembro. E se informar sobre a realidade do clima nos outros estados canadenses.

Frase preferida do quebequense: “meu país é o inverno”
P/ pessoas esportivas, ou em todo caso ativas, a adaptação será mais fácil, sobretudo se gostam de esportes de inverno.

Profissão
Em geral, tenho a impressão que um imigrante recém-chegado terá mais oportunidades numa província anglófona; talvez devido à proximidade cultural com os EUA aonde o pragmatismo prima, à uma abertura maior à influências de outras culturas, à uma cultura menos movida à clichés terceiro-mundistas, à inexistência de uma preocupação quase constante com a proteção de uma identidade cultural ? Não sei. Mas friso que esta é só uma impressão, opinião bem subjetiva. Pode até ser discriminação minha. Só estou dando uma dica p/ que o candidato à imigrante faça uma pesquisa profunda. Em todo caso, a competência e o interesse da pessoa de acompanhar as inovações no seu ramo de especialização serão ítens primordiais.

O povo
Clique aqui p/ ler o post: Culpa do poeta japonês.
leia tbém: How Polite We Are

Mesmo se a diferença com os franceses é grande, a cultura no Québec permanece européia, mas em nenhum outro lugar encontraremos uma fusão tão justa entre América e Europa. P/ brasileiros, algumas características podem irritar um pouco, como a falta de civilidade do povão em geral, mas isso nós não percebemos logo no ínício. Um outro problema que o brasileiro enfrenta aqui é o sentimento de invisibilidade que pode, contudo, ser transcendido e mesmo muito bem aproveitado. Segundo minha experiência, com um quebequense nós raramente teremos umas gargalhadas gostosas, mas por outro lado também raramente ouviremos algum comentário negativo sobre uma outra pessoa, e o mais importante é que eles respeitam compromissos e horários.

Minha escolha seria esta se ...
O estado de British Columbia, além de ter um clima mais clemente, oferece maiores oportunidades de emprego do que o Québec. Uma pesquisa deveria ser feita pelos interessados sobre a média climática no inverno. A cidade de Vancouver é muito interessante, o problema é a chuva omnipresente.

Sistema de saúde, o caos
No estado do Québec, um problema não negligenciável é a péssima qualidade do sistema de saúde em geral e dos médicos em particular. Não conheço pessoalmente a situação do resto do país. Não existem clínicas privadas e temos que enfrentar hospitais -urgência- e clínicas governamentais lotadas. É claro que existem exceções à regra, dependendo do dia e da boa estrela de cada um. Em Montreal, esta situação é a mesma depois que o governo fechou ao mesmo tempo 7 hospitais e cortou verbas p/ a saúde.

Aconselho à pessoas que querem vir p/ o Canadá de guardar um pé à terra no Brasil, e ao menos durante alguns anos, continuar pagando um seguro saúde. No caso de doença grave, é melhor dar um pulinho no Brasil p/ fazer examens ou mesmo cirurgias que pedem uma certa urgência (ou fazer como alguns que vão p/ a Índia se tratar nos hospitais de lá). Para os adeptos de medicinas alternativas, o melhor é ficar sempre em contato com o terapeuta ou médico brasileiro (conheci uma brasileira que enviava um e-mail p/ seu homeopata cada vez que precisava, ele prescrevia o remédio e alguém de sua família pagava a conta lá no Brasil); no que diz respeito à Montreal, é difícil achar um bom terapeuta naturalista, além de serem caríssimos e alguns mesmo perigosos (tive expêriencias ruins com homeopatas em Montreal, que não são médicos e, muitos, tristemente inexperientes).

Estudar aqui
A vantagem do Canadá é em relação aos estudos, relativamente baratos comparados aos EUA e mesmo ao Brasil. Mas confesso que estou completamente por fora deste assunto depois que terminei o meu mestrado e sem vontade nenhuma de começar um doutorado, como era meu plano.

Porque não a Califórnia, USA?
P/ quem gosta do clima do Brasil e do que é positivo na cultura brasileira, ótimas opções são as cidades de San Diego, Santa Mônica e Berkeley, na Califórnia.

Links

Canadá
Tapioca Congelada
Toronto para Brasileiros
Associação Brasileira de Alberta
Brazilian Community Association/BC

EUA
Comunidade brasileira na Califórnia
Jornal Brasileiro em San Diego
Camera de comércio Brazil/California
Bons preços de viagens p/ o Brasil



k.
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April 25, 2006


April 24, 2006


April 17, 2006

Projeto Releituras e Jack Kerouac


Meu conto gótico no Releituras
Leiam um dos meus contos no Projeto Releituras, que é um excelente site p/ quem curte literatura.

Jack Kerouac e a Beat Generation
Quando dizem que na vida a gente obtém o que quer, é verdade. Eu era vidrada em Jack Kerouac e na Beat Generation e o meu sonho era viver no mundo deles, como eles. E sem premeditar ou mesmo perceber, tranquilamente foi o que aconteceu, e este espaço de tempo foi o suficiente p/ eu me conscientizar que certos eventos literários vividos com graça e elegância no papel e quando lidos, podem ser assustadoramente trágicos. A vida, simplesmente. Embora na minha alma a beleza daqueles momentos dilacerantes e dramaticamente verdadeiros, e singelos, tão inocentes, sem alguma máscara ou artifícios, tenham deixado uma marca profunda. Eu sou muito feliz por ter vivido isso.

O dia em que ouvi meu amigo falando no telefone com seu co-locatário, eu sabia que a voz indistinta no outro lado da linha seria um grande amor na minha vida. Uma emoção totalmente nova entrou na minha consciência e quando ele ultrapassou a porta da frente e me convidou à tomar um café -eu me sentei na sua frente e olhei aqueles olhos azuis profundos e pela primeira vez na minha vida olhei profundamente lá dentro dos olhos de alguém com coragem e paciência e o tempo – que nos corrói por dentro- de ver não somente a superfície (e ele não desviou o olhar nem os abaixou -seus olhos infinitos-), eu soube que um anjo vagabundo estava ali na minha frente. E não era questão de um sonho focalizado em Jack Kerouac não, pois eu tinha me esquecido dele à muito e portanto os próximos anos da minha vida iria copiar no palco de Montreal e através da febre de jazz -pianos e saxs daquelas noites frias- os passos de algumas existências que se assemelhavam sem mesmo mostrar uma ínfima suspeita. Eu tinha me esquecido, ou nunca sabido até então, que Kerouac era de origem franco-canadense justamente, seus pais tendo emigrado do Québec para Lowel.


Minha amiga que eu gosto muito
Conheci ela na rua Sherbrook, passeando; não, p/ ser mais exata, atravessando a rua. Uma coisa mesmo estranha é que embora eu nunca tenha tido um interesse particular pelas culturas orientais em exceção do Vietnam e do Cambodja, eu sempre desenvolvi grandes e profundas amizades com pessoas vindas destas culturas. Minha falta de interesse sempre veio, confesso envergonhada, que sou arisca à certas expressões culturais e artísticas como os móveis -eu juro- pois tenho horror do design dos móveis japoneses e chineses sobretudo! Mas não é minha culpa pois sempre fiz um grande esforço p/ entender e mesmo gostar, mas está acima de minhas forças.

Mas as amizades que crio com pessoas destas culturas sempre foram verdadeiras e quase eternas. É com minha amiga sul-coreana que conheci no meio da rua, Jean O., que passo horas falando sobre a diferença da percepção que temos do mundo. E fico abismada de verificar, mas sem analisar o porquê exatamente, de como os coreanos do sul são parecidíssimos com os sul americanos, mas sobretudo com uruguaios e peruanos. Esta minha observação é puramente subjetiva e eu deveria acrescentar, com uruguainos e peruanos que eu conheço. Mas, em todo caso, espero que vcs tenham entendido. Isso p/ dizer que constatei que existem mais afinidades entre sul-coreanos, chinese, vietnamitas, cambodjanos com as culturas da américa latina do que com europeus ou norte americanos. Será que é por causa da herança dos povos autóctones? Não sei. Talvez eu possa acrescentar os tibetanos nesta lista, embora eu não tenha tido amigos tibetanos e nem conhecido profundamente algum deles mas tenha conversado com muitos em várias ocasiões, tanto no Canadá quanto na França e à primeira vista eles são muito parecidos com brasileiros, pasmem!

k.
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April 10, 2006


March 15, 2006

Aniversários, Jung, Freud e a família

O final de fevereiro e começo de março é uma época muito importante p/ mim, pois é o aniversário de muita gente que eu gosto e amo. À todos vcs que não gostariam de ver seus nomes aqui em público, feliz aniversário.

É aniversário dos meus dois peixinhos de amor!!!! Eu amo vocês.
Na sexta-feira, 10 março, foi a festa de aniversário da minha amiga M., de quem eu gosto imensamente, sendo ela uma das raras pessoas que sempre me deu liberdade total de ser o que sou, desaparecendo ou me apresentando quando me dá na telha. Nós nos damos muito bem porque somos livres e independentes e nos respeitamos. E faz 19 anos que a relação dura, atravessando choros, doenças, filhos, maridos. E foi muito gostosa a festa de aniversário dela; muito bom ir e ver outros amigos, mais os amigos dela e curtir todos eles. Afinal, nós temos bom gosto.

Não dá e nem interessa contar sobre todos os assuntos que falamos na festinha (música, comida e bebida muito boa por sinal) ou de todas as pessoas e fatos dignos de serem citados, mas de uma coisa eu estou à fim de falar justamente porque virou moda na América do Norte e Europa, e deve estar chegando no Brasil. Mas quero frisar que não é porque pesquisei o assunto que eu seria partidária desta teoria. Em todo caso, à cada um de escolher o seu campo, mas na minha humilde opinião, sedutora à primeira vista, ela [a teoria em questão] se tornou demais pop à ponto que algumas pessoas coloquem uma carga 'espiritualista', sem falar no número cada vez maior de pseudo-terapeutas e charlatães que surgiram em consequência. Aí está o perigo.
Vai o texto aí embaixo:

Minha tetravó, Antônia Teodora de São José (? -1881).
Fazenda Oliveira, comarca do Rio das Mortes, MG.
Foto do provável batizado de meu trisavô, Antônio, em 1840.


. . . . . . . . . . . . . .
A Psico-genealogia
Escrito por Katia S.


Englobando um número grande de teorias e escolas de pensamento, a psico-genealogia tem na Dra. Anne Ancelin Schützenberger uma das figuras de proa. Antiga colaboradora de Jacques Lacan e de Françoise Dolto [1], ela é professora emérita da Universidade de Nice, onde dirigiu durante mais de vinte anos o Laboratório de Psicologia Social e Clínica.
Segundo a psico-genealogia, nós legamos à nossos filhos, além de nossos cromossomas, nossos sofrimentos emocionais assim como os dos nossos antepassados. Juntamente com o Inconsciente Coletivo [2], um outro conceito prisado pela teoria da psico-genealogia é a Lealdade Familiar Invisível [3], e que está intimamente ligado ao conceito de justiça familiar. Segundo esta teoria, repetir os mesmos fatos, datas ou idades que fizeram a novela familiar da nossa linhagem é uma maneira para nós de, à nível inconsciente, honrar os nossos antepassados e viver em lealdade com eles; assim, cada família manteria uma contabilidade subjetiva daquilo que cada membro deu e recebeu no passado e no presente, e do que dará e receberá no futuro. Haveria assim, em cada família, regras de lealdade e um sistema de contabilidade inconscientes que fixariam o lugar, o papel e as obrigações familiares de cada membro. Estas regras de lealdade são chamadas de ‘invisíveis’ porque são inconscientes. As Lealdades Invisiveis seriam, entre outras, a causa de atos ou situações que obrigariam as pessoas à não depassarem seus pais à nível social ou intelectual. [4]

Esta necessidade de contabilização é frequentemente transgeneracional, quer dizer, passa de geração à geração: "o que recebemos de nossos pais, nós devolvemos à nossos filhos". A pessoa que de forma inconsciente herdou a mensagem que lhe diz que um código moral familiar não foi respeitado corre o risco de carregar consigo uma dívida inconsciente e de transmití-la aos seus descendentes em várias gerações. Um exemplo seria a morte do ator Brandon Lee durante uma filmagem, causada por uma bala esquecida num revólver que não deveria estar carregado. Ora, vinte anos antes deste acidente, seu pai, o célebre Bruce Lee, tinha morrido em plena filmagem de uma hemorragie cérebral, durante uma cena aonde desempenhava o papel de um personagem que iria morrer acidentalmente por um revólver que não deveria estar carregado!

Nosso inconsciente seria literalmente leal à nossa história familiar e em certas famílias pode-se observar o que é chamado de Síndrome do Aniversário (eventos que se repetem em datas cíclicas) se repetir sob a forma de doenças, mortes, abortos espontâneos ou acidentes sobre três, quatro, cinco, às vezes oito gerações!

Mas existiria uma razão obscura par este comportameno repetitivo. Podemos obervar em qualquer árvore genealógica a ocorrência de mortes violentas, adultérios, histórias secretas, crianças ilegítimas, alcolismo, etc., que são coisas que esconde-se, feridas secretas que não se quer mostrar. Ora, o que se passa quando, por vergonha, ou por espírito de conveniência, não falamos sobre o incesto, sobre a morte suspeita, sobre as falências? O silêncio que foi feito criará uma zona obscura na memória de um dos membros da família que, para preencher a falta e eliminar as lacunas, irá repetir no seu corpo ou na sua existência o drama que tenta-se esconder. Mas esta repetição não é causada porque o indivíduo em questão sabe algo desta vergonha familiar ou porque ele ouviu algo sobre o parente caído em desgraça. A vergonha não tem nenhuma necessidade de ser invocada para ultrapassar a barreira das gerações e vir perturbar um ligamento da família.

Uma hipótese para esta transmissão seria uma comunicação directa de inconsciente à inconsciente, à que Freud fez referência em Totem e Tabu, segundo a Dra. Ancelin Schützenberger; Freud evocou a possibilité de uma "alma coletiva" para tentar explicar a transmissão do inconsciente de uma pessoa ao inconsciente de uma outra :"Postulamos a existência de uma alma coletiva (...) [e a possibilidade que] um sentimento poderia se transmitir de geração em geração unido à uma falta (a qual) os seres humanos não têm mais consciência e nem a mínima lembrança (Totem e Tabu, 1913).

Existe uma outra hipótese, que complementa esta primeira, de que a mãe possa transmitir para o filho todas as imagens do inconsciente materno e estas poderiam impressionar a memória da criança que vai nascer, criando um canal para as imagens ou segredos de família que passariam de uma geração à outra através da unidade mãe/filho.

Ainda, segundo a psico-genealogia, a boa notícia é que este ciclo repetitivo pode ser evitado através da conscientisação do processo. Se a origem do mal está próxima da consciência, visualizar a árvore genealógica e tomar conhecimento da repetição pode ser suficiente para liberar o paciente do peso das lealdades familiares inconscientes.


Notas:
[1] Jacques Lacan (1901-1980) foi o seguidor que mais contribuiu e deu continuidade à obra de Freud; formou-se em medicina, atuando como neurologista. Lacan utilizou conhecimentos da lingüística, a lógica matemática e a topologia em seus trabalhos, e mostrou que o inconsciente se estrutura como a linguagem. Quanto à Françoise Dolto (1908-1988), seu gênio consistiu em levar os limites da intervenção psicanalítica até o primeiro dia de vida da criança, sugerindo aos pais que falassem com a criança de tudo o que lhes dissesse respeito, de "falar a verdade" desde o nascimento. Segundo ela, o pior para um ser humano é o que fica privado de sentido: o que não passou pela linguagem.

[2] Segundo Jung, o inconsciente coletivo subentende-se uma certa heriditariedade, mas no seu livro Psicologia do Inconsciente (1913), ele complementa: "não afirmo de modo algum a transmissão hereditária de representações, mas únicamente a transmissão hereditária da capacidade de evocar tal ou tal elemento do património representativo". No mesmo ano, 1913, em Totem e Tabu, Freud escrevia: “Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por muitos milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela".
[3] Conceito desenvolvido pelos psicoanalistas Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark, em 1973.
[4] Anne Ancelin cita um exemplo, tirado do livro La Névrose de classe (1987) do sociólogo Vincent de Gauléjac, no qual um jovem não passa nos exames universitarios inconscientemente para não ultrapassar o estatuto social dos seus pais.

K.
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